• Alvaro de Souza

[Livro] O Exorcismo da Minha Melhor Amiga: Música alta e uma amizade dos diabos

Atualizado: 1 de out.

- Glee estava falando sobre P&G - continuou Gretchen, sem sequer ouvir. - Eles dão dinheiro para igrejas satânicas. E teve aquela pré-escola na Califórnia onde criancinhas eram molestadas em túneis embaixo das salas de aula. Todo mundo fingiu que era normal por anos. Ninguém liga para os próprios filhos. As pessoas vão à igreja e sorriem, mas há um mal sombrio dentro de todas ela. Você não gostou mesmo do meu cabelo? (p 107, trad: Edmundo Barreiros)

Já se passaram seis anos desde a estreia da primeira temporada de Stranger Things, desde então, a série se tornou o símbolo da onda de nostalgia dos anos 80 que varreu as mídias nos últimos anos. Ainda que a série ainda seja um sucesso estrondoso e coloque músicas no top 1 mundial, hoje ela parece quase uma anomalia, uma memória de uma onda que já passou. A roda da nostalgia já esta apontando para os anos 90 e nesses seis anos após dois It, Novos Mutantes, jogos emulando estética de filmes slasher oitentistas, neon, músicas de sintetizador e piscadelas invadindo o cinema (não poupando nem os filmes de super-herói) a nostalgia oitentista parece tão cansada que já virou uma paródia de si mesma. Nesse cenário, é justo se perguntar se um livro batizado O Exorcismo da Minha Melhor Amiga cuja capa copia a estética de VHS oitentista, com direito a um mullet, ainda teria algum espaço num mercado saturado de piscadelas pra era das ombreiras.


Lançado originalmente em 2016 e no Brasil em 2021, O Exorcismo da Minha Melhor Amiga foi escrito e publicado ainda no começo da invasão de obras que se passam no período. Na história acompanhamos a amizade de Gretchen e Abby desde o seu início quando Gretchen foi a única criança a ir no aniversário de Abby até os fatídicos eventos que dão nome ao livro já na adolescência. Abby é bolsista numa escola de elite e ainda que faça parte de um grupo de garotas Gretchen é amiga com quem tem um laço mais forte, uma lealdade quase cega que as duas cultivam desde a infância. Um dia as amigas viajam para uma casa no lago para um final de semana se divertindo sozinhas, uma delas propõe para as outras delas experimentarem LSD. Sob o efeito de ácido Gretchen entra em pânico e some na noite, suas amigas se desesperam e saem a sua procura madrugada adentro.


Gretchen é encontrada nua, suja e agindo de forma confusa e incoerente no meio do que parecem ser os destroços de uma casa. O alívio de encontrar a amiga é imediatamente substituído pelo horror do que pode ter acontecido durante a noite com ela e, principalmente, por como os seus pais iriam reagir se soubessem disso. As meninas fazem o acordo de não falar sobre o que aconteceu, mas o comportamento estranho que Gretchen começa a apresentar nos dias seguintes faz Abby se perguntar se evitar pensar sobre o que aconteceu realmente é o melhor a ser feito. Gretchen começa a aparecer na escola com roupas sujas, aparentando não tomar banho e cada vez mais fechada e arrisca, um dia chega a confessar para Abby que sente a presença estranha de um homem e que sente algo maligno que quer entrar embaixo da sua pele.


Um dia Gretchen aparece limpa na escola e aparentemente de volta ao seu estado normal, mas Abby sabe que algo esta diferente nela. Os violentos e estranhos acontecimentos que começam a acontecer com o seu grupo de amigas e que progressivamente vão a isolando mais e mais ajudam a confirmar os seus medos. Resta a ela encarar de frente esse mal que ameaça destruir a sua vida, a de Gretchen e a de todos ao redor delas.


