• Yuri Cesar Lima Correa

[Ossos do Ofício] Licorice Pizza, amor no tempo dos héteros

Atualizado: 21 de fev.

São os [Ossos do Ofício] de todo esqueleto manter-se atualizade com as produções que estão rolando fora do meio queer e do horror. É nesta coluna que daremos a elas a honra de serem comentadas no nosso espaço.

 

Faz tempo que tenho criado implicância com o uso da palavra “é” na crítica de artes. Conjugação do verbo “ser”, o “é” trata-se de uma palavrinha recorrentemente usada de forma medíocre, já que ela traz consigo um determinismo inúmeras vezes infundado no texto opinativo. Ao dizer que tal coisa “é” isso ou que “é” aquilo, estamos sentenciando nosso objeto de análise como se nossa opinião fosse um fato, o que acaba atropelando a visão de outres sobre o mesmo. O sujeito que lê a sentença determinada pelo “é” (ainda mais se imbuída da autoridade crítica) tende a sentir-se ou atacado ou absolvido, mas não instigado a debater e refletir. Ainda bem, a obra do cineasta Paul Thomas Anderson parece ser à prova do “é”, já que seus filmes não “são”, seus filmes “acontecem” — tal como pular à bordo de um caminhão descendo a ladeira em ponto morto; você não sabe onde ele vai parar, mas a experiência deve dar uma boa história. Aliás, o mais recente evento na filmografia de Anderson, Licorice Pizza (2021), traz uma longa e inusitada sequência envolvendo justamente um caminhão descendo a ladeira em ponto morto, com dois jovens atrás do volante disputando quem tem mais controle sobre a situação.


Paul Thomas Anderson, na sua visão recorrentemente cética sobre a pureza das relações humanas (ver especialmente Vício Inerente e Trama Fantasma), reconhece que, desde muito cedo contaminada pela estrutura mercantil, a conquista da pessoa almejada envolve menos floreios e solilóquios em balcões, e mais demonstrações de poder, influência e estabilidade. Claro, sob a perspectiva adolescente as coisas não são bem assim, é a paixão quem dita o arco narrativo, definindo começos, meios e fins pelas interações com quem nos causa borboletas no estômago; quando se conhecem, o início, e quando ficam juntos ou terminam, o desfecho. Mas essa é apenas a ladeira que o caminhão desce, interessa mesmo quem está atrás do volante. Na Los Angeles dos anos 1970, Gary (Cooper Hoffman) é um adolescente e ator de 15 anos que acredita ter esse tipo de controle quando conhece e passa a nutrir sentimentos por Alana (Alana Haim), mulher adulta cerca de dez anos mais velha. Porém, apesar de achá-lo interessante, ela o vê apenas como meios para um fim (tornar-se atriz). E a partir desses interesses, ambos movimentam um universo de pessoas e acontecimentos que vão da abertura de uma loja de colchões d’água até a já citada cena do caminhão. Eventos bons ou ruins, divertidos ou perigosos, mas que são retratados pelo filme sempre com certa leveza — ao menos, uma leveza estética que embeleza até mesmo o pior dos momentos, do modo como a lembrança costuma fazer.


Aí dá para dizer: "só quem viveu os anos 1970 consegue relacionar-se com a nostalgia que permeia Licorice Pizza". Discordo. Como uma anedota contada com meio-sorriso no canto da boca, a nostalgia despertada por Anderson tem caráter universal e se prende não ao lugar e a época (apesar destes serem evocados), mas aos afloramentos e inconsequências tão naturais da juventude apaixonada — e como eles incorrem em atitudes instintivamente capitalistas de dominância. Por exemplo, não é a loja de colchões d’água que importa à trama, mas sim o expansivo espírito empreendedor de Gary que é instigado nele pela rejeição amorosa de Alana. Da mesma forma, toda a fantástica sequência envolvendo Jack Holden (Sean Penn) serve quase como uma abstração para ressaltar as únicas duas coisas que parecem sólidas naquele ambiente: a insegurança de Alana, pois sua carreira está em jogo, e o ciúmes de Gary, que enxerga a moça como um bem pessoal nas mãos de outro. E ver o garoto correndo na direção contrária à motocicleta pilotada num campo de golfe, deixando todo o grande espetáculo para trás enquanto se apressa para socorrer a moça, acaba por ilustrar a potência desse seu sentimento de posse, que é mais incisivo do que o deslumbramento pela cena inusitada. A ilusão é bonita, mas no fim, o que mais interessa é restaurar seu poder — talvez o comentário menos sutil que Anderson já fez sobre Los Angeles/Hollywood, e ele é o cara que dirigiu Boogie Nights (1997).


