• Alvaro de Souza

Crianças Revoltas, Crianças Revoltantes: Crianças Más e o Terror Queer

(Este texto foi originalmente publicado por mim no meu blog pessoal no começo desse ano. Link para o texto original aqui )

Aldeia dos Amaldiçoados (1960)

Um dos pontos mais interessantes da relação entre o público LGBT e o cinema de horror é que não raramente a nossa simpatia é com a figura que é o alvo do horror. Não é difícil imaginar o que leva um público queer a se identificar com a solidão e a perseguição do monstro de Frankenstein, com o desejo desesperado de criaturas como o monstro da Lagoa Negra e da Múmia de conseguirem companheiras e com a angústia do lobisomem de ter algo “monstruoso” dentro de si prestes a sair. Isso sem contar claro os filmes com vilões claramente queer-coded como Rebecca, Festim Diabólico, Estranha Compulsão, A Filha de Drácula e A Casa Sinistra, tudo isso só pra ficar em filmes feitos antes dos anos 60.


A nossa relação com esses filmes é complexa, se ver no ser que é o alvo da ansiedade que o filme causa pode não ser o ideal para muitos, assim como realmente seria melhor se ver com mais frequência nos protagonistas (algo que felizmente é relativamente mais comum hoje, vide filmes como Thelma, O Que Nos Mantém Vivos e Faca no Coração). Mas ainda sim tem algo de deliciosamente imoral em se ver como a figura que é vista como sendo uma ameaça para o estado, para a família tradicional, para a sociedade judaico-cristã e para os casais heterossexuais monogâmicos que protagonizam eles. Ver nisso um potencial subversivo e revolucionário é algo que sujeitos queer deveriam se debruçar mais.


A Tara Maldita (1956)

O pesquisador Andrew Schamill descreve uma situação bem curiosa que passou na sessão do filme A Órfã (2009). Ele foi ver o filme em um cinema que fica numa área da cidade que é conhecida por ser um bairro gay, durante quase toda a primeira metade ele percebeu que a maior parte do público da sessão estava torcendo pela criança psicopata do filme. Ele narra esse acontecimento no seu livro "The Revolting Child in Horror Cinema" onde ele acrescenta mais uma camada a questão do terror queer: na visão dele, todos os filmes de terror com vilões crianças seriam filmes de terror queer.


O que levou ao público majoritariamente gay da sessão a torcer pela criança vilã? Por que esse tipo de filme seria queer? A resposta para a princípio não é tão difícil, esses filmes lidam com crianças que são elementos estranhos dentro do núcleo familiar. São crianças que não correspondem às expectativas dos pais e da sociedade, são crianças vistas como perigosas para a sua família, para outras crianças e para a própria sociedade. Tomadas as devidas proporções não é difícil para uma pessoa LGBT se identificar com isso, a própria ideia de “queerness” é muito comumente ligada a imaturidade como se o desejo homoerótico ou a não concordância com o gênero que lhe foi designado no nascimento fosse um sinal de infantilidade e imaturidade emocional. O famoso “é só uma fase”. Mas o Andrew vai mais além.


A Profecia (1976)

Para ele a infância em si é algo extremamente queer. A criança não responde às regras da sociedade, ela é diariamente podada por tudo ao seu redor para se encaixar no padrão aceitável de cidadão, é despojada de qualquer tipo de autonomia. A tão falada “inocência infantil” usada em discursos de cunho conservador é referente a um tipo específico de “inocência”, qualquer tipo de manifestação para além desse ideal se torna sombrio, perturbador e incômodo. O nome do livro faz um trocadilho intraduzível, “revolting child” quer dizer tanto uma criança “revoltante” quanto uma criança que se revolta. Essa criança revoltante nada mais é do que pegar o que se é esperado de uma criança “comum” (imaginação, ligação com a natureza, inteligência, inocência, etc) é elevado até níveis que se tornam aterrorizantes para a nossa sociedade e para os pais na medida que eles não sabem o que esperar delas já que não tem mais controle sobre elas.


A criança acaba catalisando várias das ansiedades do núcleo familiar e da sociedade. Uma criança genial é um sonho para os pais e para a sociedade da qual ela faz parte, mas uma criança genial cujos objetivos não são claros se torna motivo de ansiedade. Uma criança que compra perfeitamente todos os ideias que se esperam dela é um sonho, mas uma criança que sabe exatamente o que se é esperado dela e usa isso para o seu proveito próprio é assustadora (vide A Tara Maldita). Uma criança imaginativa ou com uma certa sensibilidade é algo esperado, agora uma criança cuja imaginação e sensibilidades ultrapassam certos limites é algo com consequências horrendas (A Inocente Face do Terror, Os Parecidos, Boa Noite Mamãe, o episódio "It’s a Good Life" da série original de Além da Imaginação) Grupos de crianças que se unem é algo incentivado, mas grupos de crianças se unindo contra adultos é aterrorizante (aí nós temos vários exemplos como é o caso dos clássicos Aldeia dos Amaldiçoados e Quien Puede Matar a un Niño?).


Quien Puede Matar a un Niño? (1976)

Este último inclusive é um caso que em específico me chamou bastante a atenção. Esses filmes onde grupos inteiros de crianças se unem contra os adultos seriam, na visão do autor, uma representação do medo que uma geração tem de ser substituída por outra radicalmente diferente. O medo de legar o mundo para essa nova geração que está por vir.


Ser um sujeito queer, mais do que um sujeito com sexualidade desviante, é um sujeito que está desafiando convenções sociais massacrantes e resistindo a assimilação. E o cinema queer é mais do que filmes com representatividade lgbt, mas também um cinema que coloca em xeque a norma vigente. Não é difícil então ver como isso se relaciona com essas crianças que se tornam estranhas por não responderem ao que se é esperado delas e por escaparem do poder dos pais e da sociedade capitalista. Essa crianças revoltantes nada mais são do que uma forma de mostrar que a imagem que temos da infancia e do que é "natural" nada mais é do que uma invenção.


Andrew diz que obviamente esses filmes, pelo menos em sua esmagadora maioria, não são feitos com o desejo de acenderem desejos revolucionários. Inclusive ele diz que é muito dito que esses filmes lidariam com o desejo reprimido de agir com violência com uma criança, pois se é moralmente reprovável bater em uma esses filmes te dariam uma desculpa para sentir prazer e alívio em ver crianças apanhando e sendo mortas. Mas, também diz ele, o público LGBT já está mais do que acostumado a pegar figuras negativas e reinterpreta-las. O que o Andrew Schamill faz nesse livro é isso, ele nos convida a olhar para essas crianças revoltadas e revoltantes como uma possibilidade e uma esperança de um mundo que não esse que temos hoje. E se tem um grupo que precisa urgentemente de um mundo novo são esses que vão vir a legar ele...


It's a Good Life, Twilight Zone: S03E08

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