• Paulo Eduardo Garcia

O horror das profundezas: a morada subterrânea da monstruosidade



Logo no início de Nós (2019) o caçula da família usa uma camiseta estampada com a arte do filme Tubarão (1975). Para além de uma escolha fashion muito assertiva por parte do personagem, aquela informação visual é uma mensagem: no longa de Jordan Peele a ameaça virá das profundezas, assim como a fera de Spielberg. Mais tarde nossas suspeitas se confirmam: sósias assassinas surgem do subterrâneo e passam a proclamar seu lugar ao sol, substituindo os humanos que habitam a superfície.


Não é de hoje que os monstros se escondem abaixo de nós. Eles espreitam debaixo da cama, não é mesmo? Na aclamada franquia LGBTQIA+ X-Men (risos) conhecemos os Morlocks: personagens cujas mutações afetam suas aparências, sendo impossível transitar por entre a população não mutante sem serem percebidos como “diferentes”. Assim, eles passam a habitar a rede de esgotos, morando abaixo da superfície. Se você é cringe o suficiente, provavelmente está desbloqueando uma memória afetiva com gostinho de almoço pós-escola: o episódio de X-Men: Evolution (2000) em que o personagem Spyke se junta aos esquisitões. É interessante perceber que os Morlocks constituem um grupo de mutantes ainda mais oprimido do que os alunos do Professor Xavier - para além das variadas agressões, esse grupo é, acima de tudo, invisibilizado. Existem minorias dentro das minorias. Existem guetos dentro dos guetos.



Parece que ao diferente, ao esquisito compete o lugar abaixo, a margem e o esconder-se. Os privilegiados caminham de dia; os excluídos transitam pela noite. E é esse o gancho para falar de Raça das Trevas (1990), escrito e dirigido por Clive Barker e também baseado em seu romance Raça da Noite (sim, ele faz TUDO). Vamos lá: nosso protagonista, Aaron Boone (interpretado por um Craig Sheffer gostosamente objetificado em vááárias cenas), é atormentado por estranhos sonhos sobre um lugar chamado Midian. Após perrengues diversos ele não só encontra a misteriosa cidadela como também seus habitantes - criaturas monstruosas, deformadas e esquisitas que habitam túneis e cavernas subterrâneas abaixo de um cemitério (um grande dark room). Depois de ser mordido por uma dessas criaturas, Boone torna-se uma delas e terá de deixar sua antiga vida (incluindo sua namorada Lori) para trás. Agora ele é um deles. Uma criatura das trevas. Um marginalizado.


Em vários momentos da narrativa Midian é caracterizada como “o lugar para onde os monstros vão” e, ainda, um local onde os pecados são “perdoados”. É claro que isso levanta uma série de perguntas. Primeiro, quem são esses “monstros”? E que sacanagens essas criaturas aprontaram para ganhar fama de pecadoras?



Para além das criaturas em stop motion e maquiagens duvidosas, já estamos calejados de saber que esses monstros geralmente extrapolam a narrativa e representam certas coisas. Claro que podemos nos contentar com as criaturas em stop motion e as maquiagens duvidosas, mas convenhamos: estamos falando de uma obra de Clive Barker - artista homossexual e nome expoente do queer horror. Esses monstros representam certas coisas.


Depois de mordido, Boone enfrenta certa dificuldade para controlar sua monstruosidade. E mais: diante de sangue e da excitação sexual, ele simplesmente não consegue se reprimir - e o lado monstruoso se “liberta”; o interno aflora e passa a deixar marcas externas, modificando inclusive sua aparência física. Há uma clara relação entre o monstro, a sexualidade e o desejo. Para além disso, a sensualidade parece ser bem evidente em outras criaturas de Midian - que inclusive usam dessa artimanha para atrair e atacar.



O termo “aberração” é usado com certa frequência pelos militares e população local para se referir aos habitantes de Midian. A verdade é que essas criaturas são representações de monstros coletivos e desconhecidos, assumindo as mais diversas formas diante dos mais diversos preconceitos e ignorâncias. Ao longo do filme, os monstros são comparados com mutantes, pagãos, “anormais” e comunistas (tenho quase certeza que também foram chamados de “petralhas”). Numa cena, o Capitão Eigerman utiliza o termo “faggot” para ofender outro personagem que se compadeceu com a situação das criaturas. Assim, sem mais rodeios: esses monstros também podem ser interpretados como criaturas queer.


É complexo definir queer. Vai um pouco além de “povo animado”. Mas é possível relacionar o termo com o “estranho”, aquilo que fica “na fronteira”. As criaturas de Midian são oriundas de diversas tribos e suas aparências são plurais, sempre flertando com o diferente e monstruoso. Nesse ponto, o que seriam esses tais pecados perdoados em Midian? Será que não estamos falando de práticas e vivências típicas das minorias que são demonizadas através das normatividades sociais? Logo, entre os nossos, essas atitudes passam a ser naturalizadas, perdoadas. Em Midian, tudo bem ser um monstro.



Midian é um gueto e seus habitantes são marginalizados; para essas criaturas foi reservado o subterrâneo. Em certo ponto, um personagem declara: “O que é de baixo… Permanece abaixo”. E o lar de personagens desviantes e dissidentes será alvo da punição e do extermínio - assim como seus habitantes peculiares. O serial killer do filme (sim, ele mesmo: David Cronenberg num visual icônico, diga-se de passagem) se refere às raças como "sujeira", algo que precisa ser varrido. E para isso não são poupados esforços: o ataque é bélico - e também religioso. É aquilo: existem tentativas de normatizar vivências dissidentes, seja pela cruz ou pela espada.


Raça das Trevas é um filme um pouco confuso, inchado e com certos recursos precários, mas é inegável a jornada de desconstrução (dolorosa) que flerta com o queer. Isso fica muito evidente com o protagonista: Boone deixa de reprimir seu inconsciente (que se manifestava pelos sonhos) ao ponto de exteriorizar sua monstruosidade. E mais: o personagem está disposto a deixar de lado seu chatérrimo relacionamento heterossexual para dedicar-se às criaturas de Midian. Mesmo que esse romance seja retomado, Lori também se torna uma criatura - ou seja: aquele relacionamento, aos moldes normativos, terminou a partir do momento que ambos cruzaram a fronteira, tornando-se “criaturas das trevas”. Outra evidência de desconstrução é o padre - que, em contato com Midian, deixa sua fé cristã de lado (e é vítima de uma harmonização facial extrema).



Quando o básico é negado, as percepções de Bem e Mal acabam ficando meio confusas. Os sósias em Nós viveram vidas de privações, assim como as criaturas de Midian (ou os Morlocks em X-Men). Diante disso, essas criaturas são necessariamente vilãs por reivindicarem questões que as personagens das superfícies usufruem com naturalidade, abundância e privilégio? Desejar uma outra vida é assim tão errado quando o essencial é recusado?


Ao serem atacadas, Lylesberg (basicamente um daddy de Midian) aconselha as criaturas a continuarem escondidas e não revidarem - ele é do tipo que prefere soltar notas de repúdio. Boone, por outro lado, é partidário do contra-ataque, chegando a declarar: “Irmãos e irmãs… É hora de lutar”. Longe de mim querer insinuar alguma coisa, mas num mundo onde sabemos muito bem quem são considerados monstros e quais os lugares a eles destinados, reivindicar a superfície parece algo a ser pensado.



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