12 filmes de Natal favoritos do Esqueletos
- Esqueletos
- há 18 horas
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Atualizado: há 2 horas
Muito além de comer pavê, acender as luzinhas e lidar com parentes queridos (ou nem tanto), uma das melhores tradições do período natalino é rever nossos filmes favoritos pela quinquagésima vez, sendo confortados pelo espírito festivo, pela estilização decorativa da data ou pelo simples ato de visitar algo acolhedor como um antigo amor. Portanto, nós, Esqueletos, decidimos reunir e compartilhar algumas de nossas obras favoritas — do terror à comédia e ao melodrama, de clássicos instantâneos a obras que merecem um novo carinho — para enriquecer suas watchlists de Natal e, quem sabe, criar novas tradições!
Escolhas do João

Natal Negro / Black Christmas (2006)
Adaptar um dos filmes mais influentes e subcutâneos do terror setentista para as sensibilidades gratuitas do novo milênio só poderia resultar em algo tão doentio e descompensado quanto Natal Negro (2006). Mantida está a base da história - universitárias numa irmandade durante o feriado de Natal são aterrorizadas por ligações ameaçadoras -, mas esta versão perversa transforma o suspense feminista de Bob Clarke em um splatter moderno, constantemente dobrando a sua aposta do “quão longe podemos ir?”. Com agressividade e um mau gosto de sobra que brilharia os olhos do John Waters, ainda há um teor de conforto na maneira que o filme se aproveita da artificialidade decorativa estilizada do feriado, dando uma funcionalidade estética pro feriado que não soa sazonal, mas sim um universo próprio de piscas-piscas, viscos e biscoitos de pele humana molhados no leite. As garotas da Delta Alpha Kappa podem não ganhar os sapatinhos de cha cha como presente, mas nós ganhamos a reunião das maiores it girls do terror anos 2000.
Provavelmente o filme de Natal mais Esqueletos-coded desta lista.

Carne Trêmula (1997)
A virada de carreira melodramática do Almodóvar trouxe notoriedade internacional com seus clássicos instantâneos de Tudo Sobre Minha Mãe à Volver, cujas temáticas em torno de família podem soar confortáveis para se revisitar em tempos de contemplação no fim do ano. Mas foi Carne Trêmula - um favorito pessoal meu que é frequentemente ofuscado dentro da filmografia - o responsável por iniciar essa fase mais amadurecida do papito. Um conto sobre desejo, amor e poder, costurado através de um rapaz cujo nascimento está ligado à história de Madrid. Sua paixão por uma prostituta o faz embarcar em um quadrado (ou seria pentágono?) amoroso com ela, um policial aposentado, seu antigo parceiro de trabalho e sua esposa renegada. Almodóvar usa a época de Natal como ponto de partida e de conclusão dessa história, uma moldura que potencializa as relações voláteis de seus personagens, borrando as linhas entre a paixão, erotismo e violência, e conectando seus destinos com as sombras de um passado da ditadura espanhola.

Sortilégio de Amor / Bell, Book and Candle (1958)
A imagem dos olhos perfurantes de Kim Novak sobrepostos ao olhar felino de um gatinho era um hit no Tumblr e, embora a presença de bruxaria em Sortilégio do Amor possa ser comumente confundida com um filme para Halloween, a verdade é que essa comédia romântica é na verdade um clássico natalino. Novak interpreta Gillian, uma feiticeira nova iorquina, alérgica ao amor pela vida dupla que vive, que decide enfeitiçar seu vizinho (ninguém menos que o James Stewart) mas acaba apaixonando-se por ele no processo. A cinemática da Old Hollywood, a praticidade aconchegante dos cenários, das ruas nevosas aos apartamentos à charmosíssima boutique da protagonista só adicionam mais tempero à química irresistível entre Novak e Stewart e ao clima outonal/invernal que dá berço à iluminação de um novo amor.
Ah, Elsa Lanchester interpretando a tia bruxa abelhuda de Gillian também torna Sortilégio um must-see!

A Maldição do Sangue de Pantera / The Curse of the Cat People (1944)
Uma continuação traiçoeira de Sangue de Pantera que, surpreendentemente, dialoga com as sensibilidades do anterior enquanto faz algo bem distante do noir psicológico de Jacques Torneur. Se o despertar sexual feminino e a repressão patriarcal eram os pilares do primeiro filme, Maldição acaba voltando sua atenção para a infância melancólica de Amy, uma garota introvertida e solitária que forja uma amizade particular com o fantasma da ex-mulher de seu pai. Embora continue acompanhando os personagens do primeiro, esta continuação consegue se sustentar por si só justamente pela decisão radical de fazer este drama psicológico e doce sobre a incompreensão adulta de uma infância queer - e nada melhor do que situar a história no período de Natal. Felizmente, a frente de seu tempo, o filme oferece uma visão bem empática e reconfortante onde, no fim, a pequena Amy não é forçada a abrir mão do que lhe torna diferente. Um verdadeiro milagre de Natal.
Vale relembrar que na codireção está um Robert Wise em início de carreira, já demonstrando um domínio cinematográfico emblemático, posteriormente eternizado em trabalhos como A Noviça Rebelde e Amor Sublime Amor.
Escolhas de Luiz

