• João Neto

[Crítica] Foo Fighters brinca de fazer Terror no Estúdio 666



O primeiro ano de pandemia foi marcado por reinvenção. Enquanto éramos forçados a se isolar de todo o universo que conhecíamos e frequentávamos nas nossas antigas rotinas, uma das válvulas esperançosas de escape para o ócio era tentar fazer coisas novas, coisas que sempre quisemos experimentar mas que era impossível colocar em prática em meio a tantas obrigações diárias. Teve gente que começou a cozinhar; outros começaram um podcast (cof cof). Eu até tentei fazer ioga, o que durou algumas boas semanas em meados de 2020. Já os Foo Fighters decidiram fazer um filme de terror. O resultado final é Terror no Estúdio 666 (2022), uma comédia demoníaca que claramente é um fruto do marasmo da pandemia, uma piada interna que por algum acaso foi levada longe, mas que nunca necessariamente chegou a ser tão engraçada pra início de conversa.


Aqui, Dave Grohl & Cia. interpretam eles mesmos, sofrendo com a pressão de entregar seu décimo álbum. Sem a inspiração necessária para realizar um projeto de qualidade, eles resolvem arriscar e se isolam numa mansão afastada no distrito de Encino, Los Angeles, cuja história macabra deveria reacender a chama criativa da banda. É claro que, sendo uma homenagem a filmes de terror B no estilo Evil Dead, eles despertam forças satânicas que exigem sacrifícios etc. etc. etc.


Não leva muito pra perceber que o rabo da piada aqui é apenas os Foo Fighters tirando sarro com eles mesmos, arranhando a metalinguagem ao se colocarem como estrelas de uma produção B sobre possessão demoníaca. A questão é que o humor nunca vai além disso, se contentando com algumas piadocas óbvias e nada inspiradas, o que torna impossível a tarefa de sustentar o propósito único desse filme. Mas obviamente, não sou tão amargo assim e jamais poderia invalidar a brincadeira, pois eles claramente estão se divertindo e se eu pudesse ter feito um filme de terror bobo com meus amigos durante a pandemia, eu também teria feito.



É nessa energia de filme da Xuxa e seus convidados que Terror no Estúdio 666 arrasta alguns rostos conhecidos pra fazer pontinhas; de Leslie Grossman, como uma corretora maliciosa, até Will Forte, como um entregador de pizza que morre em grande estilo, passando ainda por Lionel Richie, como ele mesmo. A nova it girl do terror, Jenna Ortega, também aparece como o membro fantasma de uma banda obscura dos anos 1990, mas não há muito para ela fazer então não levantem esperanças. Sem contar a presença do próprio John Carpenter, que co-assina a trilha sonora do filme, como um engenheiro de som da banda.


Ainda que passe muito tempo investindo em um humor pastelão sem muito retorno, as aventuras da banda no campo do horror são por sua vez bem mais recompensadoras. Com boas doses de gore prático e galões de sangue falso, são nesses momentos que o filme mais brilha, se divertindo com as mutilações, jatos de líquido vermelho jorrando na tela e algumas referências ao gênero. Destaque para uma cena onde dois personagens são serrados ao meio durante o orgasmo. O problema é que leva muito tempo para chegar , visto que o filme tem injustificados 106 minutos ao invés de ser mais direto e menos preocupado em tentar de fato estar fazendo um filme.


No final das contas, Terror no Estúdio 666 serve uma comédia de rock mediana com um horror previsível. Mas ao mesmo tempo, tem uma energia muito específica de midnight movie graças à própria experiência que os membros da banda tem em brincar consigo mesmos e com o gênero. Claramente foi divertido para eles, mas isso não quer dizer que seja o suficiente para ser divertido para nós.


 

STUDIO 666

EUA | 2022 | 106 minutos

Direção: B.J. McDonnell

Roteiro: Jeff Buhler & Rebecca Hughes

Elenco: Foo Fighters, Whitney Cummings, Leslie Grossman, Jeff Garlin, Jenna Ortega


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