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  • Foto do escritorYuri Cesar Lima Correa

[Artigo] Velozes e Furiosos: moço, seu carro é meio boiola

São os [Ossos do Ofício] de todo esqueleto manter-se atualizade com as produções que estão rolando fora do meio queer e do horror. É nesta coluna que daremos a elas a honra de serem comentadas no nosso espaço.

 

Ele era tão bonitinho, mas não parava de falar do tal de Brian. Eu tinha uns 9 anos, e esse meu crush de infância ficava brigando com os amigos para ver quem era mais Paul Walker e quem era mais Vin Diesel — eu nem sabia dizer qual deles era o loiro e qual era o careca. Sendo um homossexual, sempre estive contratualmente obrigado a detestar a franquia Velozes e Furiosos, principalmente porque os garotos que faziam bullying comigo na escola adoravam; de fato, até então só tinha retido na memória a imagem do Brian O’Conner sem camisa numa cena do longa de 2001. Então exerci meu direito de nascença e segui evitando esses filmes até meados de 2011, quando um amigo muito (muito) hétero me convenceu a ir ao cinema assistir Operação Rio, quinto capítulo da série. Claro, fiquei interessado num blockbuster filmado no Brasil, e também tinha esperanças de ver Paul Walker descamisado outra vez — o que acabou não rolando. Obviamente que saí abominando a experiência. Munido de toda a sabedoria de um adolescente de 17 anos que tinha acabado de entrar na faculdade de Cinema e recém inaugurado um blogspot para falar sobre filmes, repeti feito um papagaio as frases prontas dos meus críticos de cinema favoritos e fiquei muito satisfeito comigo mesmo. Logo esqueci do que tinha visto e dei por encerrada minha incursão no universo dos rápidos e brabinhos. Uma coisa, porém, grudou: a cena do cofre, em que dois carros puxam uma caixa de aço com várias toneladas pelas ruas do Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, me peguei muitas vezes pensando nessa sequência, que não achava particularmente boa ou bem executada. Mas a ideia! Caralho, como era estúpida e divertida.



A epifania não foi exclusividade minha. Produtor e protagonista da franquia desde o quarto filme, Vin Diesel dobrou a aposta em Velozes e Furiosos 6 (2013) com perseguições envolvendo um tanque de guerra e um avião de carga, que acabariam soando até plausíveis perto das proezas vistas em Velozes e Furiosos 7 (2015). Me mantive cético, porém, mesmo testemunhando a saga dos furiosos trocar a eventual suspensão de descrença pela mais absoluta abolição da mesma, substituindo também a autoimportância pelo melodrama, e a estética de ação dos anos 1990 por um espetáculo arrojado e colorido. Divertido, sim, mas seguia achando que toda essa paixão por qualquer coisa com motor e que faz vrum-vrum era muito coisa para agradar heterossexuais querendo compensar alguma coisa. Afinal, carros são avatares de homens, extensões de seus corpos. Portanto, não foi antes de Velozes e Furiosos 8 (2017) que finalmente me convenci de que essa franquia tinha algo para me oferecer. Se outrora eu tinha repulsa instintiva ao imaginário escuro dos rachas clandestinos, bem como ao humor de tiozão-fechado-com-bolsonaro, agora me sentia estranhamente atraído por esse universo saturado no qual os carros surgiam cada vez mais performáticos. Espetaculosos mesmo, com direito a acessórios, coreografia e palco também, pois até os cenários passaram a existir em função dos veículos, que não conseguem fazer pose pra câmera, mas é como se fizessem; composições e enquadramentos passaram a valorizar os corpos de metal e seus milagres automobilísticos. E quando carros fazem o que carros não podem fazer, é como pintar as unhas e passar maquiagem escondido; e quando fazem isso de modo tão extravagante à luz do dia, é um show de drag queens.



