• João Neto

[Crítica] Run é um thriller que te deixará sem unhas

Atualizado: há 7 dias

Nem faz tanto tempo que o diretor novato Aneesh Chaganty chamou a atenção da crítica internacional quando sua estreia na direção, o thriller Buscando... (2018), se tornou um dos queridinhos do Sundance daquele ano, sendo lançado comercialmente meses depois para aclamação mundial e uma ótima bilheteria. Assim como outros nomes do gênero, de M. Night Shyamalan à Jordan Peele, Chaganty precisaria entregar um segundo filme sólido para não cair na maldição do segundo filho, e se Corpo Fechado (2000) e Nós (2019) conseguiram escapar dela, posso dizer que Run também.


A nossa queridíssima Sarah Paulson estrela no papel de Diane Sherman, uma atenciosa mãe solteira que passou sua vida inteira cuidando da filha Chloe (a estreante Kiera Allen), uma agora adolescente cadeirante com muitos problemas de saúde - de asma à diabetes -, mas extremamente habilidosa e com expectativas de entrar em breve na faculdade. A relação das duas é intocável até que Chloe começa a desconfiar de pequenos detalhes de sua rotina, diretamente controlados pela mãe: a rapidez com que ela pega as correspondências primeiro enquanto Chloe espera pela resposta da universidade, a troca suspeita de remédios e por aí vai. Aos poucos, a jovem começa a se questionar: estaria sua mãe protegendo-a ou isolando-a?



Talvez o mais bacana de Run é que ele, assim como nós, sabe exatamente onde essa história vai dar. Não há muitas surpresas: Chloe está em perigo e sua mãe super protetora vai fazer o que for necessário para não deixá-la escapar. É esta autoconsciência do roteiro que permite que ele não perca tempo tentando inovar, mas sim tentando fazer uma experiência que, ainda que previsível, seja marcante. Afinal, estamos em 2020 e se você é minimamente antenado à televisão americana, tivemos um pequeno boom de produções envolvendo Síndrome de Munchausen por Procuração (de Sharp Objects a The Act a The Politician) e com uma exaustão de tema tão rápida em pouco tempo, é até surpreendente que Run ainda seja eficiente mesmo possuindo tantos elementos ridiculamente genéricos em sua trama.



O roteiro, co-assinado por Chaganty e Sev Ohanian, é afiado e sabe exatamente onde inserir cada beat para avançar a trama, portanto não fique surpreso se você já se sentir fisgado aos 15 minutos de duração. Tudo se desenrola de uma maneira tão orgânica, que a transição do lar acolhedor para o clima opressivo funciona demais e logo você se sente tão impotente como espectador quanto a protagonista.


Para quem não lembra, o filme seria originalmente lançado nos cinemas pela Lionsgate (e Paris Filmes aqui no Brasil), mas com os adiamentos do COVID, acabou sendo vendido para o streaming americano Hulu. E ainda que seja válido, assistir à Run é realmente perceber que ele seria um grande pipocão visto numa sala de cinema. Eu mesmo tenho ótimas memórias de assistir à Buscando com umas amigas e me sentir completamente envolvido com aquela história, com elas e até mesmo com as outras pessoas que estavam na sessão. Run provavelmente teria esse mesmo efeito pois quase todas as suas cenas de suspense são desenhadas para te deixar na ponta da cadeira. A diferença agora é que você vai poder ficar na ponta do seu sofá ou da sua cama...



A década de experiência da Sarah Paulson interpretando as mais surtadas variações de personagens da TV em American Horror Story pode ter sido essencial para seu casting (tem grito, catarro e até mesmo sorrisos condescendentes), mas o mais importante é como ela nunca quebra a linha tênue entre uma atuação natural e uma caricatura, pois esse não é o tom que o filme assume e é importante que nós acreditemos que há uma genuinidade em algumas atitudes da personagem.


Isso conversa diretamente com o casting da estreante Kiera Allen, que ao contrário de Sarah, está em seu primeiro papel - e ainda assim não deve absolutamente NADA à sua parceira de cena veterana. A contratação de Allen também não foi coincidência, pois foi insistência do próprio diretor que a atriz escolhida fosse cadeirante como sua personagem, com isto ela pôde também influenciar na construção da própria personagem, tornando a Chloe ainda mais autêntica para o público e por consequência mais fácil de se envolver emocionalmente. Para vocês terem uma noção, Allen é a primeira atriz cadeirante a protagonizar um filme de suspense desde Susan Peters em The Sign of the Ram... 72 anos atrás...


No final das contas, não importa se já tenhamos assistido Run - e todos nós provavelmente já o assistimos sim em alguma sessão do Supercine - pois é sua execução eficaz, repleta de pura tensão hitchcockiana e duas atuações sensacionais que faz dele facilmente um dos melhores do ano. Portanto, se for seguir o conselho do título, não fuja dele.


RUN

EUA | 2020 | 90 min.

Direção: Aneesh Chaganty

Roteiro: Aneesh Chaganty, Sev Ohanian

Elenco: Sarah Paulson, Kiera Allen


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