• Luiz Machado

[Crítica] Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado: um show de vergonha alheia



Em tempos de nostalgia barata, qualquer produção com o mínimo de sucesso e um status cult tardio é jogo fácil. Nesta era de refilmagens/reboots em seus diversos formatos, seja com continuações de legado no cinema ou adaptações televisivas, era questão de tempo até um modesto slasher mediano (porém muito amado) dos anos 90 ressurgir com uma nova roupagem.


Essa não é a primeira tentativa de trazer Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado de volta. Em 2014, o diretor Mike Flanagan (de Missa da Meia-Noite e A Maldição daquelas casas) já havia escrito um roteiro para um remake, que morreu na praia após negociações furadas. Agora, anos depois, a produtora de James Wan (Invocação do Mal e Maligno), tal qual o Dr. Viktor Frankenstein, decidiu mais uma vez tentar reanimar esse cadáver apodrecido e esquecido há mais de duas décadas. Assim, nasce esta série: uma maçaroca covarde que na mais ambígua das comparações poderia ser chamada de uma mistura entre a série Scream da MTV com o filme Alta Tensão (2003).


Assim como a versão de 1997 e o livro homônimo de Lois Duncan que originou todas as obras, a história gira em torno de um grupo de jovens unidos por um pacto mortal. Decididos a manter o segredo de um assassinato acidental em uma noite de farra e bebedeira, eles se veem um ano depois ameaçados e perseguidos por alguém que alega "saber o que eles fizeram no verão passado". Enquanto o livro de Duncan era um mistério young-adult clássico dos anos 70 e o filme era um slasher pós-Pânico, a série é um meio-termo entre os dois, perdida num limbo, sem identidade e sem a mínima ideia do que pretende ser.


Se na premissa, o seriado parte de um ponto de origem muito sólido e específico, o “legado” do roteiro original de Kevin Williamson se perde nas entrelinhas, no esqueleto da narrativa, e o que sai a partir disso é uma das mais banais e desinteressantes abordagens que vi uma série de terror fazer em MUITO tempo. Eu Sei o Que Vocês Fizeram é exatamente o que uma produção deste estilo não pode ser: covarde. É um slasher com medo de ser slasher. Que não usa seu subgênero ao favor da narrativa, que foge do sangue, foge dos sustos, foge do que torna esse estilo tão interessante e especial para muita gente. É apenas um murder mistery desnecessariamente longo em que por diversos momentos você vai se perguntar se deu play no episódio certo já que a trama fica andando em círculos sem parar.



Haveria salvação se o roteiro apresentasse algo para o público se apegar. Ela não precisava funcionar como um slasher clássico com longas cenas de perseguições, assassino encapuzado e arma caricata. O próprio material de origem, mesmo que seguisse essa cartela, se distanciava um pouco do estilo, principalmente sendo o primeiro sucessor de Pânico na época. Mas a partir do momento em que a série insiste em fugir disso, fica confuso o que ela quer fazer de verdade. Flashbacks intermináveis da noite mais longa desde aquela que Laura Palmer morreu, subtramas envolvendo cultos e muito tempo investido em pessoas falando de mukbang. No fim, não há muito mais a oferecer do que frustração, já que as próprias cenas de morte (grande atrativo desse tipo de produção) raramente acontecem em tela.


Essa decisão poderia ser justificada pela proposta e público-alvo, pressupondo-se que é uma série para audiências jovens, então faria sentido não vermos mortes tão brutais acontecendo sempre em tela, certo? No entanto, aqui temos uma violência ainda mais gráfica do que víamos nos filmes originais. Se antigamente a personagem da Sarah Michelle Gellar morria à ganchadas off-screen sem uma gota de sangue, aqui encontramos decapitações, desmembramentos, gargantas cortadas, facões atravessando peitos e muito mais. Então qual o problema?