Drag race, aliás, eram as famosas “provas de arrancada” (ou rachas, na variação moderna), estilo popular de corridas nos 1950 e que foram tema dum filme de 1954 chamado, vejam só, Velozes e Furiosos, roteirizado pelo lendário cineasta Roger Corman — que acabou cedendo os direitos de uso do título para a Universal Pictures em 2001. Mas assim como o termo passou por uma ressignificação cultural depois do reality comandado por RuPaul, a franquia capitaneada por Vin Diesel também deixou pra lá as disputas de carrinho e encontrou propósito maior no ato de se montar e dar um show. Não acredito, claro, que o astro e seus roteiristas tenham se inspirado em Notes on Camp, da Susan Sontag, para tornar a franquia propositalmente queer. Mas (e aqui estou teorizando), ao tentar se destacar no emaranhado genérico do cinema de ação estadunidense, me diverte pensar que Velozes e Furiosos acabou recorrendo a tudo aquilo que seu antigo público-alvo sempre repudiou: o exagero, o teatral, o esdrúxulo, o ultrajante, o melodrama, o novelesco… O camp. E se, nessa última década, o gênero de ação teve como expoentes obras que alcançaram a excelência através da disciplina, seja na montagem (Mad Max: Estrada da Fúria, 2015), nas coreografias (John Wick, 2014) ou na realização de proezas técnicas (Missão: Impossível), a saga dos velozes pegou a contramão. O cinema de ação fazia ballet, mas Velozes e Furiosos é funk; um ritmo impreciso, indisciplinado, indulgente, ostensivo, marrento, desaforado, mundano e ridículo de tão divertido. Depois do submarino nuclear, virei fã, especialmente do excesso pelo excesso, da extrapolação masculinista ao ponto de tornar-se paródia da mesma e, acima de tudo, do comprometimento — existe autoconsciência, mas não cinismos, pois o roteiro acredita em cada premissa absurda, em cada linha açucarada de diálogo e em cada personagem. Aliás, se existe uma lógica que rege a física nesse universo, ela está no carinho pela família de Dominic Toretto (Diesel); a lei da gravidade e os princípios da termodinâmica que se virem, a única regra é manter o clã vivo e suas façanhas operantes.


Pouco tradicional, essa tão citada família é toda formada por foras-da-lei — e há de se argumentar também que este talvez seja o elenco mais diverso em qualquer blockbuster da atualidade. Tá bom! Eles são meio religiosos, verdade. Mas como diz um amigo, “nada é tão camp quanto o catolicismo”, e prova disso é a participação da duas vezes vencedora do Oscar Rita Moreno, a abuelita Toretto, surgindo meio cosplay de Elvis Presley, cravejada de pedrinhas e usando uma pá de cordões de santo e crucifixos. Mas não para por aí. Citando Crepúsculo dos Deuses (1950): “It was all very queer, but queerer things were yet to come” (era tudo muito queer, mas coisas ainda mais queer estavam por vir).



Depois do trágico acidente que tirou muito cedo a vida do ator Paul Walker, em 2013, Brian foi dignamente aposentado como personagem. Desde então, é reverenciado e lembrado com delicadeza nos filmes que seguiram sem a sua presença. Falecido na vida real, o loiro do olho azul está canonicamente vivo dentro do universo dos velozes, o que torna no mínimo curiosa a adoração que Toretto nutre por ele — Dominic tem até um mural com fotos do Brian na sua garagem. Não estou insinuando nada. Poderia, mas não estou, ok? É óbvio que ali trata-se de Vin Diesel homenageando o saudoso amigo, mas isso é contexto extra-tela. No filme, toda sua emotividade e ternura ao lembrar do antigo parceiro de aventuras acabam adicionando sim uma camada pouco convencional na relação entre os dois personagens — que, vale lembrar, foi inspirada na amizade já bem homoerótica entre Keanu Reeves e Patrick Swayze em Caçadores de Emoção (1991). Fugindo, portanto, dos limites típicos do bromance, Toretto aparece olhando as fotografias de Brian com um sorriso bobo, enquanto toca de fundo o icônico refrão “when I see you again” (quando eu te ver de novo).



