• Thiago Gelli

[Crítica] Noite Passada em Soho acaricia as faces sórdidas do giallo

Atualizado: Nov 22



Onde a pura originalidade é objetivo inalcançável, fonte de frustrações e pretensões ilusórias, a subversão se torna rica linguagem — e mercado. A apreciação pelo cinema e análise de sua história é, afinal, um de seus próprios pilares. De tal partida delicada, uma vasta gama de produções redutivas se origina — Hollywood (2020) e sua parada de tokens; Cinderella (2021) e suas peripécias de girlboss —, todas carentes da ciência de que, a fim de sustentar um argumento cinematográfico ancorado nos confins de uma era ou gênero, é preciso amá-los, ou ao menos compreendê-los.


Quando Pânico (1996) desconstruiu o slasher e dele retirou traços como o puritanismo de final girls, o longa compôs — e logo corrompeu — um renovado senso de segurança para seu público, que então pôde experienciar um exemplar do gênero afiado e propriamente atualizado para seu tempo. O filme ridiculariza e destrincha seus precursores com minúcia, mas também afeto, e eventualmente se junta a eles. Noite Passada em Soho (2021), ao percorrer os caminhos coloridos e historicamente misóginos dos filmes gialli, felizmente faz o mesmo.


A história evoca temas familiares ao gênero italiano. Ao passar para uma faculdade de moda em Londres, a nostálgica e romântica Eloise (Thomasin Mckenzie) deixa o lar da avó, no qual as paredes são cobertas por recortes dos anos 60; e o ar, tomado por serenatas da mesma era. Dentre suas descobertas do amadurecimento, está a da sexualidade e a da violência urbana, com as quais tem contato agravado pelas habilidades sobrenaturais que a permitem encarar um passado assombrado pela elegância de Anya Taylor-Joy.



Ao passo que o diretor Edgar Wright — admirador assumido de clássicos como Prelúdio Para Matar (1975), Seis Mulheres Para o Assassino (1964) e Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971) — acessa tais sensibilidades, é fácil esperar que o filme acabe na própria armadilha saudosista, e resulte em coletânea deslumbrada de referências e paralelos diretos, deslize comum que compõe mais vagas ideias de filmes do que obras inéditas.


Soho, no entanto, dribla os desafios de sua natureza com agilidade e genuinidade através do próprio enredo e execução. Apesar de (felizmente) nunca dispensar das vibrantes cores que remetem ao Technicolor, nem da natureza lasciva, lustrosa e violenta do gênero, Wright opta por analisá-las todas — não pela exposição pouco inventiva, mas pelos próprios mecanismos que configuram tal identidade.


Em termos de composição, o longa carrega uma peculiar semelhança com O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997) e os tropeços de Julia Roberts enquanto desconstrói a terrivelmente irreal protagonista de comédias românticas. Ambos os filmes, na verdade, demonstram a mesma abertura: em Casamento, um grupo de dançarinas performa a romântica Wishin’ and Hopin’ com toda delicadeza; em Soho, Eloise é a primeira a aparecer em tela, trajada de um vestido de silhueta sessentista e ouvindo canções românticas daquele tempo (Wishin’ and Hopin’ toca na cena seguinte).


De gêneros completamente distintos, ambos os longas contam com primeiros atos enganosos, que operam sob a exata fórmula dos comparsas que procuram destrinchar. Julia parece o par perfeito para seu amado, e Eloise parece viver os sonhos idealistas de sessenta anos atrás que procurava (também tal qual a comédia, Soho se encerra de maneira que diverge do estabelecido previamente, mas perfeitamente apropriada e reverenciosa em formato e desenvolvimento).



A lista de elementos saudosos é vasta. Sandie (Anya) é introduzida como uma vedete fabulosa, na mesma verve que Monroe e Grace Kelly. A personagem de Diana Rigg, dona do apartamento assombrado no qual Eloise vive, reforça como as canções de Dusty Springfield são melhores que a de contemporâneos; o senso de estilo da protagonista contrasta com o de suas colegas (e é visivelmente mais aprazível) e Matt Smith interpreta o galã impossível de milhares fantasias. As cores sólidas e absurdas despontam em delírios do passado, enquanto o presente continua cinzento, desestimulante e gentrificado.


Gradualmente, no entanto, enquanto Eloise sucumbe a suas visões, as eras passam a sangrar umas sobre as outras, e uma visão mais clara emerge.


O romance de contos de fada é substituído pelas duras relações de gênero. Disso, revelam-se os atemporais perigos da vida sexual. Mas, aqui, não são mais vistos homens desafiados por mulheres diabólicas. A misoginia já celebrada pelo gênero agora dá espaço à misandria experienciada por jovens mulheres que vivem pela primeira vez o espaço invasivo da violência urbana e da dominância masculina.


Também de maneira surpreendente e encarecida, sem centrar a violação dos corpos femininos em tela, o diretor prefere focar na ternura derivada do laço estabelecido entre Eloise e a fantasmagórica Sandie (Anya), enquanto ambas são endurecidas por Londres e sua massa amorfa de abusadores.



A crescente obscuridade do longa é contraposta por sua latente imaginação, que conecta as narrativas como num labirinto temporal. Cômodos se estendem por corredores infindáveis e personagens pervertidos despontam do escuro; Eloise e Sandie caminham por dentro de espelhos, e assim se comunicam. Uma sequência de dança em um salão espelhado, na qual ambas constantemente trocam de lugar, correm e se entregam aos amassos com Smith, é hipnotizante por cada segundo.


Grande parte do apelo, além da direção de fotografia de Chung-hoon Chung e dos amplos cenários, advém das jovens atrizes. A vulnerabilidade de Thomasin — previamente demonstrada para resultados desoladores em Tempo (2021) — complementa a monumentalidade de Anya, cuja caracterização nunca excede sua presença.


Nem por um segundo pode-se encará-la como caricatura ou imitação das musas do passado. Anya merece seu espaço lado a lado de Edwige Fenech e Anita Strindberg. Nenhuma peruca é grande demais para ocultar seu talento, nem para torná-la artificial. Ela domina canção, dança e presença de tela com imponência implacável, imbuída da facilidade de uma estrela que simplesmente não pode evitar seu magnetismo.



Como elusivo gancho da narrativa, ela torna o longa irresistível, e, assim como seduz Eloise para seu universo, é isca para a enlouquecedora vertigem que a escrita de Wright e Krysty Wilson-Cairns propõe, que logo torna curiosidade mórbida em preocupação genuína.


O maior feito — e o mais tocante — de Soho não é recuperar o preciosíssimo gênero do giallo (o que Faca no Coração realizou para amplo público há três anos), mas sim procurar a humanidade das dezenas de suas modelos estonteantes que, no passado, serviram para pouco mais que sacos de carne.


Sandie, por mais que todo seu brilho possa indicar, não é uma protagonista típica. Ela se adequa melhor como a bela e promissora mulher a ser a primeira assassinada, o tipo de criação cinematográfica a qual não se dirigiria maior pensamento do que o mero reflexo que reconhece sua fisionomia. Wright ousa agracia-la com uma vida, amores, pesares e decisões. Ao cantar Downtown a capella, ela não impressiona o dono de uma casa de shows, mas fascina o público — que a enxerga pelas lentes do filme.


Isso porque, por toda sua loucura e perversas reviravoltas, Soho mantém sempre sob sua manga o mais verdadeiro carinho. Ele está lá na dedicatória à Diana Rigg, nos quadros coloridos, na sangrenta revelação final, nas relações familiares, nas franjas exuberantes, nas suas vítimas, na sujeira londrina e em sua trilha sonora.


Está também em sua relação com o gênero italiano. Soho compreende não o apelo comercial de revisitar o giallo, oferecendo aplicar sobre sua existência independente o “tratamento de Hollywood”, mas sim o valor de tal linguagem, que iluminava os cantos sórdidos da cidade não em tom de denúncia, mas de compaixão e interesse — por mais que repleta de pontos dignos de crítica.


Gialli eram um campo livre e animador, alimentado pelo espírito da então revolução sexual e das renovações sociais tão promovidas pelo Ocidente nos anos 60. Se algum gênero pode (e deve) ser retomado para os tempos atuais, agora com novas perspectivas que excedam os limites de outrora, não há outro melhor. Já se o horror pode ser instrumentalizado para tropos danosos, também pode ser utilizado para expurgá-los — e aqueles que o reclamam merecem todo o glamour, saturação e prazer que o gênero tem a oferecer.


Noite Passada em Soho estreia nos cinemas brasileiros dia 18 de novembro.


LAST NIGHT IN SOHO

2021 | Reino Unido | 116 minutos

Direção: Edgar Wright

Roteiro: Edgar Wright, Krysty Wilson-Cairns

Elenco: Thomasin McKenzie, Anya Taylor-Joy, Matt Smith, Diana Rigg


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