Whistle and I'll Come to You (1969)
Dando início à longeva tradição natalina da BBC de exibir histórias de fantasmas no fim de ano. Whistle and I’ll Come to You é um singelo pesadelo encapsulado em um especial televisivo. Dirigido por Jonathan Miller, adapta o conto de M.R. James transformando-o em uma experiência minimalista e quase clínica sobre o medo que sentimos daquilo que não podemos compreender.
Aqui, o homem mais britânico que você vai ver na sua vida, o professor Parkins, é um intelectual cético que parte para uma viagem ao litoral fora de temporada. Em suas perambulações por praias vazias e tomadas pelos ventos frios de dezembro (não é uma história tão tropical), ele encontra um estranho apito antigo enterrado na areia. Ao assobiar o artefato, algo irá até ele. O que segue-se é uma espiral crescente de inquietação: ruídos inexplicáveis no quarto, lençóis que se movem sozinhos e uma presença invisível que parece não apenas persegui-lo noite após noite, mas pior: dormir ao seu lado. Em seus excruciantes 50 minutos, a narrativa trabalha na fricção entre razão e histeria, transformando o protagonista em alguém assombrado não apenas por uma entidade, mas por tudo aquilo que ele tentou negar a vida inteira.

Exorcismo Negro (1974)
Trazendo o Natal para os trópicos está Exorcismo Negro, do nosso queridíssimo José Mojica Marins, um projeto nascido diretamente do impacto global de O Exorcista. Quando o filme de Friedkin virou um fenômeno, distribuidores e produtores pressionaram Mojica a criar sua própria versão “à brasileira” do terror sobrenatural. Como, nas palavras do próprio, “os Estados Unidos não entendem de Diabo” e, em vez de simplesmente repetir a fórmula, faz algo muito mais íntimo e ousado: um filme no qual ele próprio seria atormentado por sua criação, o Zé do Caixão.
A produção surgiu num momento em que Mojica vivia entre o reconhecimento popular e o cerco da censura, e Exorcismo Negro se tornou sua resposta que mistura possessão, metalinguagem e superstições com as tensões de fim de ano. O resultado é um anticonto de Natal feroz e encantador, no qual a luta contra o demônio é também a luta de um artista contra a sombra que ele mesmo projetou.

O Labirinto dos Garotos Perdidos (2025)
Na estreia de Labirinto na Mostra de Cinema de São Paulo, Matheus Marchetti contou que, no seu primeiro encontro via Grindr, ele foi com uma faca na mochila… Não para matar ninguém, mas para se proteger, num estado mental perfeitamente adolescente onde inocência, medo e tesão andam de mãos dadas. A história é tão absurda quanto lógica, e funciona quase como uma tese resumida do filme. Miguel, um jovem recém-chegado a São Paulo, atravessa a noite de Natal depois de uma desilusão amorosa decidido a encontrar alguém para transar, e o que se segue é um desfile de situações cada vez mais estranhas, ameaçadoras e hilárias. Marchetti transforma essa paranoia cotidiana da vivência queer urbana em comédia nervosa, fazendo o filme oscilar o tempo todo entre o sombrio e o pastelão, como um Depois das Horas gay, paulista e sem qualquer noção de autocontrole.
Entre desejo, autopreservação e puro delírio, Labirinto dos Garotos Perdidos entende como poucos que sair de casa movido pelo desejo pode ser um ato de coragem épica. Não por acaso, já é um clássico moderno do novo cinema queer brasileiro.

Tales from the Crypt S01E02 - And All Through the House (1989)
Quebrando um pouco o formato para adicionar um episódio das telinhas, mas um importantíssimo e cujas origens datam, na verdade, nas telonas. Originalmente um segmento da antologia Contos do Além (1972), a mesma historinha foi readaptada anos depois quando Tales from the Crypt ganhou uma encarnação televisiva, reforçando a proposta da série de maneira clara e impactante: misturando o horror com um humor ácido.
Dirigido por Robert Zemeckis, o capítulo acompanha uma mulher que, na noite de Natal, assassina o próprio marido e precisa esconder o corpo, tudo isso ao mesmo tempo em que um maníaco vestido de Papai Noel escapa de um hospital psiquiátrico e começa a rondar o bairro. A estrutura é simples e eficiente, quase um exercício de suspense clássico, mas Zemeckis brinca com timing, ironia visual e crueldade cartunesca, transformando os códigos natalinos em um festival de paranoia e punição moral.
Escolhas do Álvaro

