• Yuri Cesar Lima Correa

[Crítica] Son: boas ideias que se perdem na obviedade

A mistura de gêneros não é tradição no cinema estadunidense, e via de regra, quando cineastas norte-americanos tentam colocar mais de um tipo de filme dentro do mesmo roteiro, não sai coisa boa. Porém, apesar de ser produzido nos EUA, Son foi comandado pelo irlandês Ivan Kavanagh, que aqui navega com naturalidade entre diferentes vertentes do terror, indo da trama de invasão domiciliar ao filme de possessão, passando pelo road movie e mantendo tudo sempre assombrado por elementos das histórias de culto satânico. A surpresa é que Kavanagh acaba tropeçando em algo bem mais simples, e não consegue escapar da obviedade.


Sim, o diretor é hábil e econômico ao já apresentar a protagonista fugindo de carro no meio da noite, sempre cuidando pelos espelhos retrovisores a aproximação de um possível perseguidor. Encurralada por ameaças concretas ou por sua própria paranoia, Laura (Andi Matichak) acaba entrando em trabalho de parto e parindo um bebê no banco dianteiro do veículo. Infelizmente, Kavanagh não consegue esconder muito bem a diferença entre o bebê de verdade usado nos planos fechados e o boneco utilizado naqueles mais abertos o que não chega a arruinar a tensão deste eficiente prólogo. Uma pena é que, depois disso, o filme jamais volte a sustentar essa atmosfera inquietante.



Saltando alguns anos à frente, agora encontramos Laura vivendo uma rotina pacata e aparentemente alegre com seu filho David (Luke David Blumm), até que certa noite ela é surpreendida por um grupo de estranhos no quarto do menino. Sem provas da invasão, Laura conta apenas com a simpatia do detetive Paul (Emile Hirsch) para descobrir quem eram essas pessoas, que além de tudo, parecem ter despertado em David algum tipo de doença letal. Em poucas horas o menino entra em coma e, como se nada tivesse acontecido, volta ao normal pouco depois. Intrigada, a mãe do garoto acaba descobrindo da pior forma o que está mantendo David vivo, e aí os dois precisam fugir.


Aliás, Ivan Kavanagh já adianta pro espectador qual será o elo de ligação entre mãe e filho ao produzir dois momentos semelhantes protagonizados por cada um deles. No primeiro, vemos David regurgitando sangue; no outro, Laura espalha tinta vermelha numa tela. Com a ajuda do diretor de fotografia Piers McGrail (que fotografou o visualmente interessante Sem Nome, 2016), Kavanagh também vai aos poucos trazendo com mais frequência o verde e o vermelho para a paleta de cores do filme. O verde como símbolo da doença e da presença de algo monstruoso, e o vermelho, obviamente, como representação da violência que vem junto com o pacote. Aparecendo primeiro de forma mais discreta nos arredores dos personagens, chega um ponto em que essas cores tomam por completo a atmosfera que os engole está no cenário, na iluminação e nas roupas deles também.


Não que isso valha como grande novidade. O verde e o vermelho carregam essas conotações no cinema desde que Michael Powell e Emeric Pressburger petrificaram essa relação há mais de setenta anos, durante os quais ela ainda foi ratificada em ícones da cultura pop como Star Wars, e mesmo hoje em dia segue sendo cartilha para cineastas como Guillermo del Toro e Martin Scorsese. O ponto é: o elemento narrativo mais interessante que Kavanagh traz para Son, ainda assim, é uma escolha batida, especialmente dentro do gênero de horror. É bem verdade que esse esquema visual serve para dar coesão ao longa-metragem, uma vez que, como citei antes, o roteiro (também assinado por Ivan) salta de um estilo de história para outro recorrentemente. O que, inclusive, leva o cineasta a ter que estabelecer cada um deles de forma rasteira: jumpscares, crianças agindo estranhamente, cenas de pesadelo etc.



O fundo do poço chega, porém, quando o filme precisa de uma vítima imediata para o seu “vilão” e, convenientemente, um cafetão violento e escroto se apresenta para o abate além de forçada e pateticamente óbvia, a decisão também esvazia a única fonte de tensão do roteiro, que é a necessidade de Laura ter de optar entre a vida do filho e a de uma pessoa inocente. A escolha é tão desastrosa que, por não oferecer conflito nenhum, deságua numa cena risível entre a protagonista e o cafetão momento no qual, jurei, estava prestes a começar um soft porn, adequadamente impulsionado pela estética neon vermelho e verde da fotografia. Bem longe do clima tenso que Kavanagh conseguiu estabelecer em O Canal (2014), com o qual Son divide o desfecho decepcionante. Minto, talvez aqui o sentimento tenha sido pior, porque a “reviravolta” estava praticamente desenhada na tela desde o início.


Também não ajuda que a dupla de protagonistas atue em campos opostos: enquanto Andi Matichak repete a intensidade que deu à neta de Laurie Strode em Halloween (2018), o jovem Luke David Blumm rivaliza com Emile Hirsch em inexpressividade. Aliás, é uma ingrata surpresa notar a falta de interesse de Hirsch em atuar aqui, o que é novidade em relação ao ator, apagado em quase todos os seus momentos. Portanto, no somatório, Son pode até trazer aqui e ali alguma vaga sugestão de que pode se desdobrar num filme mais intrigante. Mas tais sugestões se perdem como lembranças de um sonho, infelizmente, não do tipo que marca e traumatiza, como aparentemente são os pesadelos de Laura, uma vez que o filme faz questão de nos lembrar deles a cada dez minutos.


SON

USA | 2021 | 98 minutos

Direção: Ivan Kavanagh

Roteiro: Ivan Kavanagh

Elenco: Andi Matichak, Emile Hirsch, Luke David Blumm



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