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  • Foto do escritorDavi Barros

[Crítica] Please Baby Please: Por um cinema de excessos e fora-da-lei



Pode-se dizer que o cinema LGBT e o queer estão divididos atualmente em duas partes: a primeira se preocupa mais em realizar filmes geralmente realistas que lidam com as dificuldades, traumas e violências de pessoas que não se encaixam no padrão vigente de gênero e/ou sexualidade invariavelmente vão encontrar de alguma forma na sociedade. Não surpreendentemente, também são as produções que mais ganham destaque pela mídia e crítica mainstream, ganhando prêmios e por várias vezes sendo elogiados por conseguirem “universalizar” a experiência de um grupo social marginalizado, e assim as tornando mais palatável para um público mais “amplo”. A segunda lida mais com subculturas e aspectos que geralmente são ocultados em nome dessa suposta “universalização”, sem receios de expor relações sexuais pois não visa um público que precisa ser ensinado a não maltratar e violentar pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras. Também são produções que buscam resgatar e homenagear artistas e formas queers do passado que foram apagados em nome do assimilacionismo, menos preocupados em estabelecer uma narrativa mais clássica e narrativa. Nesse segundo grupo, podemos falar de cineastas como Yann Gonzalez, Bertrand Mandico, Caroline Poggi, Jonathan Vinnel e até produções nacionais como a do coletivo Surto & Deslumbramento e em Inferninho (2018) de Pedro Diógenes e Guto Parente, que prezam por um cinema mais onírico, excessivo, colorido e que não busca a aprovação de premiações e outras instituições que só prezam por representações especificas de pessoas queers.


Amanda Kramer, com seu terceiro longa-metragem Please Baby Please (que já se encontra disponível na MUBI) parece pertencer mais ao segundo grupo, sobretudo nesse projeto que homenageia frontalmente artistas e estéticas fortemente consolidadas em subculturas queers do passado. Habitando uma linha entre Kenneth Anger, Tennessee Williams e Steven Sondheim, o filme abraça essas referências para criar um mundo próprio de novas possibilidades, sobretudo para seus personagens. Talvez não haja palavra melhor para descrever o filme do que o camp, estética e sensibilidade que a diretora usa de forma muito consciente para estabelecer uma iconografia queer clara e reconhecível. Das cores fortes desde às atuações mais histriônicas, é uma celebração desses autores e de todo um universo construído por décadas que raramente era visto como digno justamente pelo seu caráter frívolo e por estar intimamente associadas com pessoas queers. Atualmente o camp se apresenta de forma diversa, apesar de quase todas as discussões atuais referenciaram a sua conexão com o queer, ele não possui a mesma função que outrora, antes sendo uma subcultura no qual um grupo marginalizado podia se identificar e comunicar através dela, com bordões e obras específicas, hoje se tornou um termo muito mais popular que é cooptado por diversos tipos de grupos sociais com funções distintas. Se torna também uma sensibilidade perfeita para o filme de Kramer, que lida com a artificialidade dos papeis de gêneros de forma muito frontal.



O filme ser marcado nos anos 1950 é essencial tanto para o seu lado camp, afinal um dos fatores mais importantes dessa sensibilidade é reutilizar acessórios e afins considerados démodé, ultrapassados e os ressignificar ao utilizar uma nova roupagem. E para sua exploração no que tange gênero, pois há uma fascinação muito específica com um tipo de masculinidade caracterizada nessa época por figuras como James Dean e Marlon Brando, que reverberam nas atuações de Karl Glusman e Andrea Riseborough. Aliás, é importante destacar a atuação de Riseborough aqui, talvez o ponto mais alto do filme seja a sua performance, carregando um pouco de Tilda Swinton e Magdalena Montezuma, que beira o caricato e sempre carregado de uma certa fúria embutida com uma melancolia, que pode funcionar como uma possível definição do que é camp: artificial e frívolo mas (ou melhor, exatamente por isso) dotado de uma tocante sensibilidade, como no momento onde ela presencia o canto desafinado de Cole Escola ao falar no telefone com roupas e cenários espalhafatosos. O possível humor que provém da qualidade questionável da voz não torna essa cena menos sincera, ao contrário, as falhas se tornam bonitas pois expressam toda potencialidade dos sentimentos da personagem quase que sem filtro, a paixão e o desespero não podem ser contidos.


Entretanto, pelo filme ter tanta vontade de ser camp que talvez reside nela sua maior falha, pois como já apontava Susan Sontag em seu Notes on Camp: “Camp que tem consciência de ser camp (“camping”) é geralmente menos satisfatório.”, algo que parece acometer outras produções contemporâneas que procuram abertamente possuir essa sensibilidade mas terminam em um tipo de pastiche não tão bem sucedido. De qualquer forma não deixa de ser de certa forma emocionante ver um filme tão empenhado em dialogar e preservar uma estética e um tipo de cinema que parecem cada vez mais ser impossibilitados diante de uma suposta “respeitabilidade” ou um receio de que tal obra não consiga abranger um público maior por focar em certa subcultura de uma comunidade. Por mais filmes que não tenham medo do excesso, do ridículo, do sexual, das cores exageradas, de serem incompreendidos por não serem “universais” o suficiente, pois não há nada mais chato e heterossexual do que querer conformar a qualquer custo.

 

PLEASE BABY PLEASE

2022 | EUA | 95 min.

Direção: Amanda Kramer Roteiro: Amanda Kramer, Noel David Taylor

Elenco: Andrea Riseborough, Harry Melling, Karl Glusman, Cole Escola, Ryan Simpkins, Jaz Sinclair, Demi Moore


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