• Alvaro de Souza

[Crítica] Canto dos Ossos: monstros queer do cinema nacional

Atualizado: Fev 17

Acho engraçado ver como ocasionalmente viraliza no Twitter - ou em outras redes - comentários sobre a escassez de obras de terror nacionais ou então que as que nós temos são copias do que é produzido lá fora. Imagino que quem faz este tipo de comentário provavelmente está muito mal informado ou simplesmente não se deu o trabalho de pesquisar direito. Afinal temos os filmes do Zé do Caixão nos anos 1960 e 1970, filmes da Rosângela Maldonado, do Walter Hugo Khouri, longas como Excitação e Reencarnação do Sexo que misturam terror com pornochanchada, filmes de terror da boca do lixo, etc. Mesmo no período da retomada tivemos filmes como Gêmeas e Olhos de Vampa e na primeira década deste século tivemos o trabalho independente de Rodrigo Aragão, Petter Baiestorf e Felipe Guerra. Isso só falando bem por cima.


O cinema de terror nacional nunca esteve morto e nem foi só uma cópia do cinema estadunidense. Em diversas vezes ele esteve encolhido lá na margem, mas morto nunca de fato. Ainda sim não deixo de ficar feliz com o boom recente do gênero por aqui. Não só porque me dá uma alegria enorme ver filmes do Denninson Ramalho, Gabriela Amaral Almeida, Marco Dutra e Juliana Rojas chegando em cinemas grandes e tendo atores globais no elenco, mas também porque sinto que este esta sendo um momento e tanto para o terror queer nacional. A pouco tempo tivemos As Boas Maneiras e O Animal Cordial que estão entre os meus filmes favoritos e agora se juntando a lista temos Canto dos Ossos.



Canto dos Ossos foi dirigido pela dupla Petrus de Bairros e Jorge Polo e lançado oficialmente este ano. Fiquei sabendo do filme após ele vencer a Mostra Aurora do Festival de Tiradentes e após um conhecido o descrever como “uma versão queer de Noite Amarela”, eu tive certeza de que precisava ver ele.


No filme nós acompanhamos a trajetória aparentemente desconexa de grupos de vampiros brasileiros que vivem no interior do Ceará e em Búzios no Rio de Janeiro. A vida de nenhum deles é muito glamorosa já que eles tem trabalhos comuns como caixa de farmácia e professor de ensino médio e passam os seus dias entre encontros e trabalho. A situação de uma delas começa a ficar tensa quando ela começa a suspeitar de que algo estranho esta acontecendo no hotel novo que irá inaugurar na região.


Canto dos Ossos no começo não estava conseguindo me prender muito, estava achando a narração esquisita e a história bem desconexa com as suas idas e vindas no tempo e espaço. Vou ser bem sincero e dizer que fiquei um bom tempo no escuro em relação ao que estava acontecendo. Mas logo no começo o filme ganha um ar tão hipnotizante que após vencer essa barreira inicial não consegui descolar os olhos da tela do computador, uma sensação parecida com a primeira vez que vi Cidade dos Sonhos de David Lynch. As cenas do misterioso dono do hotel inclusive só reforçaram essa sensação.


Essa característica meio surreal do filme pode tanto seduzir quanto afastar alguns, mas para mim funciona. Assim como a forma como ele se apropria das paisagens de Búzios e de Canindé (onde foram gravadas as cenas que se passam no Ceará). Orlas de praias, canaviais e açudes sendo reapropriados para uma história quase gótica dá uma sensação deliciosa de que coisas fantásticas podem acontecer em ambientes que conhecemos tão bem e que o cinema nacional costuma retratar apenas de forma realista.



Mas de longe o maior atrativo de Canto dos Ossos é como o filme abraça o terror queer e suas possibilidades. Falo isso não só por ser uma história de vampiros gays, lésbicas e bissexuais que vemos varias vezes trocando afetos. Se formos pensar em como pessoas queer são retratadas dentro do horror é sempre de alguma forma ligando elas com a monstruosidade de alguma forma. Se isso é algo bom ou não já é outra discussão, mas a linha de interpretação que diz que devemos abraçar esta monstruosidade é a que mais me agrada. Esses monstros são criaturas que são uma ameaça para a família nuclear heterossexual monogâmica, para a sociedade capitalista, para a sociedade vigente etc. Afinal, não poderíamos ver nisso algo de revolucionário e empoderador? Ver nessas criaturas outras possibilidades de existir para além do que é considerado a norma, isso não seria afinal algo interessante?


Tanto Canto dos Ossos quanto As Boas Maneiras têm em comum não só fato de ambos terem representatividade LGBT explícita, mas também por se apropriarem de figuras monstruosas do seu jeito (vampiros em um, lobisomem em outro). Neste, por exemplo, os vampiros vivem a margem em grupos criando as suas próprias famílias do seu jeito, se protegendo e até certo ponto se divertindo com a própria imortalidade. Eles ocasionalmente bebem o sangue um do outro e em uma das melhores cenas é quando a briga entre um rapaz recém transformado e o cara que o transformou se transforma numa pegação com ambos rindo cobertos de sangue. Todas essas imagens normalmente usadas no terror para causar medo aqui são mostradas de forma estranhamente simpática. Essa simpatia dos diretores pelos seus personagens que abraçam suas monstruosidades é talvez o que há de mais apaixonante aqui.



E já que falei deles eu gostaria de parabenizar o trabalho dos diretores Petrus de Bairros e Jorge Polo por conseguirem fazer algo tão bem-feito com um orçamento tão mínimo. O filme ficou disponível online por alguns dias na versão virtual do Festival de Tiradentes junto com um debate com ambos os diretores. Um dos momentos mais bacanas inclusive foi quando a Isabela Vitório (a montadora do filme) em que ela disse que antes de começar a edição tirou uma carta de tarô. A carta tirada foi a da morte e isso guiou toda a montagem. Pela conversa foi possível ver como Canto dos Ossos é fruto de um verdadeiro cinema de guerrilha, o tipo de filme feito com ajuda de conhecidos, gravado quando dava, várias cenas gravadas sem roteiro ou com contribuições de conhecidos a história. Um projeto realmente coletivo e o resultado é um filme que por si só é um tanto monstruoso. É um trabalho que mesmo os seus defeitos tem algo de apaixonante. E diga-se de passagem que para um filme com uma produção tão tumultuada e feita na raça o filme tem um áudio surpreendentemente bom e melhor que vários outros filmes nacionais maiores.


Canto dos Ossos é uma grata surpresa do cinema fantástico nacional desde ano, estou interessado nos próximos trabalhos dos diretores. Adoraria ver o que eles são capazes de fazer com um produção mais estruturada e um orçamento maior.


CANTO DOS OSSOS

Brasil | 2020 | 88 minutos

Direção: Jorge Polo e Petrus de Bairros

Roteiro: Jorge Polo e Petrus de Bairros

Elenco: Lucas Inácio Nascimento, Maricota, Rosalina Tamiza, Noá Bonoba


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