[Crítica] Maligno, delicioso e ultrajante
- Yuri Cesar Lima Correa
- 11 de set. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 18 de out. de 2021

A pessoa precisa ter muito crédito em Hollywood pra bater na porta do estúdio e pedir dinheiro querendo filmar um roteiro como esse do Maligno (2021). Ainda bem, James Wan tem o dedo metido em pelo menos cinco franquias de sucesso (Jogos Mortais, Sobrenatural, Invocação do Mal, Velozes e Furiosos e Aquaman), assim, pôde tirar essa afronta medonha da gaveta com toda a pompa e circunstância — e aí que tá: o absurdo e o grotesco não soam deslocados em produções de nicho, mas quando essas características invadem o cinema de grande orçamento, espaço reservado ao consenso do “bom gosto”, elas assumem o caráter de ultraje, de ofensa, de bofetada na cara. É como assistir pornô na mesa do jantar; o contexto transforma a criatividade em ousadia e, desse modo, o filme acaba funcionando também como catarse.
Não que Maligno tenha a mais inventiva ou original das ideias. Pelo contrário, se o roteiro assinado por Ingrid Bisu (esposa de James Wan) e Akela Cooper consegue criar algo pra chamar de seu, é porque prepara habilmente um amálgama de diversos outros filmes — usando como especial inspiração os Gialli, suspenses italianos conhecidos pela violência e refinamento estético. O resultado final é basicamente o filho bastardo de Os Olhos de Laura Mars (1978) com Brain Damage (1988): acompanhamos a enfermeira Madison (Annabelle Wallis), que após ser agredida pelo marido (Jake Abel) passa a ter visões psíquicas de assassinatos cometidos por uma estranha figura sem rosto. Determinada a descobrir quem é o culpado, ela recorre à irmã Sidney (Maddie Hasson) e aos detetives Shaw (George Young) e Regina (Michole Briana White) para desencavar no passado dela a origem desse link mental.

É nessa primeira parte que James Wan tem a oportunidade de revisitar o estilo “casa mal-assombrada”, pelo qual ele ficou consagrado em Sobrenatural e, principalmente, na franquia Invocação do Mal. Felizmente, o cineasta evita recorrer às mesmices que ele próprio já explorou dentro do subgênero, fazendo um esforço para abordar os sustos por novos ângulos — às vezes literalmente, como no momento em que ele acompanha de cima a fuga desembestada da protagonista, num ângulo absoluto de 90° que transforma Madison quase num ratinho de teste correndo dentro do seu labirinto (o que enfatiza a vulnerabilidade da moça). Por outro lado, Wan adota seu modo “diretor de horror” e inunda os cenários de sombras, escondendo o classudo design de produção de Desma Murphy, que pega emprestado dos Gialli a predileção por espaços amplos, opulentos e customizados. E apesar de menos saturados e deslumbrantes, ainda assim é divertido como alguns desses lugares parecem brincar com o estranhamento do espectador dum modo nem tão gritante e nem tão sutil; vide a enorme recepção da delegacia e a espaçosa cela onde são colocados os detidos, ambas com um pé direito tão alto que nem é enquadrado pela câmera, remetendo a cenários de teatro, claramente destacados da “realidade” mais crua, cruel e chuvosa concebida em outros instantes.
Isso, porém, não chega a configurar um problema. Inclusive, o filme se beneficia deste contraste cacofônico entre o Maligno que se leva a sério demais, com seus excessos de sombras, e o Maligno que flerta com o camp ao, por exemplo, mostrar a detetive Regina Moss chupando pirulito na frente de um corpo no necrotério. É quase como se Wan buscasse o riso involuntário quebrando o tom “dramático” com exageros propositais — dentre os meus favoritos estão: o plano que enfoca em câmera lenta o grito escandalizado de Madison ao som da melodia de Where is my Mind?, do Pixies, e aquele outro que traz Sidney estacionando seu carro na beirada de um penhasco sem motivo aparente. Divertidas, essas inserções “salvam” o filme de um tom muito pesado e pavimentam o caminho com pistas do que vem no terço final.
Assim, a grande reviravolta do projeto (obviamente, não vou revelar) acaba não sendo tanto sobre o QUE acontece, mas sim COMO é mostrado. O que impressiona e desarma o espectador durante o clímax de Maligno é justamente a ousadia de optar pelo grotesco e chafurdar nele sem pena. E junto com isso vem a catarse, como se o camp do filme fosse um personagem que, oprimido desde o começo, inspira nossa torcida quando finalmente chega seu momento de glória e libertação. You go, girl!

Certamente um corpo estranho em meio ao cenário dos filmes de estúdio da atualidade, esse longa-metragem traz boa parte de suas singularidades como ecos de um Dario Argento. Ainda que a digital dos suspenses italianos esteja menos na plasticidade (cuja exuberância aqui é muitas vezes sabotada) e mais em elementos giallescos por excelência, como a “criaturização” do assassino, a brutalidade dos assassinatos, o drama familiar oriundo ao passado, a investigação que leva a construções góticas abandonadas, a intervenção de uma psíquica, flashbacks de criancinha com faca na mão e até a arma cheia de classe utilizada pelo vilão. Fãs de Argento, Bava e, quiçá, Fulci, não devem estranhar a misturinha gostosa que Wan prepara a partir do referencial desses cineastas — sem, claro, jamais depender exclusivamente dessa identificação para não alienar o espectador desavisado. Ainda que, neste caso, sejamos todos parte do público desavisado, despreparado, inadvertido sobre aquilo que veremos. O que, por fim, ainda enverniza todo o projeto com certa queerness ao desafiar um público mais amplo no âmago do “bom gosto”. Afinal, Maligno flutua acima de consensos de “bom” e “ruim”, ele apenas ousa SER.

MALIGNANT
EUA | 2021 | 111 minutos
Direção: James Wan
Roteiro: Ingrid Bisu, Akela Cooper e James Wan
Elenco: Annabelle Wallis, Maddie Hasson, George Young, Michole Briana White, Jake Abel, Ingrid Bisu, Susanna Thompson, Mckenna Grace


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