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  • Foto do escritorJoão Neto

[Crítica] Dezesseis Facadas erra algumas delas


Pode-se discutir que, do ponto de vista de alguns anos atrás, foi-se possível prever que o retorno do slasher, ostracizado na geladeira por um período, viria a galopadas mas, dessa vez, aliado à uma carga tão pesada de autoconsciência pós-moderna que seria praticamente impossível não o desassociar da comédia. E assim foi, pois pra chegarmos aos retornos estrondosos de Michael Myers e Ghostfaces, os verdadeiros precursores desse comeback foram os multigêneros Terror nos Bastidores (2015), A Morte te dá Parabéns (2017) e até mesmo A Babá (2018), que prepararam o terreno para um público com cinismo de sobra poder se sentir confortável a aproveitar uma boa matança estúpida sem se sentir culpado pela sombra do "pós-terror" elitizado.


Totally Killer, ou Dezesseis Facadas como será lançado no Brasil, vêm não apenas como um eco desse ciclo, como também com o artifício narrativo de misturar tramas clássicas de filmes populares com um twist sangrento. Portanto, quando a rebelde Jamie (Kiernan Shipka) perde sua mãe (Julie Bowen) para o mesmo assassino que matou suas amigas de escola e a traumatizou três décadas atrás, logo ela vai dar um jeito de acidentalmente ir parar em 1987 com uma máquina do tempo improvisada, ganhando a oportunidade de mudar o curso da história, impedir o assassino e salvar a sua mãe.



O segredo para uma boa comédia slasher pós-moderna mora em, principalmente, dois elementos essenciais: um roteiro esperto que saiba subverter expectativas e equilibrar a tensão com as doses de humor, afinal, a construção de suspense e de uma piada são dois extremos de uma mesma linha; e uma direção ágil (auxiliada de uma boa montagem) que consiga não apenas passear entre os dois tons sem derrubar a peteca, mas que também seja criativa e estilizada para cravar uma identidade visual forte no filme, ainda que essa identidade seja referenciativa.


Vindo de uma carreira de sucesso com escritora e produtora de comédias televisivas, a diretora Nahnatchka Khan (Don't Trust the B* in Apartment 23 e Fresh Off the Boat) soa fora de seu lugar em certos momentos de Dezesseis Facadas. Por mais que consiga lidar relativamente bem com as tiradas cômicas (pelo menos com o material que lhe é dado), são especialmente nos momentos de adrenalina e terror que sua mão derrapa, dirigindo-os com uma mecânica desinteressada, ou talvez, muito temerosa de sair da zona de conforto.


E isso acaba respaldando no filme, como um todo. Seja pela falta de ambição visual de Khan, acostumada com os planos estáticos e limitados das sitcoms, seja por toda estética dormente que permeia o projeto, piamente determinado a emular uma outra época vibrante (nem vou começar a falar sobre a insistência cansada nos anos 80), mas sem um vigor técnico que se permita decupar a ação sob lentes mais curiosas. O selo de produção Blumhouse e a estreia no streaming pode até te distrair, mas não demora muito pra ser relembrado que no final das contas, esse é um "filme televisivo", com todas as limitações e valores de produção de um especial de Halloween do Disney Channel.



O que sobra pra um roteiro como o de Totally Killer são piadas óbvias sobre gírias ultrapassadas dos anos 80 e o choque de gerações quando Jamie esbarra com um mundo pré-"politicamente correto", como se uma gen z caísse de paraquedas no meio de um filme do John Hughes. O humor funciona melhor quando entra em ritmo de autoparódia idiossincrática ("os anos 80 estão quase terminando e eu ainda não provei cocaína", diz uma mãe que Jamie encontra) ou toma tempo para crescer o efeito de piadas a longo prazo (como o fato de uma personagem odiar fazer oral), mas até mesmo esses momentos entram em colisão com os esforços ineficazes do filme de criar um arco dramático forte e impactante para a protagonista e sua relação com a mãe. Alguns simplesmente não conseguem ter seu momento "Bette Davis Eyes", não é mesmo?


O resultado é um filme tediosamente regular, uma comédia de terror entroncada demais pra ser engraçada e sem grandes riscos para ser engajante, caindo num limbo de não-existência que definitivamente vai garantir um esquecimento rápido momentos após os créditos finais rolarem, independente dos esforços da sempre-esforçada Kiernan Shipka. No final das contas, talvez fosse melhor deixar os anos 80 finalmente descansar em paz, de novo.


 

TOTALLY KILLER

2023 | EUA | 106 minutos

Direção: Nahnatchka Khan Roteiro: David Matalon, Sasha Perl-Raver, Jen D'Angelo

Elenco: Kiernan Shipka, Olivia Holt, Julie Bowen, Charlie Gillespie, Liana Liberato, Lochlyn Munro, Kelcey Mawema, Troy Leigh-Anne Johnson


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