• Letícia Rodrigues

[XVII Fantaspoa] Mate Enterre Ganhe: quando o humor não funciona e o terror decepciona



Três amigos criam um jogo no qual o objetivo é se safar de um assassinato. Depois que sua campanha de crowdfunding fracassa e um homem misterioso diz querer financiar o projeto, o trio acaba com um cadáver em suas mãos. Esse é o enredo básico de Mate Enterre Ganhe (2020), filme de estreia de Michael Lovan, diretor e roteirista da obra. Com um pé no humor absurdo e outro no terror, o longa poderia ser o próximo indie clássico do subgênero terrir (terror e comédia), porém, ele mata esse potencial com piadas que não aterrissam e o único ganho aqui é chegar ao fim do filme sem gritar de frustração.


O ritmo é arrastado e, apesar de introduzir nossos três protagonistas — Chris (Mikelen Walker), Adam (Erich Lane) e Barrett (Henry Kelly) — e apresentar a relação entre eles de forma muito eficaz já nos primeiros dez minutos, é apenas lá pela meia hora de filme que a trama realmente começa. O longa usa uns vinte minutos para construir a dinâmica entre o benfeitor V.V. Stubbs (Craig Cackowski) e o trio, sendo que numa das sequências há dois momentos de câmera lenta acompanhados pela trilha sonora dramática ao fundo, um deles está ali para ser alívio cômico (que não funciona) e outra apenas ajuda a arrastar o ritmo.



Com piadas e trocadilhos toscos, Mate Enterre Ganhe não consegue emplacar o humor ácido que tenta criar, e certos momentos do diálogo chegam a ser tão bobos que cenas são roubadas de sua dramaticidade. O longa até te obriga a escutar uma tirada sobre veganismo que parece ter saído de um stand-up de 2010. Aliás, o filme está cheio de momentos como esse, que nos fazem rir dele, quando claramente o roteiro quer que você ria com ele.


O longa também possui inconsistências de trama frustrantes de tão óbvias. Um personagem que personifica essa falha é o policial Dan (Brian Slaten), utilizado pelo enredo como alívio cômico e também como elemento narrativo para escalar a tensão, mas acaba desperdiçado neste último recurso. Ele encontra os três amigos na cabana depois do acidente, mas não chega a descobrir a morte que ali ocorreu. Aí então o oficial combina com Chris de voltar algumas horas depois, criando um prazo para o trio sumir com o corpo. Porém, quando Dan finalmente retorna, os protagonistas simplesmente o ignoram e não respondem à porta. Ou seja, o roteiro levanta a bola da tensão, mas deixa ela cair.


Agora um exemplo de buraco no plot é o próprio debate entre o trio principal sobre o que fazer com o corpo após o acidente, uma discussão que nem deveria existir, pois meros minutos antes a resposta para essa questão foi basicamente soletrada para eles. Na sequência em que os três amigos conhecem V.V. Stubbs, os quatro conversam sobre a melhor forma de se livrar de um corpo. Stubbs critica a escolha de destruir partes que poderiam ser usadas para o reconhecimento do cadáver humano, pois seria muito complicado, e afirma que um método superior seria dissolvê-lo em ácido.



O longa é bem-sucedido de outras maneiras. Ele contorna os potenciais obstáculos de seu óbvio baixo orçamento com decisões pragmáticas, mas não menos criativas, que acabam por ser o aspecto mais positivo do filme. A escolha de fazer a maior parte dele acontecer em uma única locação, por exemplo, se prova uma excelente solução. Além disso, ao optar por não mostrar a violência, focando nas reações dos personagens, o diretor faz um ótimo uso do talento dos atores. Quem mais se destaca é Erich Lane, como Adam. O personagem possui uma energia caótica habilmente interpretada por Lane, capaz de sorrir de uma forma artificial que encaixa no personagem, ao mesmo tempo evocando imenso desconforto na audiência desde o primeiro momento em que aparece. Ele perfeitamente captura aquela vibe “não me deixe sozinha com esse cara”.


Entretanto, no fim, como exemplar de terrir, Mate Enterre Ganhe falha como terror e como comédia também. Infelizmente, não é nem um daqueles casos de “tão ruim que é bom”. O filme acaba por enterrar seu potencial com piadas fracas, furos de roteiro e um ritmo demasiadamente arrastado.


Mate Enterre Ganhe e muitos outros filmes fazem parte do XVII Fantaspoa, totalmente online e gratuito, disponível na plataforma Wurlak.


MURDER BURY WIN

Estados Unidos | 2020 | 90 minutos

Direção: Michael Lovan

Roteiro: Michael Lovan

Elenco: Erich Lane, Henry Alexander Kelly, Craig Cackowski