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  • Foto do escritorPietra Vaz

[HQ] O horror do inevitável sorri em Juízo, de Amanda Miranda

Atualizado: 7 de set. de 2023

Escondidas em um mundo cheio de estímulos e novidades, existem maldições antigas, donas do próprio ritmo. São inquebráveis ciclos de dor, que ora se repetem, ora se multiplicam. Os traumas vão se acumulando como mercúrio nas novas gerações, tornando-se profundos como raízes de grandes árvores - ou de pequenos dentes. É este o caminho que a ilustradora e quadrinista Amanda Miranda escolheu para sua nova obra, Juízo.


Em traços cativantes e bizarros, a artista transforma a jornada da protagonista até a dentista em um atestado do horror intrínseco à vida do usuário do corpo humano em sociedade - no caso, uma mulher com útero. Em uma simples corrida de carro de aplicativo escondem-se ranhuras por onde a memória escapa, reafirmando que os fardos do passado existem no presente e perduram no futuro. O horror não vem de alicates - embora eles estejam ali, viçosos como as ferramentas de Cronenberg em Gêmeos: Mórbida Semelhança (1988) -, mas da impossibilidade de fugir dos próprios dentes.



Jean-Paul Sartre, que nasceu na cúspide entre gêmeos e câncer, é um expoente do pensamento existencialista. A ideia mais clássica, e que resume essa corrente filosófica, é que o ser humano está condenado a ser livre. Isso significa, primeiramente, que não há nada que defina o ser humano, enquanto indivíduo, antes que ele venha a existir. Não somos como objetos, desenhados e construídos para uma finalidade pensada antes de nossa existência. Ou seja, de acordo com o existencialismo, as gestações não fazem nascer cientistas, cineastas, ceifadores, cirurgiões-dentistas. Elas fazem nascer pessoas, e o que vem depois é consequência.


A ironia da condenação à liberdade acaba deixando de lado a importância que o gênero tem para a experiência de cada um no mundo. Expectativas e papéis sociais são planejados para o ser quando ainda está do tamanho de um molar, e diferentes novas pressões são exercidas sobre as pessoas conforme elas constroem suas expressões de gênero e formas de se relacionar. Pode ser que todo mundo nasça sem motivo, sem propósito, sem essência; mas a dimensão da liberdade na vida de cada pessoa é sempre moldada conforme sua vivência de gênero e sexualidade. Em maior ou menor escala, algumas pessoas vão passar por determinadas provações apenas por serem o que são - ou não serem o que não são.



Amanda explora essa ideia por meio do body horror, ou horror corporal. Não se trata simplesmente da mutilação do corpo humano ou de violência gráfica explícita, mas sim do uso narrativo da transformação do corpo como elemento central do horror. Os sentimentos evocados, do medo à repulsa, surgem do movimento e das texturas da extração, mas vão muito além disso. Os sisos fora de época da protagonista são apenas um vetor.


Utilizando o corpo como recurso narrativo de Juízo, Amanda mostra que o dissidente sempre está sujeito a cumprir a pena que seus arredores decidem aplicar, tão incontornável quanto imprevisível. Não há determinismo biológico, porque o corpo não está lá para estampar o que é ou não é ser mulher; ele está lá para mostrar a vulnerabilidade da matéria. A carne é tudo o que temos neste mundo, e ainda assim somos traídos por ela. Há horrores que a autonomia do indivíduo não consegue afastar, e só o que resta é lutar contra isso tudo quando chega a hora.


Originalmente, a história em quadrinhos de Amanda foi finalista do HQMIX em 2020, e agora está em pré-venda com acabamento especial, novas páginas, roteiro atualizado e posfácio de Adriana Cecchi.

 

Titulo: Juízo

Arte: Amanda Miranda

Roteiro: Amanda Miranda

Editora: Publicação independente

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