• João Neto

[Crítica] Slumber Party Massacre revive em remake revigorante



Dentre as várias discussões sobre a representação feminina nos filmes de terror (principalmente nos slashers), existe ao menos uma anomalia que se destaca de maneira curiosa: a franquia Slumber Party Massacre. Nem de longe uma das mais reconhecidas no subgênero, a trilogia é um caso raro de slasher dos anos 1980 que tem não um, não dois, mas três filmes dirigidos e roteirizados por mulheres. O primeiro deles, de 1982, nasceu a partir de uma paródia escrita pela autora feminista Rita Mae Brown, que buscava rir dos clichês do subgênero do horror e como eles retratavam toscamente as personagens femininas frente às situações de risco. O roteiro não foi produzido ileso, claro, tendo sido reescrito pra adotar um tom mais sério, porém, a dose de autoconsciência e sátira sobreviveu e ainda flui pelo filme até hoje, destacando-o de muitos títulos da mesma época e estilo.


Seguindo a tradição, o remake chega pelas mãos de uma mulher, que faz jus àquela proposta original e assume por completo o tom paródico. O olho por trás dessa lente contemporânea é de Danishka Esterhazy (The Banana Splits Movie, 2019), que apresenta uma revigorante refilmagem da pérola subestimada, não apenas potencializando a mensagem da obra original, como também adaptando suas discussões aos tempos modernos de maneira hilária e inteligente.



Além dos códigos estabelecidos no filme de 1982, o roteiro de Suzanne Keilly pega também os do subgênero slasher como um todo e remonta a história do zero. Aqui, um grupo de amigas em busca de um final de semana de diversão isolada se veem na mira de um maníaco com uma enorme furadeira assassina. Você definitivamente já viu isso, e o filme sabe que você já viu. Obviamente, não irei estragar dando spoilers, mas digamos que, a partir dessa premissa, Slumber Party Massacre investe numa série de subversões narrativas que fazem do remake uma experiência única — além de um exemplo de como repaginar e reviver um clássico que, por si só, já era subversivo.


O reconhecimento do instrumento fálico nas mãos do assassino psicopata, que fala pras meninas coisas como "eu te amo" e "eu sei que você quer", é apenas a ponta do iceberg. A própria festa do pijama e todos os elementos adjuntos (dancinhas, brigas de travesseiro, revistas de homens pelados, bebidas ruins e pizza) não passam batidos e são desconstruídos e utilizados de maneira autoconsciente como uma espécie de "ritual", sem o qual a história, aparentemente, não funcionaria.


Para sacudir ainda mais essa bagunça, o remake também insere um segundo núcleo de personagens formado por fratboys, reunidos numa cabana próxima à das garotas. No ápice de seu humor ácido, Danishka Esterhazy usa esse grupo para brincar com as diferenças de um male e um female gaze (o olhar masculino e feminino). Subvertendo o tropo do horror, que historicamente sempre objetificou o corpo das mulheres, Danishka introduz um dos fratboys através de um longo plano de sua bunda, espremida dentro de shorts muito curtos, logo antes de investir numa longa cena de chuveiro que se delicia observando o corpo escultural de um dos atores. A questão do female gaze, entretanto, vai além de como a diretora usa sua câmera; a masculinidade tóxica é literalmente discutida quando um dos garotos concorda que as garotas estão certas, mas arremata dizendo que "minha masculinidade tóxica está me forçando a fazer isso agora". Não, não há espaço pra sutileza, é tudo escrachado, da maneira que deveria ser.



E assim como Pânico 4 (2011) nos alertou sobre finais falsos em remakes, a agilidade desse novo Slumber Party leva as coisas um pouco mais além quando chega num terceiro ato bem diferente do que seria esperado — só que aí o remake destoa um pouco, pendendo demais para a seriedade. Independentemente disso, mesmo nesse ponto o filme mostra que tem coisas a dizer, muito embora seja através de mais uma reviravolta, que dessa vez surge previsível.


Em última análise, porém, Slumber Party Massacre não só é um ótimo remake, como também uma ótima adição à própria franquia das festinhas de pijama. Tem o apreço pelo baixo-orçamento que marcou a trilogia famosa no VHS, reconhecendo e até inserindo alguns easter-eggs, mas também tem ambição e autoconsciência suficientes para repaginar e amplificar para novas audiências a mensagem feminista de suas criadoras originais. A grande diferença é que, agora, não serão necessárias adaptações para agradar um público cis-hétero-masculino, afinal, não estamos mais nos anos 1980. As coisas não são mais apenas para eles.


SLUMBER PARTY MASSACRE

2021 | EUA | 86 minutos

Direção: Danishka Esterhazy

Roteiro: Suzanne Keilly

Elenco: Hannah Gonera, Alex McGregor, Schelaine Bennett, Mila Rayne, Rob Van Vuuren


0 comentário