• Alvaro de Souza

[Resenha] Distância de Resgate: a maternidade e as ameaças invisíveis

Atualizado: Fev 17

Para mim, enquanto leigo, acho curioso pensar como a literatura latino-americana não possui uma tradição mais antiga com histórias de horror. Obviamente essas histórias existem e é possível achar contos de macabros na obra autores bastante consagrados, como Silvina Ocampo, Julio Cortázar, Lygia Fagundes Telles, Carlos Fuentes, entre outros, mas para uma literatura tão marcada pelo fantástico e pelo insólito acho engraçado como esta ligação não é mais forte. Falar em escritores de terror latinos ainda parece algo até estranho e mesmo na cabeça de um fã do gênero não serão muitos os nomes que virão à mente (não só por uma ausência de autores, mas também pelo mercado editorial brasileiro não lançar eles por aqui).


Neste cenário dois nomes acabam se destacando: Mariana Enriquez e Samanta Schweblin. Ambas são escritoras argentinas contemporâneas que trabalham abertamente com a literatura de gênero e que ultrapassaram as fronteiras da América Latina e se tornaram autoras mundialmente conhecidas e aclamadas . A Mariana Enriquez merece um post futuro só sobre ela e sobre o seu livro As Coisas que Perdemos no Fogo que, na minha humilde opinião, é uma obra-prima. Hoje pretendo falar sobre Schweblin e a pérola que o seu livro Distância de Resgate.


Elogiada por gente como Mario Vargas Llosa e vencedora de vários prêmios, entre eles o Casa de Las Americas, Samanta Schweblin é provavelmente uma das escritoras mais peculiares da atualidade. Quem já leu os contos de Pássaros na Boca (o outro livro dela lançado aqui no Brasil) deve ter ficado marcado com a forma como ela fala sobre dramas familiares e sobre as dificuldades de comunicação entre casais e amigos através de histórias esquisitíssimas, é um livro que amando ou odiando não se passa indiferente. Embora nos seus contos ela até flertasse com o gênero do terror, eu considero que o seu mergulho definitivo foi com Distância de Resgate, seu primeiro romance.



O livro começa com a nossa protagonista, Amanda, acordando num local que acredita ser um hospital, do lado dela se encontra David, uma criança que ela conheceu recentemente e que diz que ela precisa contar para ele tudo o que aconteceu porque só assim eles podem entender e impedir que algo terrível aconteça. Sem entender do que ele está falando Amanda começa a contar como ela viajou junto com Nina, a sua filha pequena, para uma cidade no interior da Argentina e lá conheceu David e a mãe dele, Carla, uma mulher visivelmente incomodada com algo e que conta para a protagonista que o seu filho nunca mais foi o mesmo após um trauma que lhe ocorreu no passado. O livro consiste no longo e tenso diálogo entre esses dois personagens e quanto menos se souber sobre a história melhor, só posso adiantar que o desenrolar da história irá envolver rituais estranhos, mortes de animais, crianças macabras e… agrotóxicos.


Em entrevista a autora já chegou a comentar que o livro é uma resposta a uma viagem que ela fez ao interior da Argentina em que ela ficou chocada ao ver a quantidade de crianças que nasciam com má formações devido a exposição dos moradores aos agrotóxicos usados na região. Distância de Resgate é o resultado desse mal-estar que ficou com ela e que só conseguiu se materializar como sendo este romance peculiar. Ao invés de fazer uma história denúncia sobre o que viu ela fez um livro cheio de tensão e que parece um longo pesadelo que faz cada vez menos sentido (não à toa o nome do livro ao ser lançado nos Estados Unidos ficou Fever Dream) e que, justamente por isso, capta melhor o sentimento de inquietação melhor do que qualquer obra jornalística ou realista seria capaz.


Em meio a todos os acontecimentos do livro o que nós vemos é basicamente o desespero da Amanda do passado para manter a sua filha a salvo sendo que nem ela mesma sabe o que esta acontecendo e a Amanda do presente completamente desnorteada tentando entender onde está a sua filha, o que aconteceu e porque David está ali junto com ela (mas afinal, ele está mesmo ou é apenas a imaginação dela?). O próprio nome do livro é uma referência a esse desejo da protagonista de proteger a sua filha, a "distância de resgate” seria essa corda invisível que a liga a sua filha e que marcaria a distância que ela pode manter da sua filha para socorrê-la caso seja necessário.


Sempre penso no pior. Agora mesmo estou calculando quanto demoraria para sair correndo do carro e chegar até Nina, se ela corresse de repente para a piscina e se atirasse. A isso dou o nome de ‘distância de resgate’, que é como chamo a distância variável que me separa de minha filha, e passo a metade do dia fazendo esse cálculo, embora sempre arrisque mais do que deveria.”


Podemos considerar que o grande horror deste pequeno grande livro (ele tem apenas 143 páginas na edição brasileira) vem não dos rituais e das crianças estranhas que ocasionalmente aparecem, mas sim do momento em que Amanda percebe que já não tem mais o controle sobre a situação e que talvez já não seja capaz de proteger Nina. Do sentimento de impotência. O interior da Argentina que Samanta Schweblin não é mais um belo lugar bucólico, mas sim o lugar do veneno e da ameaça invisível. Faz sentido existir uma coisa como uma "distância de resgate” neste mundo caótico e cheio de males que são muito maiores do que nós? Num mundo de ameaças invisíveis é possível proteger os nossos cidadãos mais vulneráveis (as crianças)?


Um dos livros de terror mais instigantes e inquietantes da última década e que merece ser lido e relido. Quando decidi escrever este humilde comentário sobre "Distância de Resgate” eu decidi folhear a minha edição para me lembrar de alguns detalhes e me vi tão preso que acabei relendo o livro inteiro, isso só fez ele crescer ainda mais para mim já que, sabendo os rumos que as coisas levariam, eu reparei mais não só no papel de David na história (que atua quase que como um editor das memórias que a Amanda está narrando para ele) mas também para os elementos que vão sendo sutilmente incluídos na história. Indicado ao Man Booker Internacional Prize de 2017 e vencedor do Shirley Jackson Award de 2017 e do prêmio Tigre Juan, Distância de Resgate é um livro essencial para quem gosta de histórias estranhas, histórias sobre maternidade e para fãs de horror que procuram algo que os tire da zona de conforto (nisto Schweblin é uma especialista).


DISTANCIA DE RESGATE

2014 (ed. 2016) | 146 páginas

Autor: Samanta Schweblin

Tradutor: Ivone Benedetti

Editora: Record


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