• Yuri Cesar Lima Correa

[Crítica] Falta ódio n'O Beco do Pesadelo de Guillermo del Toro

Atualizado: 27 de jan.

Se você entrar no Twitter e perguntar algo ao Guillermo del Toro sobre seus filmes, o cineasta provavelmente vai responder em detalhes o motivo pelo qual utilizou aquele tom de azul e não outro para compor uma criatura ou enfeitar um ambiente. Nos seus projetos, existem poucos espaços não preenchidos com intenção e referencial — um arcabouço de filmes B pelos quais ele demonstra ter grande paixão. Paixão não, TESÃO (assim mesmo, em letras capitais). Pois del Toro sabe que o mesmo buraco de onde saem os monstros e fantasmas, também abriga os pervertidos e demais “abominações sexuais” como nós, pessoas queer. Seus terrores transam e sentem amor. E esse olhar tão humano sobre aquilo que assombra a sociedade só é comparável, talvez, com o de James Whale, o icônico diretor (gay) de Frankenstein (1931). Sendo, portanto, um unicórnio no esquema de produção de Hollywood, fiquei surpreso quando, lá pela uma hora da duração de seu novo filme, O Beco do Pesadelo (2021), me peguei questionando em silêncio: por que Guillermo decidiu contar essa história?



A resposta até chegou, ali no finalzinho, mas aí já era tarde demais. A coisa é: 120 minutos antes somos apresentados a Stanton Carlisle (Bradley Cooper), um andarilho em busca de trabalho que acaba empregado num circo itinerante — a palavra certa não é bem circo, é carnival, mas aqui ela tem outro significado. Gerenciado com mão de ferro pelo sinistro Clem (Willem Dafoe), o grupo apresenta diversos shows sensacionalistas que vão dos truques picaretas à pura crueldade. Ambicioso, Stanton vê a chance de promover um grande espetáculo de adivinhação e, ao lado de Molly (Rooney Mara), ele parte em busca da fama. Isso até deparar-se com a sedutora e perigosa Dra. Lilith Ritter (Cate Blanchett).


Adaptação do livro de William Lindsay Gresham e refilmagem do título noir homônimo de 1947 (aqui chamado O Beco das Almas Perdidas) estrelado por Tyrone Power, O Beco do Pesadelo se apresenta como um suspense paciencioso, também chamado de slow burning, com toques de estudo de personagem. Um monte de termos bonitos para dizer que é um filme que mordisca bastante até dar uma mordida de verdade. De modo que pouco sabemos sobre o protagonista e suas intenções lá no começo, e só mais adiante vamos deduzindo onde ele quer chegar (e o mais importante: onde o filme quer chegar com isso). A abordagem não é estranha, inclusive lembra bastante o tipo de arquétipo e trajetória explorados por Paul Thomas Anderson em filmes como Sangue Negro (2007), O Mestre (2012) e Trama Fantasma (2017); a macbethiana ascensão e queda de homens ambiciosos corrompidos pela fama e poder.



O problema com esse tipo de história é que figuras assim não são empáticas. Claro, suas psico/sociopatias são intrigantes e, quando retratadas com a devida distância e frieza, são fascinantes de se acompanhar — algo que Thomas Anderson sempre entendeu. Já del Toro, sabotado pelo impulso de humanizar monstros (sua melhor característica em outros casos), acaba replicando um tanto da experiência do carnival visto na primeira metade do filme. Um show de horrores e falcatruas que distraem e impressionam por um instante, mas do qual não queremos nos aproximar. Sobram cores e composições belíssimas de cenário, figurino e iluminação, tudo com camadas e camadas de justificativa e referência estética, como tenho absoluta certeza que Guillermo adoraria explicar. Falta, entretanto, uma confissão de culpa, um omelete envenenado (ver Trama Fantasma), uma complexidade que torne Stanton num personagem fascinante o suficiente para que seu arco megalomaníaco prenda por quase duas horas e meia. Porque, quando se admite desde o início que todos são monstros (ou que simplesmente não são), pouca nuance há para se explorar, pouco cinza e pouca oportunidade de conjectura para o espectador — o que é parte da força de um slow burning, ainda mais de um que se pretende estudo de personagem.



Além disso, ajudaria se o Bradley Cooper pudesse chorar de verdade, e não apenas fingir que está chorando. Na verdade, quase todo o elenco é uma nota frustrante, não porque se saem mal, mas porque estão escalados em papéis-conforto. Ou seja, vivendo personagens que já viveram antes; Willem Dafoe surge ameaçador, Ron Perlman como um brutamontes zangado (mas de bom coração), Toni Collette faz a excêntrica e Cate Blanchett exala elegância e dubiedade (ao menos, parece estar se divertindo horrores). Já Rooney Mara, coitada, às vezes preciso me lembrar que ela está no filme, de tão apagadinho que é seu papel. Destaque mesmo só para Richard Jenkins, que retoma a parceria com del Toro numa figura bem diferente do frágil Giles, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2018 por A Forma da Água (2017). Ainda assim, ele chega tarde demais para salvar o todo, tal qual a explosão de violência dos últimos 15 minutos — manifestada na estranha obsessão que Guillermo tem em destruir rostos alheios. Um sopro tardio de vida que quase justifica a construção realizada ao longo das duas horas anteriores. O difícil é impactar-se com um desfecho que basicamente reforça o consenso do qual del Toro, em sua infinita paixão pelos errantes desse mundo, já parte desde o início, "Eles são todos monstros, entendeu?". Entendi sim, amigo, calma.

 

NIGHTMARE ALLEY

EUA | 2021 | 150 minutos

Direção: Guillermo del Toro

Roteiro: Guillermo del Toro e Kim Morgan

Elenco: Bradley Cooper, Rooney Mara, Willem Dafoe, Cate Blanchett, Richard Jenkins, Ron Perlman, Toni Collette, Holt McCallany, David Strathairn



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