top of page
  • Foto do escritorPietra Vaz

[Crítica] Bottoms: de Passivonas elas não têm nada

Atualizado: 8 de dez. de 2023



O que é ser passivo para você? Não existe resposta errada: no amplo nicho em que vivemos, ser passivo implica várias possibilidades. No sentido clássico da palavra, referente ao cerne comportamental, há definições como “sem iniciativa, indiferente, apático”, ou “carente de liberdade ou livre-arbítrio”. No dicionário popular, passivo é a pessoa que "recebe" no sexo gay. Mas é curioso denotar que, embora vista como uma posição vulnerável, o passivo no ato sexual nem sempre é o submisso e existe um certo empoderamento, renegando a ideia de que o passivo é aquele que não toma iniciativa, ou que sofre as ações externas sem reagir. O choque desses duplos significados acabam sendo diretamente ligados às jornadas das protagonistas de Bottoms, pois em apenas em noventa minutos de filme elas saem da passividade de espírito e abraçam a postura ativa sobre suas vidas.


Altas expectativas já eram presentes aos familiarizados com o excelente Shiva Baby (2021), estreia da diretora Emma Seligman, que aqui se reúne com sua frequente colaboradora - e estrela - Rachel Sennott. Ao lado de um elenco talentoso, especialmente de Ayo Edebiri, que interpreta sua amiga inseparável Josie, Rachel brilha como PJ. Juntas, a dupla que protagoniza Bottoms traz de novo às telas um pouco do que fez Shiva Baby ser tão querido: constrangimento, diversão e juventude queer buscando reafirmar sua existência no mundo.



Cheia de energia e delirante na medida ideal, a premissa começa assim: aproveitando o boato acidental de que Josie e PJ passaram o verão em um reformatório, as duas melhores amigas, lésbicas e impopulares, decidem organizar um clube da luta - sim, naquele estilo David Fincher - em sua escola. A forma como isso se constrói nos minutos iniciais do filme é insana, mas ao mesmo tempo é suave, como se não houvesse outro caminho para as personagens seguirem - ao menos não naquele universo, que é uma paródia de si mesmo.


Sob pretextos feministas, mas com a real intenção de se aproximar de suas paqueras, o clube da luta vira realidade e acaba sendo um espaço seguro de desenvolvimento e troca real entre as garotas da escola, algumas populares e outras desajeitadas. O filme possui uma violência crescente, onde socos são trocados, narizes são quebrados e carros são explodidos, mas tudo é tão desencaixado do restante de sua história solar e colorida que o resultado de tudo é a comicidade.


Muito mais do que Clube da Luta (1999), Bottoms faz lembrar a comédia Superbad (2007), um filme divertido, porém hipermasculino e cisheteronormativo. O roteiro coescrito por Seligman e Sennott é um contraponto feminino e queer a essa narrativa em que os perdedores da escola bolam um plano infalível para ficar com as garotas de seus sonhos. Aqui, contudo, elas sequestram os códigos não apenas pra criar uma subversão das dinâmicas de gênero nesses filmes, mas para criar um universo que permite a essas figuras marginalizadas confabular e adotar sem restrições os privilégios dessas prisões narrativas que antes as suprimiam, e agora fazem parte de suas vanglórias.



Neste caso, os perdedores em "celibato involuntário" são substituídos por duas lésbicas fracassadas, na base da cadeia alimentar (daí que vem o título original) e com todas as inseguranças e mau-caratismo que só a imaturidade dessa fase pode oferecer. Sem perder o humor autodepreciativo, o roteiro tira sarro não apenas delas como também de outro elemento essencial dessas histórias: o time de futebol soberano. Seus jogadores, liderado pelo ótimo Nicholas Galitzine em uma atuação histérica, são ridicularizados com olhos afiados, destacando toda extravagância de suas masculinidades performáticas, que beiram não só uma infantilidade (usada como arma pelos próprios) mas também um homoerotismo involuntário.


O diretor é lamentável e a qualidade do ensino é imperceptível, o que concede às personagens uma liberdade para pôr em ação seus planos absurdos - com a ajuda ingênua do único professor que vemos em cena, o Sr. G - interpretado pelo ex-jogador de futebol americano Marshawn Lynch (uma curiosidade aleatória sobre o filme e que seu público queer muito provavelmente não vai captar tão fácil).



Independentemente de piadas internas sobre futebol americano que nós ignoramos, Bottoms conseguiu angariar uma comoção fascinante de interesse jovem durante sua campanha de lançamento. Em um contexto em que não apenas comédia, mas esse tipo de comédia não está mais sendo visto como rentável aos olhos de Hollywood, e em meio à uma greve de roteiristas e atores estadunidenses jamais vista antes, é impressionante como essa pequena produção movimentou os jovens da fiscalização Letterboxd nas redes sociais.


Houve uma expectativa tão absurda para o lançamento de Bottoms que, no Brasil, um pôster falso com um título traduzido não oficial se tornou um viral onipresente: Bottoms virou Passivonas. Essa é uma das várias demonstrações de que o público queer anseia por produções que conversam diretamente com ele, e merece que essas obras tenham uma distribuição digna nas salas de cinemas. Lá fora, a estreia foi limitada; aqui, o filme chegou direto no streaming. Uma pena, pois Bottoms é uma história calcada na amizade e que, para ser melhor desfrutado, pede para ser visto na companhia de pessoas tão entusiasmadas quanto ele próprio. Se não é possível ter uma experiência compartilhada no cinema, fica a dica para assisti-lo com o sofá cheio de amigues.



Assim como Superbad, no fim das contas, o filme presta homenagem ao caos de estar se descobrindo, rejeitando uma pretensão de realidade e inclinando-se para a sobrecarga emocional. Nós, adolescentes de quase 30 anos, nos identificamos demais. O camp de Bottoms se sobressai na criação de um novo clássico moderno com um final estrondoso que, ao som de Charli XCX, mais uma vez reproduz e subverte os clichês dos filmes jovens.


Afinal, no cinema atual, os ícones clássicos da adolescência americana clamam pela caricatura. Chafurdar neles tão excessivamente, como o faz, evoca uma lucidez rara. É o potencial catártico dessa caricatura que faz o filme brilhar, distribuindo o peso do ridículo entre todos os membros do ecossistema escolar, desde as otárias que não são populares - não por serem queer, mas por não terem talento algum - até sua nobreza intocável dos populares, que detêm o poder. Em suma, o público vê tudo o que queria ver: performances cômicas afiadas, atores carismáticos e claramente mais velhos do que seus papéis requerem, needle drops memoráveis (a de Complicated é um destaque à parte) e diálogos irresistíveis para ficarem canonizados no imaginário popular da geração Z. Tudo com uma veia satírica essencial para a representação lúcida das tradições absurdas do cotidiano pois se a revolução será passiva, Bottoms está na linha de frente!

 

Texto co-escrito por João Neto


BOTTOMS

2023 | EUA | 93 minutos

Direção: Emma Seligman

Roteiro: Emma Seligman & Rachel Sennott

Elenco: Rachel Sennott, Ayo Edebiri, Havana Rose Liu, Ruby Cruz, Kaia Garber, Nicholas Galitzine, Marshawn Lynch


0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page