• Rodrigo Lopes

[Resenha] O Vilarejo desgraçado da cabeça

Cuidado: o texto contém spoilers do livro O Vilarejo.


Em entrevista ao canal Hora do Terror, o autor do livro O Vilarejo, Raphael Montes (coautor do livro Bom Dia, Verônica, que virou série na Netflix), foi perguntado se ele era "desgraçado da cabeça" por escrever esse tipo de história, mais especificamente dentro do gênero Horror. O escritor logo respondeu que não apenas se acha uma pessoa tranquila, como também sente medo de histórias de terror. É curioso notar um autor que se descreve como medroso demonstrando ter tanto domínio do gênero em um vilarejo aterrorizante e desgraçado da cabeça.



O Vilarejo narra a história de um pequeno povoado abandonado e diariamente maltratado pela fome, frio e solidão. Dentro dessa pequena vila, os mais assustadores acontecimentos se desenrolam a partir das respostas que os moradores encontram para a sua condição. E tais soluções envolvem assassinato, tortura, escravidão, abuso, entre outras atrocidades que revelam o lado mais desumano daquelas pessoas. Aparentemente, tudo que os residentes daquele lugar precisavam era de alguém para dar um empurrãozinho. Ou melhor, algo.

O empurrãozinho vem na forma de 7 demônios que representam, cada, um dos pecados capitais. Belzebu é a gula; Leviathan é a inveja, Lúcifer é a soberba, Asmodeus é a luxúria, Belphegor é a preguiça, Mammon é a ganância e Satan é a ira. É difícil dizer se cada um desses demônios se materializa naquele vilarejo, mas é fácil afirmar que a presença deles está sempre lá, seja ela física ou não, dominando a cabeça de cada um dos moradores e despertando o que existe de pior dentro deles.


"O louco nunca sabe que é louco"


Foi essa a resposta que Raphael deu ao responder à pergunta do início desse texto.

Arrisco pegar um pouco dessa ideia. Os seres não criaram o mal, pois ele já existia dentro de cada uma daquelas pobres casinhas. Então o empurrãozinho que falávamos vem não só dos demônios, mas de Mikhail, um dos moradores mais repugnantes daquele local, que serve como uma porta de entrada para que a crueldade mude-se para aquela vila.


Ilustração: Marcelo Damm (@marcelodamm)

Destaco o pontapé de Mikhail frisando dois dos fatores que mais contribuem para a escrita do livro: A narrativa não linear combinada com o protagonismo vindo de diferentes personagens. A cada novo capítulo, nós acompanhamos um novo morador desgraçado da cabeça, sem saber, com toda certeza, em que período da linha cronológica aquele capítulo se passa. Mas recebemos dicas dos personagens, que fofocam sobre a vida dos seus vizinhos relembrando, indiretamente, arcos que se passaram, apresentando possíveis conclusões para determinados personagens e introduzindo elementos de histórias que ainda estão por vir. Um dos momentos mais fascinantes é quando descobrimos, logo no início, a partir da história de Felika, que o Krieger é aleijado, para logo depois, em outro capítulo, sermos introduzidos a um Krieger forte e saudável e já anteciparmos a desgraça. É um spoiler tão bem dado que nem nos importamos de tê-lo recebido. Dada as características, cada história do vilarejo funciona bem de forma independente, mas elas ganham uma profundidade ainda maior se lidas como um todo, através da boa e velha arte da fofoca.


O autor também destaca a possibilidade de ler a obra a partir de qualquer história. Não tive essa experiência, então não posso relatar com precisão, mas ter lido do início ao fim foi, certamente, uma experiência que não abro mão, principalmente ao relembrar o encerramento surpreendente, que conecta todos esses arcos para além do vilarejo, a partir de Satan. Sim, literalmente Satan.

Matar uma pessoa não é tão difícil, afinal


Ilustração: Marcelo Damm (@marcelodamm)

Falando em surpresas, elas encontraram morada em todas as histórias presentes aqui, trazendo uma quebra de expectativa que se relaciona, principalmente, aos personagens e sua natureza. A senhora Helda, por exemplo, vai de uma velha indefesa (e cega) que só quer um pouco de comida, para uma possível ameaça que esconde algo abaixo de seu roupão. Em outro capítulo, ela inicia como uma senhora progressista (de ótima visão) que abriga o homem preto rechaçado por toda vila, e termina como uma escravocrata racista (e cega, de novo). A narrativa quase nunca segue uma linha constante e, por mais que desconfiamos de todo contexto do vilarejo, somos espetados por reviravoltas em cada um dos arcos (tal como a Helda foi espetada no olho, bem feito).


Abandonando as descrições minuciosas, somos transportados ao ambiente daquele lugar inabitável não só através da natureza dos personagens, como também das belíssimas ilustrações que compõe as páginas. Diga-se de passagem, elas fizeram eu me arrepender de ter comprado a versão para Kindle. As artes de Marcelo Damm transmitem muito bem o sentimento de isolamento, frio e perigo, trabalhando o contraste entre cores mais sóbrias e cores quentes.


Não só Mikhail deve ter se arrependido do dia em que entrou num bordel e invejou o velho homem que mantinha uma jovem em seu colo, como todos os moradores de O Vilarejo têm motivos para se arrependerem. Cada pecado que guardam dentro de si, não só traz horrores aos outros, mas também para eles mesmos. No final dessa aterrorizante jornada, quem sai desgraçados da cabeça somos nós.


O VILAREJO

2015 | 96 páginas

Autor: Raphael Montes

Editora: Suma

Marca: Macabra