[Entrevista] Diretor Matheus Marchetti fala sobre lançamento de Labirinto dos Garotos Perdidos
- Esqueletos
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Depois que um encontro amoroso termina antes mesmo de começar, Miguel é lançado à deriva pela noite de São Paulo. Entre ruas desconhecidas, conversas passageiras e figuras que emergem das sombras, seus encontros sexuais se transformam em uma espécie de sonho febril urbano, cada vez mais estranho e perigoso. Em Labirinto dos Garotos Perdidos, a cidade ganha vida própria: um organismo pulsante onde desejos, medos e fantasmas circulam por vielas escuras e parques vazios, movidos por uma busca insaciável por prazer.
O Esqueletos conversa com o diretor Matheus Marchetti sobre o lançamento de seu segundo longa-metragem, que estreia nesta quinta-feira, 4 de junho.

ESQUELETOS: Quando paramos para assistir seus outros trabalhos, é muito perceptível que existe um interesse no gótico que te influencia bastante. A gente consegue ver isso tanto no texto, quanto no visual, quanto na sensibilidade, na arquitetura. Podemos dizer que Labirinto é talvez o seu primeiro filme mais urbano na maneira que você usa a experiência da metrópole como algo central da jornada do personagem. Como foi pegar esses códigos e reapropriar esses espaços para enxergar o potencial gótico neles a partir de sua própria experiência como pessoa queer?
MATHEUS: No começo, a ideia era que nem fosse um filme de gênero. Ia ser só sobre esses encontros estranhos, e acho que sempre era para ter um elemento fantástico, mas em geral sempre seria um filme mais pé no chão, porque os meus filmes sempre vão para essa coisa do gótico. Eles se passam em castelos, mansões assombradas, florestas, bosques. Muitas vezes numa coisa que não necessariamente é de época, mas é meio anacrônica, meio atemporal, meio distanciado da realidade. Eu senti a necessidade de fazer um filme que conversasse um pouco mais com o que eu estava vivendo e tentar sair um pouco da zona de conforto. Ao longo do tempo, fui tendo ideias diferentes e acabei pensando justamente nisso, de não necessariamente abandonar a minha estética, mas repensá-la dentro do contexto da cidade grande e de São Paulo, principalmente. Algumas coisas foram surgindo ao longo do caminho que eu acho que deixaram o filme um pouco mais gótico e tendo essa coisa de fábula.
No fim, o jeito que a gente construiu esses espaços enfatiza muito mais o conceito do labirinto, porque é um filme mais claustrofóbico. Criar esses espaços que são mais ambíguos e até brincar um pouco também com a própria ideia que as pessoas têm de São Paulo. Acho que é uma coisa interessante no filme, é que eles estão sempre se referindo à cidade. Os personagens verbalizam muito onde eles estão, mas o que a gente vê na câmera não tem muito a ver com o que você imagina da cidade, com o que você espera da cidade.
E: Um dos maiores chamarizes do filme é a questão da sexualidade. É tudo muito atraente, muito vivo e são cenas longas também. Como é navegar esse conceito como motor de um personagem, que é muito movido pelo desejo dele?
M: A ideia sempre foi fazer um filme sobre sexo. Ela surgiu a partir de experiências que eu mesmo vivi e contava essas experiências para amigos. Viado adora falar de sexo, né? A gente é terrível. Você junta um monte de viados juntos e fica todo mundo falando qual foi a experiência mais atroz que você já passou. Lembro de contar algumas dessas histórias e as pessoas falarem “Mas não é possível que isso aconteceu! Isso é muito bizarro, é muito estranho!”. Todos os encontros que [o protagonista Miguel] tem são baseados em encontros que eu tive, alguns de forma mais literal e outros não. Então fiquei com vontade de fazer essa história sobre essa busca por prazer, que era uma sensação que tinha em muitos encontros que tive. Uma sensação de insatisfação, meio frustrada. E que você entra meio numa loucura de ter 20 anos, estar no Grindr, com os hormônios à flor da pele e você quer transar com qualquer coisa que se mova. E você vai se enfiando nuns lugares muito arriscados em busca desse prazer, que às vezes não acaba conseguindo-o porque ele é tão idealizado, tão remoto. A ideia de ser tudo numa noite só, que vem um pouco também do Depois de Horas (1985) do Scorsese, também vem dessa coisa de se deixar perder e se guiar pelo prazer, até que ponto você vai para obter esse prazer.
