• Yuri Cesar Lima Correa

[Ossos do Ofício] A Pior Pessoa do Mundo é inevitável

São os [Ossos do Ofício] de todo esqueleto manter-se atualizade com as produções que estão rolando fora do meio queer e do horror. É nesta coluna que daremos a elas a honra de serem comentadas no nosso espaço.

 

Há quem diga que a pior pessoa do mundo é sempre aquela que está fora de seu tempo, pois o indivíduo perdido, indeciso, é sempre um problema para os outros. Mas como podemos evitar ser essa pessoa se, no percurso da vida, há caminhos que só se tornam claros depois que já foram percorridos? Como manter a reputação idônea se há erros que só o tempo consegue revelar, feito um paleontólogo pincelando fósseis? A resposta relutante a esta pergunta deve ser: não há escapatória. Hora ou outra, a gente se perde um pouco e estanca num beco sem saída, insiste em algo que já não funciona, ou aposta tudo numa empreitada que tem poucas chances de dar certo; foge de oportunidades seguras, mas que exigem comprometimento, abandona, some, volta e arrepende-se. Em outras palavras: eventualmente, a pior pessoa do mundo também somos nós.


Os roteiristas Joachim Trier e Eskil Vogt, colaboradores de longa data (entregando aqui o terceiro capítulo de uma trilogia informal formada ainda por Começar de Novo, 2006, e Oslo, 31 de Agosto, 2011), compreendem o horror opressivo contido nessa inevitabilidade. E muito embora A Pior Pessoa do Mundo (2021) não se apresente como um filme formalmente dentro do gênero de terror, a trajetória de ambos os realizadores desagua aqui numa atmosfera densa e fatalista, tomada por sombras e cores escuras que a todo tempo remetem ao luto e ao equívoco — como se os personagens estivessem constantemente revestidos deles. Por outro lado, existe um senso de humor inédito e bem-vindo que permeia este novo projeto da dupla, cujas obras tendem a ser mais austeras, incomodativas e com certo distanciamento humano (ver Thelma, 2017, e Os Inocentes, 2021). Como cineastas, sempre achei que faltou a Trier e Vogt um pouco de compaixão para com as figuras que trazem à tela; e aqui, talvez por compreenderem que a natureza instável de Julie (Renate Reinsve) é parte de um processo pelo qual todos nós passamos, os dois permitem-se tratá-la de forma mais caridosa, como quem diz “tudo bem, faz parte”.



Na trama (se é que há uma), Julie é uma jovem estudante que muda de faculdade como quem muda de meia. Essa instabilidade é contestada quando ela se apaixona por Aksel (Anders Danielsen Lie), um cartunista já nos quarenta e poucos que procura justamente assentar-se e formar família. A ideia assusta a moça, que logo encontra uma válvula de escape em Eivind (Herbert Nordrum), que tampouco sabe muito bem o que fazer da vida. Ouso dizer, porém, que as especificidades dessas idas e vindas pouco importam ao efeito do filme. Sim, é divertido ir conhecendo Aksel e Eivind pelos olhos de Julie, contabilizando seus vícios de discurso e tentando prever as atitudes que tomarão se confrontados com isso ou aquilo. Os personagens de Trier e Vogt são vivos, e o humor proposto pela dupla só funciona por causa disso — como quando Eivind volta à livraria para falar com Julie e imediatamente entendemos que isso é fruto de seu jeito meio bobão. Por outro lado, o roteiro da dupla trabalha essas figuras também como arquétipos, de modo que passam a representar verdadeiras imagens de rorschach em movimento. Por exemplo, quando em dado momento (e não vou revelar de quem) Julie descobre que pode estar grávida, não é preciso já ter enfrentado essa possibilidade para sentir o medo experimentado pela moça; porque a questão ali não é a gravidez em si, mas o terror existencial que toma conta dela ao contemplar o comprometimento com um projeto de vida a longo prazo para o qual ela não sabe se está pronta.


Da mesma forma, não é o relacionamento com Aksel que a prende, e nem o caso com Eivind que a impulsiona. Ambos são resultado desta fase angustiante enfrentada pela protagonista; ela sabe que é capaz de ser e fazer mais, mas ao mesmo tempo, teme comprometer-se com planos que podem consumir uma boa parte de sua vida e acabar dando em nada — como quem admira um carrossel do lado de fora, hesitante sobre a hora de escolher um animal para pular em cima e entrar na roda. É natural que o fruto mais notável dessa indecisão seja, portanto, a mediocridade. Embora inteligente e sensível, Julie trabalha como atendente numa livraria, não terminou curso algum e apenas acumula semi-talentos nunca explorados de maneira aprofundada; ela é uma fotógrafa ok, uma escritora ok, uma namorada ok. E até o medo de envelhecer sob o olhar do julgamento alheio (ilustrado na melhor cena do filme, envolvendo cogumelos), é mais estagnante do que motivador; um destino que inspira desistência e não resiliência, justamente por apresentar-se como “inevitável”. Julie, claro, não é a primeira protagonista a lidar com essas angústias tão típicas ao jovem adulto, mas ela certamente carrega consigo um diferencial revigorante: agência. Dá, por exemplo, para comparar Julie com o famoso protagonista narrador de O Estrangeiro, livro de Albert Camus publicado em 1942… Eu sei, eu sei, lá vem o viado pedante com referência literária francesa do século passado mas OUVE SÓ: O Sr. Meursault representa uma série de personagens que adotam uma postura indiferente como resposta ao entendimento de que o destino também é indiferente a nós — sua mãe morre e ele vai ao cinema, a namorada lhe pede em casamento e ele dá de ombros, porque estava com calor ele mata um homem, e por aí vai. Julie, por outro lado, surge quase como uma tréplica a isso: ao invés de se ressentir deste momento de crise e se fazer passiva a ele, a moça surfa em suas possibilidades. Se a vida estancou, então porque não pausar um dia inteiro para fazer o que bem entender? Se a oportunidade se apresenta, porque não invadir uma festa? Porque não testar os limites do que é e o que não é uma traição? Se é inevitável, porque não tirar o melhor do percurso?



O Sr. Meursault criado por Camus é um homem desprezível, não por ser mau, mas por ser indiferente a tudo de bom e ruim que acontece no seu entorno. Talvez Julie, porém, seja uma pessoa ainda pior, porque tem a ousadia de reagir à inevitabilidade. Crises, impulsividades, indecisões e inércia a prendem num redemoinho, mas isso não a impede de surfar nele. Sua história segue acontecendo, por pura insistência dela; pequenos e grandes momentos transformando-se em capítulos. Usa-se o que a vida dá, se forem limões… Vocês já sabem. Mas como diz a música, pode ser pau, pode ser pedra e pode ser o fim do caminho (como de fato é, para certo personagem). E quando as águas de março chegam, fechando o verão, um antigo amor que antes soava arrogante agora se mostra vulnerável, um amante de sexo gostoso revela não ser mais do que isso, um familiar de quem a aceitação desejávamos, já não faz mais falta. E na verdade, a pior pessoa do mundo eram todos que estavam fora do nosso tempo.

 

VERDENS VERSTE MENNESKE

NORUEGA | 2021 | 128 min

Direção: Joachim Trier

Roteiro: Joachim Trier, Eskil Vogt

Elenco: Renate Reinsve, Anders Danielsen Lie, Herbert Nordrum, Hans Olav Brenner


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