Natal Sangrento 4: A Iniciação / Silent Night, Deadly Night 4: Initiation (1992)
A quarta entrada da infame franquia Natal Sangrento decide abrir mão da trama do serial killer Billy e sua família e tomar um rumo completamente diferente. Nesse filme, acompanhamos a história de uma jornalista que investiga o caso de uma jovem que aparentemente entrou em combustão espontânea. No meio de suas entrevistas, ela se depara com cultos à Lilith, sacrifícios humanos, baratas gigantes e bruxaria.
O diretor Brian Yuzna (de Sociedade dos Amigos do Diabo e Noiva do Re-Animator) abandona o slasher característico destes filmes e aposta no body horror sobrenatural. Natal Sangrento 4 é facilmente o capítulo mais original e grotesco da franquia. As fantasias de Papai Noel, árvores decoradas e pacotes de presente dão espaço para rituais de louvação do solstício de inverno e para uma visão mais pagã da data, além de trazer consigo muito da paranoia conservadora do período em torno do feminismo e das reivindicações femininas da década anterior. Ainda que leituras conservadoras sejam possíveis, um público LGBTQIA+ certamente vai vibrar com a narrativa de um culto sáfico que louva Lilith e odeia homens.

Vingança Macabra / The Oracle (1985)
A veterana do exploitation e do terror Roberta Findlay também colocou os seus pés no terror natalino. Em Vingança Macabra, a protagonista entra em contato com um objeto que a permite se comunicar com os mortos (algo similar a um tabuleiro de Ouija). Claro que isso desencadeia uma série de eventos sobrenaturais dentro da sua casa e a possibilidade de ter esbarrado com um caso de assassinato. Ela agora não esta segura nem dentro do seu lar, onde entidades a aterrorizam, e nem nas ruas, onde um assassino de aluguel misterioso começa a persegui-la.
Findlay não perde uma única oportunidade de dizer que acha seus próprios filmes uma pilha de lixo indefensável, mas, a contra gosto da própria diretora, eles felizmente estão em um processo de serem redescobertos e revistos com novas lentes. The Oracle compartilha da visão de mundo misantrópica e niilista dos outros filmes da diretora em que Nova York é um local infernal cheio de violência, assassinatos e miséria humana, mas aqui isso vem junto com um desfile de monstros de látex, ultraviolência, esqueletos de plástico e assassinas de aluguel lésbicas butch que dão um ar de exagero e camp para a história, tornando-a quase imperdível. E como quase toda a sua obra oitentista, Vingança Macabra também tem o valor documental de registrar as ruas de uma Nova York que não existe mais, algo que deixa o produto final ainda mais fascinante.

Na Solidão da Noite / Dead of Night (1945)
Uma das primeiras e mais memoráveis antologias de terror do cinema, Na Solidão da Noite tem um segmento memorável de horror natalino. Na história, acompanhamos um grupo de desconhecidos reunidos numa noite chuvosa que decide contar causos sobrenaturais já vivenciados. Uma das personagens decide então contar da noite de Natal em que ela decidiu brincar de esconde-esconde em uma mansão e encontra um garotinho muito melancólico dentro do quarto em que decidiu se esconder.
O filme é mais lembrado pelo segmento do ventrículo atormentado pelo seu fantoche, mas essa história também é digna de nota. No meio de anedotas sobre espíritos vingativos, loucura e assassinato, o conto da criança triste que só quer ser ninada se destaca pela sua melancolia e pela generosidade que a protagonista demonstra com ele. Uma história curta, mas que consegue captar tudo o que torna as histórias de fantasmas vitorianas tão fascinantes até hoje.

Noite de Sombras, Noite de Sangue / Silent Night, Bloody Night (1972)
Com uma dezena de títulos, Silent Night, Bloody Night é um marco esquecido do cinema de horror; um proto-slasher que antecede em muitos anos Black Christmas e Halloween e é considerado o primeiro com temática de feriado. Nele, uma sequência de assassinatos violentos acontecem na noite de Natal dentro de uma mansão com um passado sombrio. Se a sinopse parece genérica, é porque ela é mesmo.
Silent Night, Bloody Night é um filme que está menos interessado no plot do que na construção do clima soturno e invernal que ronda o cenário e os personagens. A escuridão da noite é total, a violência explode sem aviso prévio e tudo parece um grande pesadelo numa noite que não acaba. As limitações orçamentarias acabaram beneficiando o filme na sua narrativa econômica e no foco na construção de atmosfera, não será para todos os gostos, mas ainda sim vale a pena conhecer. E como ponto extra: o filme foi feito por uma equipe que fazia parte da trupe de artistas do Andy Warhol, então além da protagonista interpretada por Mary Woronov (Eating Raoul, Rock n’ Roll High School, House of the Devil) encontramos também cameos de figuras como a superstar trans Candy Darling e o diretor gay experimental Jack Smith (Flaming Creatures, Normal Love).