Uma coisa que acho interessante é que muitos filmes de hoje abordam o sexo gay como uma coisa meio fantasiosa. Até em outros filmes meus também tem isso. Quando entra a cena de sexo, o filme vira uma chave e você meio que internaliza e entra dentro da cabeça do personagem. Vira uma coisa mais sensorial, com música e cores. No Labirinto, eu tentei fazer o oposto. As cenas de sexo, na maioria, são meio cruas. Eu queria pegar justamente essa linha entre uma coisa que é muito desconfortável, mas também dá tesão e também é meio engraçada. Pegar essas nuances do sexo que na prática, normalmente, não é esse paraíso mágico, colorido, musical, que a gente às vezes imagina e visualiza nos filmes.
E: Inclusive, não lembro de ver outro filme que retrata com tanta precisão o quão constrangedor pode ser o ato de você ter que tirar a roupa com uma pessoa que você não tem intimidade. O quão longo pode ser o tempo para você conseguir desabotoar uma camisa inteira.
M: Eu fiz questão de visualizar o figurino mais desconfortável do mundo. No primeiro teste de figurino, ele estava só de shorts e camiseta. Um look gay bem básico. Eu falei “não, você é uma bicha do interior, vamos fazer uma coisa bem caricata e essa roupa aqui é difícil de tirar”. Aí eu coloco ele com o Júlio [Mourão], que fica fazendo essas caras. Pessoalmente, a cena mais engraçada do filme para mim, é a expressão do Júlio quando ele começa a tirar a roupa do Giuliano [Garutti] e vai percebendo que a roupa vai demorar meia hora para conseguir tirar e a cara do Júlio vai murchando. Aquilo para mim é tão… genial. O Júlio Mourão é uma estrela!

E: Acho que as referências visuais do filme são muito claras quando se assiste ele. Você já tem uma assinatura muito própria visualmente. Mas outra característica forte em todos os seus projetos, que vão desde a peça O Bosque dos Sonâmbulos, que a gente assistiu e já comentou anos atrás, é as trilhas que você escolhe. Como funciona essas escolhas que você procura para construir os sons dos seus filmes?
M: Infelizmente, como todo mundo sabem, eu sou tanto cadelinha de musical, como também sou muito fã de filmes de terror que incorporam música de forma inusitada. Eu sou obcecado com o terror italiano e uma coisa que gosto muito é como as músicas [nele] não são exatamente o que você espera. Você vai ver Prelúdio Para Matar (1975) do Argento e tem uma cena muito absurda de violência com um jazz, um saxofone enlouquecedor. O som é sempre esquisito mas se encaixa, torna aquilo muito legal. Então pra mim é algo muito importante. Acho que parte também porque sou um compositor que não é um compositor. Estudei música na minha infância mas estava indo muito mal na escola e meus pais me proibiram de mexer com música até eu “virar um bom homem”. Então eu meio que abandonei esse lado e virei o quê? Um diretor. Filmes esquisitos. Mas eu tenho sorte de ter bons amigos que são compositores e gostar de trabalhar muito com eles.
Nesse filme, eu não quis trabalhar com um compositor só. Eu quis justamente pegar esses amigos que eu tenho, que inclusive muitos deles estão no filme, e chamá-los pra cada um compor uma parte do filme. Tanto o André Zappalenti, que fez o Verão Fantasma, que está fazendo agora o [meu próximo filme] Dorian Gray, como uma galera que eu nunca trabalhei antes, como o Lucas Higashi, e os próprios atores do filme. O Giuliano Garutti tem uma cena em que ele toca o violão e aquela é uma composição dele. O Edain, que é irmão do Lucas Bocalon, compôs também algumas das músicas principais do filme.
Nesse processo também aconteceu uma coisa interessante. Quando eu estava editando o filme. Faltava a música dos créditos iniciais e eu coloquei provisoriamente "Scarborough Fair", do Simon & Garfunkel, porque essa música, ela toca no filme A Primeira Noite de um Homem (1967), que é um filme que é uma das minhas principais inspirações pro Labirinto, que também é a história de um menino jovem muito esquisito tentando descobrir sua sexualidade. No caso do filme, é hétero, mas eu acho que o personagem do Juliano é bem parecido com esse personagem. E tem muitas ideias visuais parecidas entre os dois filmes.
