• João Neto

[Resenha] Tem Alguém na Sua Casa: entre amassos e facadas



Poucas coisas são mais universais ao terror quanto a violação da sua privacidade. A sensação de imaginar que não está sozinho... quando está sozinho. É o medo catalisador de diversos clássicos do gênero, de Black Christmas (1974) à Halloween (1978) à Pânico (1996). E é justamente no encalço desses grandes títulos que a autora Stephanie Perkins busca inspiração para seu romance adolescente com requintes de slasher Tem Alguém na Sua Casa, recentemente adaptado para a Netflix (leia nossa crítica do filme).


Como mencionei no meu texto sobre o filme, este livro faz parte de uma recente ressurgência do subgênero no mercado literário. Não é inédita e teve sua parcela de sucesso em edições paperbacks dos anos 80, quando os slashers atingiram seu pico, mas nos últimos anos em meio a doses fortes de nostalgia e uma silenciosa revanche pós-moderna do subgênero que agora está tão firme quanto antes.


A autora não é necessariamente conhecida por ficção de horror. Seus livros de maiores sucesso incluem os romances Isla e o Final Feliz, Anna e o Beijo Francês, entre vários outros do gênero. No entanto, aqui tenta sair da sua zona de conforto para criar uma história que a própria queria ler (e escreveu sob incentivos de amigos), sem necessariamente sair dela por completo. Um romance adolescente cercado por facadas e mistérios. Colocando no centro da sua história a adolescente Makani Young, recém-mudada do Havaí para uma pequena cidade do Nebraska, ela constrói um whodunnit para o público jovem-adulto introduzindo tensas e extremamente violentas sequências de horror.


Alheios à identidade - e motivação - do assassino, Makani tem uma dupla preocupação. Seu interesse amoroso, Ollie, é uma espécie de bad boy da cidadezinha pequena e que todos desconfiam ser o principal suspeito; e ela esconde um segredo de seu passado que pode a colocar diretamente na mira do assassino.



Aqueles que buscam uma trama totalmente imersa no horror podem se decepcionar com o foco que o romance de Makani e Ollie recebe na narrativa. Apesar da dinâmica previsível, Perkins constrói bem esse elo de confiança e suspeita entre eles. Confesso que em alguns momentos, me peguei soltando suspiros involuntários que só um relacionamento adolescente clichê consegue arrancar.


No entanto, a autora também utiliza esse foco nos relacionamentos da protagonista (não apenas com Ollie, mas com seu grupo de amigos e sua vó) para nos desarmar para as antecipadas sequências de assassinatos. E mesmo após dois ou três ataques extremamente violentos e grotescos, é possível ainda se surpreender quando a trama retorna para mais um banho de sangue após acompanharmos os personagens por alguns capítulos.


Porém, a narrativa tem algumas subversões que podem ou não funcionar. Uma delas é revelar a identidade do assassino na metade do caminho, se tornando uma questão de "onde ele está?" e "qual sua motivação?" para tentar descobrir e salvar as próximas vítimas do que identificar quem está por trás de tudo isso. Vem de forma inesperada e a proximidade ordinária pode ser inquietante por si só, mas também é um pouco anticlimático.


Independentemente disso, Perkins consegue construir um desfecho bacana e intenso utilizando bem seus cenários (o milharal por exemplo, bastante subutilizado no filme) e ceifando dolorosamente algumas vítimas na reta final. Entre amassos e facadas, ela consegue mesclar dois de seus interesses para criar uma trama ágil, rítmica, envolvente e ocasionalmente arrepiante, que pode te relembrar algumas vezes de checar novamente se suas portas e janelas estão trancadas.


TEM ALGUÉM NA SUA CASA

2017 | 320 páginas

Autora: Stephanie Perkins

Tradução: Ana Rodrigues

Editora: Intrínseca


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