• Alvaro de Souza

[Rebobinando] Penda's Fen: o folk horror queer sobre se tornar ingovernável



Sejam bem-vindos ao [Rebobinando], a coluna do Esqueletos no Armário que te levará de volta aos tempos de locadora para tirar a poeira do VHS (ou do DVD) e revisitar alguma obra, seja ela um clássico memorável ou uma pérola esquecida que precisa de um pouco mais de carinho. Chega junto, liga a tv e não se esqueça de rebobinar antes de devolver!


 

A adolescência é uma fase intrinsecamente monstruosa; aparência, desejos e pensamentos mudam na mesma velocidade em que nos tornamos irreconhecíveis a nós mesmos. Para jovens LGBTQIA+, se trata de um momento particularmente angustiante pois essas mudanças trazem consigo uma camada extra de vergonha. É preciso dar nome para sentimentos que, a princípio, parecemos incapazes de nomear, não nos reconhecemos no espelho e, por fim, existe a sensação de que não temos lugar na nossa casa ou mesmo no nosso país. A vergonha, admita-se ou não, é parte integral do amadurecimento da criança e do adolescente queer, e é em cima desse sentimento que Penda’s Fen (1974) se constrói.


O telefilme lançado pela BBC em 1974 é o filho profano saído do encontro entre o diretor Alan Clarke e o roteirista David Rudkin. Clarke, responsável por uma obra vasta na televisão e cinema britânicos, ficou marcado por sua estética realista e pelos temas sociais que abordava, normalmente girando em torno de jovens ingleses da classe trabalhadora. Já a obra de Rudkin tem como características marcantes os simbolismos, diálogos filosóficos, as imagens surreais e os tons oníricos com que construía suas narrativas — tanto é que ficou conhecido o estranhamento de Clarke em relação ao roteiro de Rudkin, chegando a ponto do diretor ter dito que passou parte da produção sem entender direito o que estava filmando. Entretanto, desse choque de artistas tão distintos nasceu esse pequeno e estranho filme que exalta justamente esses encontros e contrastes.



O filme conta a história de Stephen (Spencer Banks), rapaz de um vilarejo no interior da Inglaterra que é um ferrenho defensor do conservadorismo. Mesmo sendo alvo de deboche na escola por não performar o mesmo tipo de masculinidade que os colegas, ele defende com unhas e dentes a pureza de uma identidade britânica, os valores cristãos e o ideal de família nuclear — nas palavras dele a família que vai trazer o futuro da Inglaterra. Stephen se orgulha de ser filho de um pastor anglicano e de suas suas raízes inglesas, nutrindo também um profundo desprezo pelos vizinhos de esquerda. A relação dele com o mundo a sua volta começa a mudar, porém, quando visões e sonhos estranhos passam a atormentá-lo. Imagens pagãs, desejos reprimidos e figuras cristãs surgem para Stephen, levando-o a descobertas sobre si mesmo, sua família e seu país.


Fugindo da estética realista com que costuma trabalhar, Clarke entrega em Penda’s Fen um desfile de imagens igualmente belas e assombrosas que invadem silenciosamente o dia a dia do protagonista. O reflexo de um anjo na água, famílias sorridentes sendo mutiladas pela figura de um patriarca, uma aparição aterradora de Jesus e o desejo por um conhecido literalmente entrando em combustão. Com essas imagens, a jornada de Stephen é construída no meio dos campos ingleses numa interessante mistura de coming of age com folk horror.



Um gênero marcado pelo choque entre o moderno e a tradição, o folk horror (ou “horror rural”) tem uma longa história na ficção e imaginário britânico. O homem civilizado descobrindo cultos ou criaturas pagãs que não seguem uma moralidade moderna vivendo no interior do seu próprio país; o eterno conflito entre crença e descrença, cristianismo e paganismo, o passado que se recusa a passar. Clarke e Rudkin pegam os conflitos típicos dessas histórias e as molda do seu jeito. Por exemplo: Stephen, ao perceber o desejo homoerótico que sente, e que ele próprio é algo “contra a natureza” (como acusava outros de serem), se vê sem lugar no mundo que defendia — conflito que intensifica ainda mais ao descobrir que as raízes da sua família não são puramente inglesas como ele pensava. Em meio à crise e às imagens delirantes, ele entra em contato com visões do cristianismo e do paganismo das quais nunca tomara conhecimento, e que em outro momento rejeitaria, passando a se identificar cada vez mais com aquilo que antes considerava profano. Em especial, como já adianta o título, com a figura do Rei Penda, o último rei pagão da Inglaterra.


E quando Stephen percebe que a ideia de pureza não lhe cabe mais, o passado pagão passa a se tornar uma possibilidade. A libertação do personagem é construída ao reencontrar o passado do seu país e ver que tudo o que foi construído em cima de sua história, tudo o que ele acreditava, era apenas a visão incompleta do mundo e, portanto, de si mesmo. Uma visão tão naturalizada, entretanto, que, numa cena apavorante, surge na forma de um casal inglês modelo que passa a atormentar Stephen, tentando seduzi-lo e leva-lo junto consigo, dizendo que, junto deles, o jovem renascerá puro como um raio de sol. Stephen responde que não é puro e completa: “Eu sou homem e mulher, sou luz e escuridão. Eu sou uma mistura, eu não sou especial, eu sou a chama do futuro!”.



O protagonista passa então a recusar o ideal de pureza que antes tanto prezava, a noção binária do mundo dividido entre certo e errado, saudável e não-natural, masculino e feminino. A vergonha o consome, mas ao final o sentimento de deslocamento e de não pertencer a lugar nenhum lhe dá uma nova forma de ver o mundo. Da vergonha superada, vem o orgulho, a descoberta de uma nova forma de existir. Stephen se vê além das barreiras que ele próprio defendia, do que é ser um inglês, do que é ser um homem, do que é ser humano.


Logo, dentro da filmografia extremamente política de Clarke, Penda’s Fen pode gerar alguma estranheza por sua execução, que tende mais para o onírico, mas não é uma obra que se distancia tematicamente dos demais título do realizador. Numa obra marcada pela desilusão com as instituições inglesas e o sentimento de abandono da juventude, Penda’s Fen apresenta a existência queer como uma forma de resistência, uma resposta aos falsos pais que comandam a Inglaterra. Uma existência anárquica que vê no que é considerado “impuro” um início de rebelião contra o conservadorismo e as instituições que são incapazes de assistir a população. Num país que nos anos seguintes seria devastado pelo governo neoliberal e conservador de Margaret Thatcher, a imagem final de um jovem gay andando rumo ao horizonte para manter viva a chama que descobriu com o seu “sagrado demônio ingovernável" adquire força imensurável.


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