• Thiago Gelli

O suspeito era um twink: porque adicionar Search Party à sua watchlist

Atualizado: Mar 16



Um twink irritadiço, com tendências psicopáticas, trajado de fantasia estapafúrdia e peruca que emula Susan Sarandon, diz: “eu teria conseguido, se não fossem esses millennials enxeridos”.


A cena hipotética poderia facilmente estar em um reboot live-action que tratasse Scooby-Doo como a rede CW trata os Archie Comics — o twink seria um dos gêmeos Sprouse — ou poderia ter sido outra direção tomada por Bates Motel. Também é algo que ocorreria sem muita cerimônia (e com total cabimento contextual) em Search Party, a comédia obscura e pouco vista da TBS transformada em sucesso modesto pelo HBO Max.


Seu esqueleto, afinal, como o título bem indica (“equipe de busca”, ao pé da letra), é a scooby gang: um referencial tão repetido em narrativas populares quanto regatas brancas em slashers. Um grupo de amigos diversos que se junta, cada qual portador de certa coleção de habilidades únicas, para atingir na união o que não foram capazes de conquistar em solitude. Search Party, no entanto, agrega a ele seu próprio tato: o que acontece quando quatro pessoas vazias, egocêntricas, fúteis, inconsequentes e sem qualquer noção de realidade unem seus métodos terríveis e hilários por um objetivo bem-intencionado?



É essa a jornada que se inicia quando Dory Sief (Alia Shawkat), descobre o desaparecimento de uma antiga colega de faculdade e recruta seus melhores amigos e namorado para a procura mirabolante. Com um diploma para o qual não achou utilidade, um trabalho insatisfatório e um relacionamento frio, Dory transforma a busca em sua maior prioridade e dá o pontapé para as quatro temporadas (outra já está em produção). A última lançada, aliás, conta com a própria Susan Sarandon e Ann Dowd, o que por si só já garante apelo queer de ponta — reforçado pela escrita deliciosamente camp.


Mesmo assim, não há muito nessa breve sinopse que desperte interesse surpreendente, o que também não causa espanto em meio à enxurrada de material formulaico lançado para streamings como que em linha de produção. Mas Search Party se esconde atrás de ordinariedades farsantes. Atrás de um mistério inofensivo, há uma sátira geracional afiada, que por sua vez revela um estudo de personagem visceral, que então alicerça uma estrutura camaleônica tão sagaz na construção de um drama jurídico quanto na de um terror à la Louca Obsessão.


Com cinco anos de trajetória, no entanto, a série permaneceu fora do radar de grande parte da crítica e público. Todas as temporadas receberam aprovação quase unânime no site Rotten Tomatoes, mas nenhuma atingiu o número suficiente de textos para um selo oficial. No Brasil, a distribuição fica a cargo do Warner Channel. A última divulgação feita em sua página do Facebook recebeu apenas 3 comentários, todos pedindo por Brooklyn 99.


Me encarrego, então, a responder a pergunta feita por mim mesmo: por que Search Party é a melhor série que você (provavelmente) não está vendo?



Ancorada pela performance de Alia Shawkat, Search Party é uma comédia satírica precisa e pungente. Com seus personagens, traça a indiferença privilegiada de jovens liberais estadunidenses com coragem política que poucas obras conseguem preservar na transmissão de conteúdo para o mercado audiovisual. Elliott Goss (John Early), por exemplo — no que é uma das performances cômicas mais enlouquecidas da atualidade — encapsula o horror da assimilação de homens gays ao status quo de maneira hilariante, absurda e tão certeira ao ponto de possibilitar o teste “essa fala é de Elliott ou de Carlinhos Maia?”, sem nunca ceder à vilanização queer simplista (em grande parte graças à destreza do criador Charles Rodgers).


Mas para além do humor e efeitos mascarados, Search Party entende algo muito bem: seu próprio universo. É justamente o que permite a navegação entre gêneros e a abrangência do tom. Search Party não é só sua mensagem, seu subtexto ou seu humor. Não necessita de bússolas morais guiando e subestimando a visão do espectador. Ela compreende seus personagens e está tão preocupada com o que sugere quanto com o que constrói na página e na câmera.



Alia Shawkat é o epicentro da narrativa, e dentro de si capta todo o tumulto que é sua proposta. Com ela, Search Party aproveita o formato ao máximo e não teme a progressão e a mudança. É uma das vantagens da televisão expandir por anos a psique complicada de personagens fictícios, e a atriz está mais do que a par da função. É o tipo de performance desprendida e selvagem que muitos cineastas procuram em femme fatales, aqui embalada num pacote hipster agressivo e em perpétua mudança radical. Ela entrega monólogos com crueza assustadora, e navega a espiral de loucura com delírio nunca caricato. Alia controla a perda de controle de maneiras difíceis de articular, mas sensacionais de serem vistas.


O já citado John Early é incansavelmente neurótico, e com certeza um comediante que merece atenção dentro ou fora da série — ele é, sobretudo, um homem gay obcecado por Toni Collette: a mais pura representatividade. Já Meredith Hagner interpreta com delicadeza a adorável e instável atriz Portia , parte paródia de Scarlett Johansson, parte sua própria personagem.


A escrita brilhante possibilita que em uma mesma temporada existam arcos para revirar o estômago de tensão, risada e dramaticidade. De bônus, chega a extrair tudo isso a partir de um psicopata twink, aquele do início do texto, que é tão Norman Bates quanto é Annie Wilkes. Os criadores, Sarah-Violet Bliss e Charles, showrunners de primeira viagem, criam conteúdo destemidamente original, alimentado pelo léxico de obras amadas e pelo tato singular cheio de apelo e vozes queer — que conversam em linguagem geracional e mais inédita do que deveria ser.



Visualmente, a série é um banquete da estética boêmia nova iorquina, que tende mais ao arthouse que à simplicidade de Sex and the City. Pelos cenários graciosamente decorados, há uma constante inquietude que perturba a opulência ou comodismo demonstrados pelos personagens e seus artefatos performáticos. É como se buscassem eles próprios algo de interessante e pertinente a ser vivido, como uma narrativa de fato cinematográfica. Um pôster no apartamento de Dory pergunta “vítima de estrangulamento?”, como que em um quadro de detetive. É prenúncio dos cantos delirantes pelo qual ela passa.


O que ocorre, afinal, quando suas casuais ilusões de grandeza se tornam realidade? O que é autêntico quando o verdadeiro é tão indesejado? Mais importante, como um programa sobre um desaparecimento proporciona tantos comentários sobre um twink?

Search Party provoca várias perguntas, e está sempre disposta a respondê-las com irreverência, acompanhada de surpresa e uma ponta afiada. É um prazer — e aproveitamento do melhor da televisão — acompanhá-la em sua consistente espiral de loucura, que transborda franqueza invejável às obras mais sóbrias.

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