• Letícia Rodrigues

[Crítica] Thriller O Recepcionista se revela entediantemente mediano

Quando eu vi que o novo thriller da Netflix tinha, além de uma trama hitchcockiana, mas também a Ana de Armas como uma das protagonistas, parecia que os deuses do suspense tinham nos abençoado. Mas só parecia mesmo.


O Recepcionista é o segundo filme do diretor Michael Cristofer. Esse thriller estrela Tye Sheridan como Bart - um jovem autista trabalhando como o recepcionista noturno num hotel que vê o assassinato de uma das hospedes - e Ana de Armas como Andrea - a bela e misteriosa mulher que Bart conhece depois do crime. O relacionamento entre os dois é cativante, sensível e, infelizmente, a parte mais interessante desse mal desenvolvido neo-noir.


No longa, Bart instala diversas câmeras nos quartos do hotel, através das quais ele espiona seus hóspedes. Num dos quartos, uma mulher confronta seu marido sobre o caso que ele está tendo. A discussão entre o casal fica violenta e Bart acaba vendo ela ser assassinada pelo marido. O Recepcionista vira um suspeito do crime e logo é transferido para um diferente hotel da franquia. Lá ele conhece Andrea, que - se você já viu algum filme de suspense ou série policial - obviamente terá alguma conexão com o crime. Então, quando descobrimos que Andrea está tendo um caso com um homem casado, não é preciso ser nenhum Sherlock para ligar os pontos. E, quando a conexão entre Andrea e o marido-assassino em questão é revelada, é menos surpreendente ainda.



São essas escolhas preguiçosas e o aparente desinteresse pelo próprio gênero que fazem de O Recepcionista uma decepção para qualquer fã de thrillers. O filme é pobre em suspense e é mais fácil sentir-se entediado do que tenso com as revelações previsíveis e o enredo mal explorado.


O Recepcionista tem todos os elementos para ser um excelente neo-noir: um protagonista que não se conecta muito bem com o mundo a sua volta, uma femme-fatale com um segredo e um crime que, assim como o filme em si, se desenvolvido competentemente - poderia ter sido extremamente interessante.



Além disso, a mudança de tom é feita desleixadamente.


Não há nada de errado em introduzir momentos cômicos dentro de obras de terror e suspense. Afinal, há um subgênero repleto de filmes que realizam essa mistura magistralmente. O Recepcionista não é um deles.


A trilha sonora cria momentos que se encaixariam melhor em um coming-of-age do que um filme que se vende como um suspense-psicológico. A honestidade radical de Bart - comportamento característico das pessoas com Síndrome de Asperger - cria cenas que tentam se colocar como cômicas, mas que, na verdade, destoam da atmosfera do resto do filme. Não dá para saber o que exatamente O Recepcionista quer ser e parece que o filme também não tem muita certeza.



Tudo isso não é para dizer que o filme não tem seus pontos positivos.


O gênero do suspense e do terror tem um longo histórico de representar indivíduos que não pertencem ao padrão neurotípico, heterossexual, cisgênero, branco e homem como monstros ou pessoas psicóticas. O Recepcionista poderia muito bem ter tratado a razão do comportamento voyeurístico de Bart como algo psico-sexual, mas, felizmente, não o faz.


No filme, Bart espiona as pessoas para aprender a como se comunicar com elas, já que seu diagnóstico como um indivíduo com Asperger torna a troca mais difícil. Porém, apesar de sua condição não ser uma desculpa para Bart ser violento ou o vilão do longa, ainda é a desculpa utilizada pelo roteiro para ele invadir a privacidade dos hóspedes, o que torna o autismo de Bart um artifício narrativo barato.


O Recepcionista não é um filme horrível, apenas um thriller mediano e extremamente fácil de esquecer.


O RECEPCIONISTA

USA | 2020 | 90 minutos

Direção: Michael Cristofer

Roteiro: Michael Cristofer

Elenco: Tye Sheridan, Ana de Armas, Helen Hunt, John Leguizamo










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