O problema é exatamente esse: Helen, a personagem de Sarah no filme de 97, tinha sua morte ocultada pela câmera, porém antes dela acontecer, você acompanhava 10 minutos do que é provavelmente uma das melhores chase scenes da história do horror. É uma aula de tensão e desespero pela vida daquela personagem até o ponto em que, quando ela finalmente morre, a violência gráfica não se é necessária. É aqui que a série erra: não há impacto, não há construção, tampouco tensão. Os raros momento de gore podem até chocar, mas não passam de reações baratas e momentâneas. É frustrante para um fã do gênero pois a série parece não entender de onde ela vêm e como se apresenta, e para o público geral também, já que não há muito mais o que oferecer além de momentos esporádicos de agressividade contra a vida de personagens que você não se importa.



Toda a experiência seria inassistível se não fosse o pontual humor cínico que parece compreender a linha tênue entre horror e comédia. Você pode ficar indiferente aos seus personagens horríveis, mas para o bem ou para o mal, a série oferece um delicioso olhar ácido sobre a geração Z (ou o que roteiristas de 35 anos acham que é a geração Z). Algumas piadas funcionam, outras não, mas num geral, se eu fui até o fim disso foi pelos diálogos absurdos.


E é aqui que se revela a maior estrela da série. Queridinha por ser sempre uma das primeiras a morrer em produções de horror de qualidade duvidosa, Brianne Tju* brilha com uma das melhores personagens do ano: a Margot. Uma caricatura descompensada de mean girls da nova geração, tudo sobre ela parte de um local de deboche tão bizarramente tosco que poderia dar muito errado se não fosse pelo modo afiado que Tju entrega suas falas. É realmente impagável e me aborrece ver como mais NINGUÉM do elenco consegue segurar as pontas tão bem quanto ela. A protagonista Madison Iseman até tenta em seu papel duplo, mas além de entregar uma lágrima perfeita, ela não tem muito mais a oferecer.


*Curiosamente, Tju também participou da primeira temporada da série Scream, fazendo dela uma espécie de sucessora da Sarah Michelle Gellar em encarnações televisivas de slashers clássicos dos anos 90. Good for her!



Outro ponto bastante específico da série é sua estranha forma de representar minorias. Tudo bem, é um slasher, jogo aberto, qualquer um pode morrer. Mas se torna no mínimo curioso uma série que prioriza um elenco e personagens diversificados e que continua perpetuando tropos problemáticos e ciclos de violência bem específicos dentro de um gênero que já não é muito amigável à minorias. É só olhar o elenco no começo da temporada e perceber quais estão vivos no final, principalmente considerando quais foram os primeiros a morrer e por que as únicas cenas de gore e violência que vemos em tela são praticadas contra essas minorias.


Ainda seguindo dentro dessa linha de raciocínio, mas evitando entregar muitos spoilers, é a partir disso que a finale se desenrola. É um twist tão cretino, tão bobo, tão escroto, que dá a volta e serve Entretenimento com E maiúsculo. É hilário, mas ainda estou tentando me decidir se estava rindo com ou da série. Assim como tudo nesta temporada, é uma corda bamba entre: isso é problemático ou pós-moderno? É camp ou apenas ruim mesmo? A resposta para essas indagações ainda não encontrei, porém elas fizeram aqueles 20 minutos finais valerem muito a pena, desconsiderando o tenebroso gancho para uma possível tenebrosa segunda temporada.


No fim de muita vergonha alheia, frustração e a confirmação de estarmos encarando o abismo de uma das séries mais bizarras do ano, tudo o que sobra é um gosto amargo e a pergunta mais importante de todas: se tempo é dinheiro, essas oito horas foram bem gastas?


Todos os episódios de Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado está disponível na Amazon Prime Video.


I KNOW WHAT YOU DID LAST SUMMER

T01 | 2021 | 8 episódios

Criada por: Sara Goodman

Elenco: Madison Iseman, Bill Heck, Brianne Tju, Ezekiel Goodman,Ashley Moore, Sebastian Amoruso


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