• Andrei R.

[XVIII Fantaspoa] A Noite da Babá: satanismo, maus-tratos e giallo


Reprodução: Fantaspoa, 2022


A personagem da babá é uma figura carimbada nos filmes de terror. Ela navegar entre de extremos e ser a principal presa de um assassino implacável, como Laurie Strode de Halloween (1978) — antes de virar uma senhora vingativa e paranoica na continuação de 2018; e também pode ser membro de um culto satanista que sacrifica crianças, como Bee, da comédia de terror A Babá (2017). Pois a seleção do XVIII Fantaspoa nos trouxe uma nova encarnação desse arquétipo com A Noite da Babá (2021), filme espanhol de estreia do diretor Igna L. Vacas, que também esteve na primeira exibição do longa no festival para uma sessão comentada, ocorrida no dia 23 de abril, no Cine Grand Café (Porto Alegre, RS).


Lá, Vacas apresentou o filme que acompanha Bianka (Ana Garberí), contratada para ser babá por uma noite por Paquita (Diana Peñalver), mãe superprotetora, e Sam (Juan Carlos Vellido), pai que não esconde o fato de que considera a filha Nicole (Vivian Milkova) um fardo em sua vida. Rapidamente Bianka cria conexão com a jovem e elas se divertem assistindo filmes de terror e comendo doces. Porém, quando Nicole é posta para dormir, Bianka recebe a visita de Charlie (Almudena Salort), cujo objetivo não é manter a jovem segura até a chegada dos pais de Nicole.


E se citei mais o filme A Babá (2017), é porque os dois título dividem não apenas a temática; na verdade, bem grosso modo, ambos apresentam uma base de história muito semelhante. O próprio diretor revelou, na sessão comentada após a estreia, que o longa de McG foi uma grande inspiração para o seu roteiro. De forma que surpreende A Noite da Babá não soa como mero repeteco, ainda que siga alguns passos daquele sucesso com Samara Weaving, apostando na comédia de terror, quesito no qual o filme de Igna L. Vacas acerta em vários momentos, com ao mostrar as constantes interrupções nos planos de Bianka e Charlie. A impressão que fica é a de um filme com um humor leve, do qual se quer aproveitar cada instante nessa pequena história bizarra — como se fosse aquela obra perfeita para ver após um longo dia de trabalho, quando você só quer se desligar do mundo vendo jovens andando por aí com uma adaga cerimonial, matando homens e tentando sacrificar uma virgem para uma entidade demoníaca.


Mas A Babá não é a única fonte de inspiração para o longa. Igna também revelou ser um fã dos gialli italianos, e isso é uma característica muito marcante do visual de seu filme. São constantes as cenas na casa da família em que vemos a escuridão contrastando com tons fortes de vermelho, em um ar muito parecido com Suspiria — que muito lembrado como giallo, mesmo não sendo um. Não surpreende, portanto, Igna ter mencionado Dario Argento como um dos inspiradores para o seu trabalho, pois ele traz em vários momentos esses tons vívidos de cores contrastando com a penumbra, produzindo uma atmosfera onírica e insuflando a ideia de que estamos acompanhando um pesadelo macabro criado por uma das três Mães da filmografia de Argento.


Reprodução: Fantaspoa, 2022


Essas referências e inspirações se unem em A Noite da Babá de maneira a formar uma narrativa muito própria e dona de si, que se apropria sem se reduzir. A relação à la Billy e Stu (Pânico, 1996) das personagens principais, por exemplo, soma-se à mitologia criada por trás do culto e à atmosfera onírica e criam a impressão de que a noite em que se passa o filme é conduzida pela inanidade e perversão. Para além de divertir, esse é um sentimento que transborda para as figuras em tela, dando a ideia de que todos divertiram-se horrores trabalhando na produção — e é sempre uma boa sensação perceber que a equipe de um filme teve um ótimo momento ao fazê-lo.


As duas “antagonistas” são incríveis, possuindo uma química fenomenal entre si e que lembra muito os doidinhos queridinhos citados logo acima. São personagens bem diferentes entre si, mas que se complementam de certa forma, produzindo um equilíbrio entre a pragmática Bianka e a excêntrica (e hilária) Charlie. è da relação delas que vem boa parte do timing cômico, explora suas diferentes formas de lidar com os eventos que se desenrolam.


Por fim, o microcosmo de referência a diversos subgêneros e filmes dentro do terror só pode ser construído por alguém muito apaixonado por esse universo macabro, e Igna sabe produzir com cuidado uma obra que, além de reverente, não deixa de se divertir e se assumir como uma comédia pastelão. A Noite da Babá tem, afinal, muita personalidade ao construir uma mitologia toda sua e que, além de ousar ter certa complexidade, ainda deixa muito material para dar continuidade às histórias desse universo — pelo que a cena pós-créditos indica, Igna ainda tem muito para nos contar. Quem sabe em um próximo festival de cinema fantástico...

 

THE NANNY'S NIGHT

2021 | ESP | 75 minutos

Direção: Igna L. Vacas

Roteiro: Igna L. Vacas

Elenco: Lone Fleming, Diana Peñalver, Antonio Mayans, Juan Carlos Vellido, George Karja


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