O livro segue a narrativa de um coming of age misturado com terror. Muitos dos momentos grotescos e de horror da história as personagens vão girar em torno de relacionamentos com garotos, padrões de beleza (o que gera o momento mais gore do livro), relacionamento com os pais e, é claro, amizade entre meninas adolescentes. O quanto adolescentes (sendo as mulheres o foco do livro) podem ser cruéis uns com os outros ao mesmo tempo que podem criar laços de amizade intensos e que parecem inquebráveis, o tipo de fidelidade e de ódio com a intensidade típica da idade. É fácil pensar em comparações com Garota Infernal, Jovens Bruxas, Possuída e até mesmo Meninas Malvadas, histórias que dialogam bastante com o livro de Hendrix e que são atenuadas pela questão de classe que O Exorcismo… destaca ao longo da história e que dá uma camada a mais pras tensões da história. Os conflitos são todos filtrados pelo olhar da protagonista que sempre se sentiu uma forasteira no mundo classe média alta das amigas que, em momentos extremos, fazem questão de lembrá-la que naquele ambiente ela é praticamente uma invasora. Não apenas elas, como os pais e responsáveis constantemente se fazem valer da sua posição econômica e do seu status para deliberadamente humilhar ou reprimir Abby, que se vê cada vez mais solitária e impotente diante do que está acontecendo.


A experiência oitentista de Abby não é marcada pelas luzes neon ou por aventuras em grupo, mas sim pela solidão, pela paranoia e pela constante lembrança de que ela é uma excluída do sonho americano. Hendrix não recusa a nostalgia dos anos 80, o romance é repleto de referências ao cinema e indústria musical da época (a ponto de cada capítulo ser nomeado com músicas da época como Total Eclipse of the Heart e Sunday Bloody Sunday), as protagonistas são adolescentes e completamente imersas na cultura pop da época e esta se torna inclusive essencial para a resolução do conflito. Os nomes tão característicos dessa época, as letras de música, os cupcakes de E.T. - O Extraterrestre se misturam com o conservadorismo latente dos personagens, o satanic panic e o capitalismo selvagem da era Reagan. Sem entrar em grandes spoilers a cultura pop acaba se tornando a linguagem específica que as personagens criam entre si. Mais do que apenas uma piscadinha para o leitor, as referências se transformam em algo íntimo e próprio da relação delas. Você certamente reconhece esse trecho de música, mas aqui ele é algo mais, ele é parte da Abby e da Gretchen.


No ano seguinte ao lançamento de Exorcismo Grady Hendrix lançou Paperbacks from Hell, livro que venceria o prêmio Bram Stoker de não-ficção daquele ano. Nele, Hendrix faz mergulho na história do mercado editorial norte-americano de livros de terror focando principalmente nos livros de terror baratos feitos para serem vendidos em bancas e nas suas capas chamativas. Títulos sensacionalistas, capas surrealistas e/ou estilizadas com imagens de nudez, violência e criaturas estranhas e histórias que buscavam ser entretenimento rápido, possivelmente grotesco e em alguns casos algo que seria impublicável nos dias atuais. Hendrix demonstra uma curiosidade imensa pelo assunto assim como um respeito por eles, com seus defeitos e tosquices eles ainda são parte da história do gênero e foram responsáveis por ajudar a criar uma comunidade de fãs em torno dele.


Esse apreço transparece em Exorcismo da Minha Melhor Amiga, o exagero tanto do grotesco quanto dos sentimentos das personagens que várias vezes abraçam o pulp e o melodramático sem medo. Assim como se apropria da cultura pop oitentista, Hendrix se apropria do terror pulp barato voltado para um nicho de fãs que não se importam com a crítica para criar a sua própria abordagem pro terror. Um livro feito para ser exagerado, fora dos padrões do bom gosto, que não vai agradar parte do público, voltado para um nicho específico dos fãs de horror, mas contado com a sensibilidade do autor que vê no gênero uma possibilidade para contar uma história sobre o amor entre duas amigas capaz de superar qualquer adversidade. O asqueroso, os vômitos, os vermes, as revoadas de pássaros loucos, as sombras ameaçadoras e os exorcistas halterofilistas coexistem com a profunda empatia e carinho que as protagonistas sentem uma pela outra.


 

O EXORCISMO DA MINHA MELHOR AMIGA

2021 | 313 páginas

Autor: Grady Hendrix

Tradutor: Edmundo Barreiros

Editora: Intrínseca


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