• Luiz Machado

[Resenha] Conheça os Livros de Sangue de Clive Barker

Atualizado: Fev 17

Gore e demônios da mais altíssima qualidade, é disso que é composta a carreira do reizinho gay do horror, Clive Barker. Com seu nome já gravado na história como um dos autores mais perversamente imaginativos, Clive marcou o gênero com seus contos de horror pesadíssimos em que na maioria das vezes misturam monstros e demônios com questões mais intrínsecas ao medo mundano e – principalmente - sexualidade. Em suas diversas histórias ele usa e abusa destas figuras sobrenaturais para falar sobre questões sociais, relacionamentos, prazer, dor e (em alguns casos) amor.


Publicado originalmente em 1984, o primeiro volume de Livros de Sangue seria um dos grandes responsáveis por tornar Clive um dos queridinhos do momento. A coletânea (lançada em 6 volumes) reunia diferentes contos carregados de simbologia pela deliciosa e cínica escrita de Barker. Entre os prêmios e críticas positivas à sua obra, talvez um dos elogios mais icônicos que Clive recebeu nos anos 80 foram do rei, Stephen King, que disse:

"Eu vi o futuro do Horror… E seu nome é Clive Barker!"


Mas afinal, quais são os tais Livros de Sangue?


O conto de abertura - e que dá título ao livro - eu já conhecia por conta de suas duas adaptações prévias (uma em 2009 e outra agora em 2020). Sendo bem sincero não estava muito empolgado, pois nenhuma das duas versões achei que valiam muito a pena, porém erro meu de não confiar no PODER da escrita de Clive Barker. Livro de Sangue é um belíssimo e extremamente atmosférico prólogo para a série. Nele temos uma pesquisadora do sobrenatural que contrata um médium charlatão para investigar uma suposta casa assombrada. E é aí que entra o maior problema das adaptações, o que Clive faz é brincar com as suas sensações como leitor. É um conto sufocante, curto e inadaptável principalmente por conta dessa sua peculiaridade. Quase não temos diálogos, são apenas palavras e uma história tão terrivelmente fascinante que vai entrando embaixo de sua pele, quase escrevendo nela. O final absurdo coroa o delicioso prólogo e já deixa de aviso a o que está por vir: Este é um livro de sensações!


Entre as histórias mais notáveis deste primeiro volume, estão a Trem de Carne da Meia-Noite (que viria a ganhar uma adaptação pro cinema em 2008) que traça um paralelo bem interessante entre o consumo de carne e a questão de classe e poder. Blues do Sangue de Porco que é uma mini historinha de investigação envolvendo fantasmas e um porco gigante possuído por alguma coisa (vou ser sincero e achei essa meio irregular, apesar da premissa surtada, o conto se enrola um pouco). Sexo, Morte e Estrelas retoma bem o ritmo de leitura do livro ao trazer uma mirabolante história envolvendo uma peça de teatro e um grupo de mortos, é um conto particularmente bem divertido e gráfico.


Mas meus favoritos e que melhor conseguiram evocar essas sensações estranhas são os outros dois ainda não citados aqui. Primeiramente o terceiro conto do livro, O Yattering e Jack, que é absurdamente divertido??? Eu realmente não esperava a incursão de uma história de comédia de horror no meio, mas eu não conseguia parar de sorrir da premissa boba da história e como ela se desenrola. No conto temos um demônio chamado Yattering que ganha a missão de assombrar um homem cujos antepassados haviam quebrado um pacto. Porém Jack é... Patético? E o pequeno demônio não consegue fazer nada que seja o suficiente para “quebrá-lo”. É muito divertido e conseguiu arrancar de mim alguns risinhos que fazia teeeempo que um livro não fazia. É facilmente meu conto favorito deste primeiro.


Outro que eu fiquei encantado lendo foi o segmento final, Nas montanhas, as cidades, que é um folk horror com um casal gay como protagonistas. Na história Mick e Judd estão viajando de férias e se deparam com um ritual bizarrão de duas cidades no interior da Iugoslávia em que a cada dez anos todas as pessoas dessas cidades se unem e constroem um gigante feito com seus próprios corpos humanos. É um negócio tão absurdo e fora da realidade que só a escrita de Barker poderia funcionar e bem... Ele FAZ funcionar! Macabro, chocante e provavelmente o com maior potencial de combustível para pesadelos do livro.


Publicada originalmente aqui no Brasil nos anos 90, a coletânea está ganhando uma nova – e diga-se de passagem: lindíssima - edição aqui pela DarkSide Books e a Macabra Filmes. Ou seja: os portais estão sendo abertos novamente e terrores do passado voltarão para te assombrar.


LIVROS DE SANGUE (VOL. 1)

2020 | 240 páginas

Autor: Clive Barker

Tradutor: Paulo Raviere

Editora: DarkSide® Books

Marca: Macabra


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