Em suma, esse olhar atento não só ao desejo dos protagonistas, mas também a tudo aquilo que existe no entorno e fora da sua relação, distancia o filme de uma idealização inocente. Sim, Anderson entrega uma obra nostálgica, embalada por canções da época e retratada com a textura fílmica setentista (pouco contraste e cores marcantes levemente dessaturadas), mas essa atmosfera pertence aos personagens, não ao espectador. Gary, Alana e seus amigos são aqueles inebriados por ela, de modo que as situações são naturalmente absorvidas e digeridas como parte do seu próprio melodrama. Quando o adolescente é preso por engano e levado com truculência para a delegacia, o foco não fica no motivo da coerção, mas no fato de Alana sair correndo atrás da viatura para acudir o amigo. E ao mostrar o “resgate” à distância, compondo um plano que coloca a dupla no reflexo das portas de vidro da estação policial, Anderson posiciona a ele próprio e a nós nesse lugar de “observadores maduros”; como se, aqui e ali, Licorice Pizza se apresentasse como a filmagem em 35mm da tela de uma TV antiga que está exibindo aquela novelinha pela qual tínhamos grande carinho na infância. Há um saudosismo natural despertado pelo programa, mas também há uma distância reflexiva e cética imposta pelo formato.



Sentimento este que é ilustrado perfeitamente no meu plano favorito do longa, que traz Alana observando de longe os garotos mais novos abastecendo o tanque do caminhão enquanto estes fazem brincadeiras obscenas e inconsequentes no meio da rua. Outro comentário pouco sutil (mas sagaz) feito por Anderson; ela é quem dirige o caminhão, mas são eles, os meninos “bobos” e seus objetos fálicos que abastecem o veículo. Distante, ela apenas assiste frustrada, enquanto esconde-se da fúria de um ator mulherengo e descompensado (Bradley Cooper). Nesse mundo de homens, adolescentes apaixonadinhos como Gary chegam ao status de empreendedores muito cedo, e figurões de barba na cara tem comportamento de criança, atirando coisas nas paredes quando privados de seus privilégios. Ali Alana percebe que, enquanto for parceira de negócios de Gary, de certa forma ela é sua esposa também, pois a ligação comercial e matrimonial não é assim tão distante, como prova a discussão que os dois protagonizam lá pelas tantas envolvendo um cigarro. E como tal, quem dá nome (ou sobrenome) ao casal é, tradicionalmente, a parte masculina. Não por acaso o nome enquanto objeto de poder masculino aparece em mais de um diálogo ao longo de Licorice Pizza: quando Jack Holden “enfeitiça” Alana ao chamá-la de Grace Kelly; quando ela constata que o veterano não lembra seu nome verdadeiro; quando Jon Peters (Cooper) apropria-se do nome de Barbra Streisand para ameaçar Gary; e por fim (cuidado, spoiler!) quando o protagonista finalmente conquista Alana e sua primeira atitude é gritar o “novo” nome dela para uma multidão.



Um grito que Alana ouve sem muito entusiasmo, agora conformando-se, pois diferente do que pensava, ela não tem as mãos no volante. A disputa de poder é desleal mesmo com uma mulher adulta, e favorece os meninos incautos. E não importa se ela adquire a mania de repetir tudo duas vezes para ser mais ouvida, e nem se ela anda com um bando de garotos e usa uma mangueira de gasolina como se fosse um pênis para subjugá-los. O próprio filme é refém das vontades de Gary, e não apenas na leveza nostálgica dos visuais (que enxerga até a tensa entrevista com uma recrutadora sob o filtro perolado de uma tarde cheia de sol), como também na definição de quais são os pontos A e B do arco narrativo. É a perspectiva da paixão adolescente do garoto que determina quando a história começa e quando ela termina — muito embora o olhar de Alana esteja traindo o “felizes para sempre” daquele desfecho, carregando consigo traços de melancolia e derrota. Alana Haim, aliás, serve muito bem os modos carrancudos e igualmente cansados da protagonista, como se esta postura não representasse quem ela gostaria de ser, sendo apenas a carapuça que criou para sobreviver num mundo de Garys. Enquanto isso, Cooper Hoffman (filho do extraordinário Philip Seymour Hoffman, falecido em 2014 e antigo colaborador de Paul Thomas Anderson), vai pelo caminho contrário e traz um Gary sempre sorridente e seguro, e cujo modo de lidar com a vulnerabilidade é mostrar ainda mais segurança (ou prepotência — nesses casos, há pouca diferença). Juntos, os dois andam na penumbra enquanto os créditos finais vão correndo, ungidos sob um poente vermelho cheio de sombras que pode ser tanto romântico quanto aterrador. E não é preciso escolher uma dessas opções, pois a união de Gary e Alana não “é” isso ou “é” aquilo. Dada essas dinâmicas de poder, ela naturalmente acontece.


 

LICORICE PIZZA

EUA | 2021 | 133 min

Direção: Paul Thomas Anderson

Roteiro: Paul Thomas Anderson

Elenco: Alana Haim, Cooper Hoffman, Sean Penn, Bradley Cooper, John C Reilly, Maya Rudolph, Este Haim, Danielle Haim


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