Isso já é no novo filme, Velozes e Furiosos 10 (2023). Nele, a história retoma a cena do cofre em Operação Rio, como que atestando a virada de chave que ela representou para a franquia. Agora como fã, fui assistir ao novo capítulo não sem algum receio. Veja bem, nos dois filmes anteriores (meus favoritos até então), os furiosos bateram de frente com submarinos, foram perseguidos por hordas de carros-zumbi, se penduraram de cipó num veículo automotor e, por fim, foram ao espaço — só falta agora que viajem no tempo (minha sugestão de título seria Back to the Furious). Ponto é, não tinha como seguir avançando na rua do absurdo, afinal “eles já quebraram todas as leis de Deus e da física”, como diz um dos personagens. E sem ter para onde crescer, nem mais o que corromper, a saga resolveu voltar atrás. Recontam o clímax do quinto filme a partir do ponto de vista de Dante (Jason Momoa), filho do vilão Hernan Reyes (Joaquim de Almeida), derrotado por Toretto e sua família. Dez anos depois, Dante está em busca de vingança e arquiteta um plano não para matar os protagonistas, mas para puni-los. Inclusive, adoro essa ideia de que muitos dos vilões da franquia são pessoas metódicas e bem planejadas, como Owen Shaw (Luke Evans), Deckard Shaw (Jason Statham) e Cipher (Charlize Theron), porque, em oposição a isso, os furiosos são caóticos, desregrados e excelentes improvisadores — lip sync for your life etc. Mas agora que a franquia começa a se despedir (como já confirmado por Diesel, esse é o primeiro filme de uma trilogia de encerramento), o olhar se volta ao passado. E a melancolia, já insinuada no nono capítulo, é instaurada de vez.


Por isso faz tanto sentido que Jason Momoa viva Dante como um cara bem mais extrovertido do que os algozes anteriores, investindo em trejeitos e modos afeminados que, combinados às roupas hiper coloridas, queer-codificam o personagem — para não citar seu humor mórbido (a cena das unhas) e sua adoração por dança. Jack Sparrow é a inspiração visual óbvia, mas Momoa vai além da atuação afetada. Existe uma malícia no seu Dante que denota intenção; ou seja, ele sabe que aquela performance bate de frente com a seriedade de Dominic, e faz dela uma de suas armas para quebrá-lo. Sparrow está mais prum hétero desconstruidão de Perdizes, já Dante parece uma criação de John Waters.



E com a família tão cabisbaixa e derrotista, é o vilão quem supre a demanda por excessos. Que, pra mim, foi o que elevou Velozes e Furiosos à condição de um cinema disruptivo, desviante e acidentalmente queer. Se antes eu enxergava a saga dentro duma seara que não me pertencia, hoje me sinto muito mais representado por seus valores, enquanto viado, do que por um Love, Simon ou Heartstopper da vida. YouTubers podem seguir no papinho de que “ah, perderam a mão depois do quinto filme” (normalmente com exceção do sétimo), e listando as coisas que eles conseguem ou não “perdoar” numa franquia que encontrou sua força justamente ao se esquivar da necessidade de validação de nerdzinhos héteros. Quanto mais a figura do carro é apartada da posição de estandarte da instituição “Homem”, mais atraído me sinto por ela. Lá em Crash: Estranhos Prazeres (1996), por exemplo, os personagens têm tesão em carros acidentados. Rejeitam o veículo inteiro e funcional por ser máquina fabricada e operada pela normatividade, enxergando nas ferragens retorcidas outras modelações que a sexualidade e o gênero podem assumir. De modo similar, quando a família Toretto tirou o pé do freio e os pneus do asfalto, os carros assumiram caráter de superpoder. A capotagem não mata, salva. O choque com um para-brisa, amortece. Se um veículo precisa puxar dois helicópteros presos nele, não importa o peso ou se o motor tem potência suficiente; o carro respeita a determinação do motorista. São carros do ultrarromantismo, reagindo à subjetividade de quem está atrás do volante, e foda-se a realidade. Nesses casos, o que interessa bem mais é a possibilidade. Por fim, hoje não me soa mal a ideia de um crush que não para de falar sobre Velozes e Furiosos. Dos meus 9 anos pra cá, já me chamaram de boiola por um bocado de motivos, mas até bem pouco tempo, não achava que seria boiolinha por esses filmes. Que bom que agora eu sou.

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