Então, eu tava muito com a trilha do Simon & Garfunkel na cabeça e coloquei "Scarborough Fair" nas questões iniciais, ficou perfeito. E aí, eu descobri que era domínio público e a gente só regravou com o Edain e o Juliano cantando a música.

E: Eu amei que você meio que roubou uma pergunta que eu ia fazer agora, porque era justamente sobre isso. Te conhecendo, eu sei que você tem um leque de referências muito diverso. Então faz sentido quando você revela A Primeira Noite de um Homem como uma das principais referências. Fez muita coisa fazer sentido.
São referências que você não espera, sabe? Principalmente o elemento musical dentro do seu cinema. Acho que, no fim das contas, a música é o que mais guia tudo.
M: E é interessante porque, quando eu fiz esse filme, não pensei nele como um musical. Mas em praticamente todas as sessões de que participei, as pessoas sempre o referenciam dessa forma. Então talvez, no fim das contas, seja até uma coisa meio inconsciente. A música faz muito parte do meu trabalho.
E: Já que estamos falando de referências, gostaria que você compartilhasse com a gente mais algumas. Até filmes que recomendaria e que talvez não sejam tão lembrados quando se fala de Labirinto. Porque acho que as referências mais óbvias acabam sendo Depois de Horas (1985), do Scorsese, e Parceiros da Noite (1980), do William Friedkin. Tem mais algum filme que você traria para essa conversa?
M: Depois de Horas veio para mim menos como um recurso narrativo. Eu não queria refazer o filme do Scorsese de nenhuma forma.
Aliás, voltando um pouco a perguntas anteriores, em quase todas as versões do roteiro a história se passava ao longo de um fim de semana. Era um menino que ficava sozinho em casa enquanto os pais viajavam e, durante esses dias, tinha encontros com várias pessoas que apareciam por lá.
Depois resolvi seguir pelo caminho inverso. Isso também veio de uma observação muito pessoal. Acho que a maioria dos meus amigos próximos, inclusive meu namorado, não são de São Paulo. E é muito interessante perceber essa espécie de diáspora gay que acontece aqui. Às vezes, é até curioso notar que essas pessoas que vêm de fora aproveitam muito mais a cidade do que eu. Elas enxergam São Paulo como um refúgio queer, digamos assim. Aí veio Depois de Horas e eu pensei: não, essa história precisa acontecer ao longo de uma única noite. Foi nesse momento que o protagonista também deixou de ser alguém da cidade e se tornou alguém de fora.
O Suspiria (1977) é interessante que as pessoas sempre conectam o meu trabalho ao Dario Argento, mas ele é um diretor que ficou tão enraizado no meu subconsciente que eu não estou mais pensando diretamente nele. Eu estava com o giallo, sim, na cabeça, mas não necessariamente com os trabalhos do Argento.
É um gênero muito amplo. Às vezes, o giallo é um espectro. E eu estava pensando mais nesses filmes que misturam diferentes elementos de gênero. Principalmente Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971), do Fulci, que, assim como no Labirinto, tem uma protagonista que sonha com esses assassinatos.
Também pensei nos filmes do Sergio Martino, como O Estranho Vício da Senhora Wardh (1971), que trata muito de sexo. Porque, no fim, o elemento erótico do Argento é um pouco mais vago. Pelo menos os filmes principais dele não são tão eróticos. Eu estava pensando mais nesses diálogos com o erotismo.
Pensei muito também em Inverno de Sangue em Veneza (1973), porque uma coisa de que gosto muito nesse filme é que ele parece ser dois filmes diferentes acontecendo ao mesmo tempo e que, eventualmente, acabam se cruzando.
Eu queria manter a minha ideia original, que era fazer um filme sobre encontros sexuais, quase uma pornochanchada, ou seja, uma comédia erótica, mas com essa sensação de perigo pairando sobre tudo. Essa impressão de que há alguma coisa acontecendo nas entrelinhas e que, em algum momento, vai invadir a narrativa principal. Que esses dois filmes, de alguma forma, vão se encontrar.
E uma referência em que eu não tinha pensado até recentemente, quando alguém apontou, foi De Olhos Bem Fechados (1999), do Kubrick. E faz sentido. Também é um filme sobre uma pessoa em busca de prazer, atravessando uma série de encontros em que tudo dá errado.
O Labirinto dos Garotos Perdidos estreia nesta quinta-feira, dia 4 de junho.
Ouça a entrevista na íntegra: