[48ª Mostra SP] 'Anora', que faço eu da vida sem você?
- Yuri Cesar Lima Correa
- 12 de out. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 25 de out. de 2024
Esse texto é parte da cobertura que o Esqueletos no Armário está fazendo da 48º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo como veículo credenciado, dando enfoque na programação que tenha cruzamentos com o cinema de gênero, as temáticas queers e de sexualidade. Anora, de Sean Baker, filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2024, foi exibido em uma abertura especial para a imprensa e ainda vai ter sessões na Mostra. Porém, depois disso, infelizmente só deve chegar comercialmente no Brasil no dia 23 de janeiro de 2025, conforme anunciado pela Universal, que distribui o título. Talvez exista alguma questão de contrato envolvendo a distribuição internacional do longa que estipule isso, mas considero falha a estratégia de lançar um filme desses só lá na temporada de premiações, altura na qual ele provavelmente já vai ter caído nos torrents e estar saturado em meio ao público que teria interesse em assisti-lo nos cinemas — sem contar a concorrência do período. Uma pena, pois Anora merece a catarse coletiva da sala escura.
Embora converse com várias temáticas da filmografia de Sean Baker, Anora (2024) acaba formando uma duologia mais fechada com o filme anterior do cineasta, Red Rocket (2021), ambos sobre trabalhadores do sexo — antes, um ator pornô, agora, uma dançarina e garota de programa. E exatamente por causa de suas profissões, tanto Mikey Saber (Simon Rex) naquele filme, quanto Anora (Mikey Madison) neste são figuras malquistas em seus respectivos contextos. Ninguém os quer ou respeita, e suas próprias ambições são, no geral, desprezadas. O diferencial de Anora, e o que torna interessantes analisar esses filmes como uma dobradinha, é que as discussões insufladas e mesmo o alvo do humor mudam radicalmente de direção quando se tem não um homem, mas uma mulher no centro dessa situação — algo que até os créditos iniciais parecem reconhecer, pois os de Red Rocket acompanham imagens que deslizam sempre para a direita, enquanto os de Anora acompanham um plano que move-se para a esquerda.
Se antes o personagem de Simon Rex e sua tentativa patética de encaixar-se de volta na sua antiga cidade eram a principal fonte de risadas, agora é o mundo ao redor da prostituta vivida por Mikey Madison que soa tolo e risível quando movem-se mundos e fundos para anular o casamento que a moça firmou com o jovem herdeiro de um oligarca russo. Mas estou precoce, perdão; Anora conta a história de Ani, que prefere ser chamada assim (embora quase ninguém atenda a seu pedido, nem mesmo Sean Baker, vide o título do projeto — o que já nos diz para onde ele pretende levar seu filme), uma stripper que, certa noite, acaba encantando o jovem Ivan (Mark Eidelshtein), filho de ricaços russos que habita um pequeno palácio moderno com paredes de vidro e vista para o Rio Hudson, em Nova York. Deslumbrada pela abastada vida de Ivan, Ani aceita seu pedido de exclusividade enquanto o garoto estiver nos Estados Unidos. Entre muitas transas, bebida, drogas, festas e viagens, o romance rapidamente escala entre os dois, culminando em um casamento realizado de improviso em Las Vegas, mas que é absolutamente oficial perante a lei. E é justamente o caráter oficioso da união que coloca em polvorosa a família de Ivan, fazendo com que seus pais decidam sair da Rússia para irem buscá-lo pessoalmente na América, tal é a gravidade daquilo tudo.

E o que até então vinha sendo conduzido por Sean Baker como um sonho hedonista e neon, movido pelo ritmo do line-up de músicas e batidas eletrônicas, de repente estanca e torna-se sóbrio, brutalmente cru e apegado à passagem do tempo. A partir do momento que os capangas da família encontram Ani, passamos a acompanhar não mais seus dias e semanas, mas suas horas seguintes, enquanto ela tenta escapar e impedir que anulem o seu conto de fadas. Quebra-se o sonho e, com ele, o ritmo. No lugar entra a insistência, ou melhor, a persistência ao mesmo tempo hilária e incômoda de cenas que se recusam a acabar — tal qual o pesadelo que invade o reino encantado de Ani para cumprir uma reivindicação de posse. Não que isso seja uma surpresa, a tragédia shakespeariana estava anunciada. Inesperado mesmo é o humor, por vezes pastelão, que transborda do choque entre os capangas e a protagonista. Ao contrário do que pode insinuar o estereótipo, o trio formado por Toros (Karren Karagulian), Garnick (Vache Tovmasyan) e Igor (Yura Borisov) é calmo e dócil; sabemos que eles poderiam cometer alguma violência, mas com seu carisma, os três também nos convencem sem dificuldades que eles realmente não querem partir para o uso da força. Claro, isso não é suficiente para Ani. Encurralada por três homens que desconhece, ela naturalmente reage com instinto de sobrevivência, lutando por sua vida. Parece quase errado rir da situação, pois sabemos o quão assustada a garota deve estar, mas é justamente com o humor que Sean Baker “limpa” essa dinâmica dos clichês da agressão física como único veículo de opressão, e assim deixa exposta uma outra força que mantém Anora refém: a conivência.
Claro, a brutalidade física é uma expressão óbvia da estrutura que prende e limita o potencial das mulheres, e especialmente das mulheres como Ani. Mas o enfoque na agressão pode, eventualmente, acabar fazendo parecer que não existe por trás disso uma conjuntura muito mais ampla de fatores que atuam de maneira tão violenta quanto sobre os corpos femininos. Veja só, Anora é imobilizada, amarrada e impedida de fugir, mas depois de um tempo, ela está presa unicamente pelas amarras morais imposta pelo trio. Ela sabe que escapar fisicamente não basta, e que para estar livre de verdade, ela precisa se desvencilhar virtual e moralmente dos seus captores. Sua vitória deve ser nesses termos. O xeque-mate? Convencer Ivan a não assinar a anulação do casamento. É uma disputa de petições, e ganha quem trouxer a proposta mais atraente. Ao estabelecer isso, Sean Baker já adianta que tipo de desfecho podemos esperar do embate entre a mundana Anora, mais uma entre as tantas figuras cabisbaixas no metrô, e forças tão poderosas e influentes que conseguem causar lá de outro continente a separação de uma dupla tão apaixonada. O que pode Ani, mesmo sendo um objeto de desejo perfeito para Ivan, mesmo tendo um documento legal que atesta sua união estável com ele, o que pode ela fazer frente à vontade do dinheiro? “Eu não assinei um acordo pré-nupcial”, anuncia ela em dado momento, no que parece ser uma cartada de mestre para intimidar os oligarcas. Não importa, a legalidade é cara demais para pessoas como Anora, mas barata demais para os figurões que possuem as quantias certas. Num sistema que se mede e gira em torno do dinheiro, é o dinheiro quem diz o que vale e o que não vale. Quando o sexo começa e quando ele termina.

E assim desaguamos na cena final (que não vou detalhar, mas pretendo comentar, então cuidado), uma nota melancólica sobre o trauma da personagem. Mas não o trauma vivido nas horas anteriores com os capangas, e sim o trauma de experimentar o Olimpo e depois ser reposicionada em uma vida de limitações, de idas e vindas do expediente, de rotinas cinzentas que alguns gostariam de continuar chamando apenas de “realidade”, pois assim, mantém-se naturalizada a miséria e a submissão, aceitas como algo muito terreno e normal, enquanto o acesso ao conforto e às liberdades seguem sendo algo extraordinário, que precisa ser merecido e conquistado.
As lágrimas de Anora, entendo eu, são menos pelos embates físicos e verbais com a família de Ivan, e mais por, agora, entender o quão pouco está condenada a ter. Mikey Madison, em performance estupenda, sustenta e enriquece esse arco ao trazer primeiramente uma profissional competente e assertiva que, aos poucos, dá lugar à jovem sonhadora que, afinal, Ani deveria ser na idade que tem (vinte e poucos). Mas é na virada da trama que a atriz deixa de ser a protagonista do filme e vira o filme em si. Sua energia e ferocidade corporal fazem par brilhante com o olhar furioso que ela dispensa ao trio de capangas, e embora hilária, é também a agressividade no modo de falar que impede Ani de ser vista como figura passiva nesse conflito. Não é por falta de agência desta mulher que o fatalismo se desenrola, mas é pela ineficácia de qualquer postura combativa que entendemos o quão impotente uma Anora da vida é frente a um sistema projetado e configurado para usá-la e descartá-la — e nem sempre de forma bruta, o que acredito ser o ponto aqui. Com uma gentileza violenta, a dançarina é devolvida ao seu antigo posto de operária, onde sua própria profissão desenha os limites entre o lado certo e o errado dos trilhos do trem (vizinho de janela na casa que ela divide com a irmã). Do lado de lá, estão liberadas as experimentações, o direito ao aborto, o ir e vir; não há nada que o dinheiro não possa comprar ou perdoar. Mas do lado de cá, essas liberdades são mediadas pelo moralismo, pelo que diz o pastor na TV e pela interpretação subjetiva das leis. Então agora, o que fazer da vida sem esse poder? Parafraseando a canção: o dinheiro não te ensina a esquecer, só te ensina a querer, e querendo a gente vai tentando encontrar e se perdendo.

ANORA
2024 | EUA | 139 min.
Direção: Sean Baker
Roteiro: Sean Baker
Elenco: Mikey Madison, Mark Eydelshteyn, Yuriy Borisov
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