• Luiz Machado

[Rebobinando] Cultura, solidão e O Grito (2004)



Sejam bem-vindos ao [Rebobinando], a coluna do Esqueletos no Armário que te levará de volta aos tempos de locadora para tirar a poeira do VHS (ou do DVD) e revisitar alguma obra, seja ela um clássico memorável ou uma pérola esquecida que precisa de um pouco mais de carinho. Chega junto, liga a tv e não se esqueça de rebobinar antes de devolver!



Saída direto da mente perturbada do cineasta Takashi Shimizu, Ju-On é uma franquia de j-horror que transitou por todos os formatos possíveis. Nascida de dois segmentos da antologia School Ghost Story G (1998) e depois adaptada para dois filmes de V-Cinema (formato muito popular no Japão nos anos 90: eram filmes para TV que também eram lançados em Home Video) para finalmente chegar aos cinemas japoneses com seus mais icônicos filmes em 2002 e em 2003, era questão de tempo até Hollywood ver a oportunidade de embarcar no carrinho de sucesso e originalidade. Foi então que em 2004 a Sony Pictures deu sinal verde para um remake com produção de Sam Raimi e Robert Tapert (responsáveis pelo clássico The Evil Dead). Porém, o maior diferencial destes filmes para as outras milhões de refilmagens que estavam sendo produzidas nos anos 2000 é que o próprio criador da franquia original foi contratado para dirigir a nova versão.


Shimizu aceitou a proposta por ver uma oportunidade de melhorar e "arrumar" alguns problemas em seu trabalho original, principalmente por conter um orçamento maior, além de apresentar sua criação para um público ocidental. O roteiro adaptado para inglês por Stephen Susco apresenta algumas ideias bem interessantes ao usar de uma narrativa conhecida e conceitos pré-estabelecidos para falar sobre cultura e solidão. É um filme imperfeito que não atinge seu total potencial, porém é inteligente ao entender a necessidade de ir além da releitura básica, principalmente se tratando de um olhar ocidental para uma história oriental não apenas em sua origem, mas em seu coração também. É por isso que, mesmo amargando nas críticas em seu lançamento (ele conta com apenas 40% de aprovação no Rotten), ele ainda sobrevive até hoje na cultura popular e marcou uma geração inteira.



Diferente do horroroso, podre, feio e mofado reboot estadunidense de 2020 (dirigido por Nicolas Pesce), o maior acerto desta versão de 2004 é entender o elemento mais importante de Ju-On e a alma dessas histórias: o Japão. Tirá-la de lá é um erro por descaracterizar a franquia e despi-la de sua bagagem cultural importante, tornando-a apenas mais uma história de fantasmas comum e ocidentalizada. Essas entidades rancorosas não são apenas fantasmas preocupados com jumpscares, elas são representações da colisão dos Onryōs e Yūreis, espíritos vingativos do tradicional folclore japonês, e essa Tóquio moderna (elementos muito explorados pelo j-horror no começo dos anos 2000). No final das contas, Ju-On é muito sobre cultura, rancor e... solidão.


Outro elemento clássico das histórias desta franquia é como essa maldição, ao espalhar-se e tirar a vida do máximo de pessoas que conseguir, também isola suas vítimas, as roubando de suas vidas aos poucos junto com sua sanidade. É como se Kayako e Toshio infligissem aos outros o que passaram, suas dores, seu rancor. E é nessa que o remake de 2004 acerta em cheio! Além de só refazer as cenas que já haviam sido reformuladas duas vezes anteriormente (no filme Ju-On: The Curse e Ju-On: The Grudge) com atores estadunidenses, ele repensa essas narrativas para enquadrar este novo elemento cultural - o olhar ocidental - para uma narrativa extremamente japonesa. Muito além dos espíritos pálidos em sua caçada cega por vingança, o filme nos apresenta outra situação de horror: estar em outro país e em outra cultura completamente diferente da sua. Os protagonistas ocidentais são colocados o tempo todo em destaque ao serem descolados de um estilo de vida que não pertencem e lutam para entender.



Isso torna a história ainda mais assustadora, pois temos todo o elemento sobrenatural, inevitabilidade do enlouquecimento e morte à espreita o tempo inteiro, porém para eles a situação se agrava por estarem também presos em um local completamente diferente de sua origem. Em um dos segmentos do filme, a personagem de Clea Duvall se perde no próprio bairro por não conseguir ler as placas; ao ir ao mercado ela não sabe o que está comprando, o que são aqueles alimentos. Em um dos momentos mais emblemáticos ela fura uma embalagem no supermercado para poder sentir o cheiro antes de encher a cesta do macarrão instantâneo. Antes mesmo de entrar em contato com os fantasmas, ela já está sozinha, perdida e isolada. Essas diferenças culturais permeiam o filme inteiro. Em diversas cenas a protagonista, interpretada pela eterna rainha sempre Sarah Michelle Gellar, se destaca da multidão que a cerca. É uma forasteira, ela não pertence. É uma visão interessante, pois não é muito comum ver no cinema, principalmente o Hollywoodiano, a figura do estadunidense representada como o imigrante. Um dos detalhes mais interessantes deste filme é que além de tudo isso, o responsável indireto pela morte de Kayako e o início da maldição é um homem norte-americano.


Mesmo não sendo perfeito e estando muuuuuito abaixo de seu material de origem, o remake acaba se destacando no mar de refilmagens caça-níqueis de clássicos asiáticos que estavam saindo aos montes naquela época. A direção de Takashi Shimizu o deixa ainda mais forte, pois faz questão de elevar esses choques culturais ao extremos. Temos o folclore japonês tradicional entrando em conflito com um mundo moderno e se apossando destas figuras ocidentais "descoladas" do mundo que habitam. Ele acerta ao mostrar essa isolamento como algo extremamente melancólico e, ao mesmo tempo, inevitável. A morte é só o fim do caminho, a jornada é tão solitária quanto.

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