• Matheus Marchetti

[Rebobinando] Mamãe é de Morte: A beleza vulgar de Psicose III



Sejam bem-vindos ao [Rebobinando], a coluna do Esqueletos no Armário que te levará de volta aos tempos de locadora para tirar a poeira do VHS (ou do DVD) e revisitar alguma obra, seja ela um clássico memorável ou uma pérola esquecida que precisa de um pouco mais de carinho. Chega junto, liga a tv e não se esqueça de rebobinar antes de devolver!

 

É quase surreal pensar que uma obra com o pedigree de Psicose possa ter gerado uma franquia tão extensa. Tá, talvez não tão extensa quanto alguns dos seus sucessores; mas três sequências, um remake, um spin-off e uma série de TV é um pacote considerável para algo canonizado como “intocável” no panteão cinematográfico. 22 anos depois do mundo ficar traumatizado com a ideia de tomar um banho, o lançamento de um Psicose II parecia uma tentativa barata de capitalizar na onda de franquias como Sexta-Feira 13, dando o mesmo tratamento para o que é tido por muitos como a mãe de todos os slashers (A Tortura do Medo sendo o pai). Para a surpresa de todos, o diretor Richard Franklin evita todos os tropos do assassino mascarado ameaçando um grupo de jovens tarados (exceto por uma breve cena), optando por um estudo de personagem antimanicomial surpreendentemente sensível, que humaniza a figura de Norman Bates de forma que ele não é mais o vilão e sim a vítima.

O roteiro brilhante de Tom Holland (o original, não a aranha) culmina numa chocante revelação, encerrando a sequência de forma tão conclusiva que um terceiro filme seria completamente redundante e descartável. E afinal, ter não apenas uma mas duas continuações decentes para Psicose já era pedir demais, não é? Mas assim como Psicose II parecia uma péssima ideia até ser provado o contrário, Psicose III se mostrou uma belíssima continuação desnecessária para outra belíssima continuação desnecessária (mesmo que ainda não seja reconhecido dessa forma).


Mãe e filho unidos novamente em Psicose II (1983).

Anthony Perkins teria dito que só voltaria para um terceiro filme se pudesse também dirigir, e sabendo que não teria muito à acrescentar narrativamente após as reviravoltas mirabolantes do segundo filme, ele aproveita o final cíclico deste para criar algo que é menos uma tentativa de expandir esse universo, e mais de voltar atrás para uma reinterpretação do original — agora sob a perspectiva do seu antagonista.

Originalmente planejado para ser rodado em preto & branco, e trazendo de volta Janet Leigh como o interesse romântico de Bates, o estúdio negou essas e outras das suas ideias mais interessantes (afinal, apesar de ser imensamente respeitado enquanto ator, aos olhos executivos ele era um mero iniciante enquanto diretor), mas é impressionante como sua integridade artística perseverou frente às imposições limitantes da produção. Já que não poderia filmar em PB, ele vai para o extremo oposto — uma explosão de cores vibrantes que deixariam Bava corado. No fim, essas restrições funcionaram mais para o bem do que pro mal, ajudando Perkins à se afastar mais de Hitchcock e criar um Psicose à sua moda.



Assim como Marion Crain, Maureen (Diana Scarwid) é uma loira de cabelos curtos que, fugindo pelo deserto após cometer um crime (nesse caso, ela é uma noviça suicida que acidentalmente causa a morte de outra freira), acaba tendo que passar a noite no sinistro Motel Bates.


Norman, novamente sob a influência do velho cadáver mumificado que ele chama de Mãe, fica fascinado pela sua nova hóspede. Ele espia através daquele mesmo buraco em seu escritório, assistindo conforme a bela jovem se despe e entra no chuveiro. Como de praxe, Mamãe surge instantes depois com uma faca de açougueiro pronta para aniquilar a garota… mas ao puxar a cortina do chuveiro, ela encontra sua vítima-em-potencial banhando em seu próprio sangue, um gilete ao seu lado, os pulsos cortados. À beira da morte, Maureen sorri, enxergando a Virgem Maria com uma cruz no lugar da velha com uma faca.


Norman salva Maureen de uma morte prematura, e ao longo dos próximos dias, essas duas almas perdidas vão se conectando e se apaixonando, atiçando a ira de Mamãe mais uma vez…


De Senhora Bates à Nossa Senhora.

Se Richard Franklin e Tom Holland tentaram manter sua continuação o mais elegante e respeitável possível, Anthony Perkins abraça todo o excesso oitentista que seu predecessor evitou (os sintetizadores rebeldes de Carter Burwell logo de cara negando o estilo clássico de Bernard Hermann e Jerry Goldsmith), se esbaldando nas indulgências de um slasher “sujo e degenerado”, mas com o requinte estético de quem aprendeu com os melhores. Afinal, Perkins podia ser um novato na direção, mas ainda era um veterano de nomes como Orson Welles, Claude Chabrol, Sidney Lumet, e Ken Russell — e a influência de cada um deles é palpável na sua execução. De fato, Psicose III talvez esteja mais para uma continuação espiritual do igualmente colorido Crimes de Paixão de Russell, feito apenas dois anos antes, no qual Perkins interpreta um padre psicótico bem abertamente inspirado em seu personagem mais famoso. Todo o espírito profano Russelliano, com aquela justaposição do sublime com o vulgar, assim como sua habilidade de penetrar e expor os cantos mais obscuros da psique, são replicados aqui.


Anthony Perkins recria a atmosfera suja e colorida de Crimes de Paixão (1984), onde co-estrela com Kathleen Turner

Mas Hitchcock não foi completamente descartado dessa terceira parte, até porque — sendo um eterno pioneiro em expandir as barreiras do que podia e não podia ser visto no cinema popular — o inglês safado seria a primeira pessoa a se divertir com os detalhes mais sórdidos do horror oitentista, e seu humor mórbido combinam mais com a tragicomédia do terceiro do que com o melodrama do segundo. Perkins invoca fantasmas do seu mentor desde a espetacular abertura inspirada em Um Corpo Que Cai, mas menos em forma de reverência (como Richard Franklin) e mais num diálogo direto entre artistas. Perkins se interessa pela iconografia Hitchcockiana, principalmente em como certas imagens do primeiro permanecem no inconsciente coletivo (mesmo para quem nem assistiu ao filme), e busca brincar com esses elementos, recriando situações específicas mas sempre subvertendo nossas expectativas. A cena do chuveiro, por exemplo, reaparece no começo como uma pegadinha apenas para ele depois recriar a decupagem icônica de Saul Bass dentro de uma cabine telefônica (até a morte de Arbogast nas escadas é refeita, de forma mais trágica). Mais do que uma continuação, uma desconstrução do original e seu legado cultural similar ao que Gus Van Sant tentou com o remake, mas muito mais eficiente na forma que ele copia e colore os enquadramentos do mestre para uma ressignificação.


Perkins pinta as sombras de Hitchcock em tons esmeralda, ala Vertigo.


Um homem bissexual, Perkins abraça o elemento queer inerente do material de forma que nem Van Sant conseguiu. Há uma abordagem mais direta sobre sexualidade e gênero que antes não havia sido explorada, não apenas nas implicações óbvias de Norman enquanto personagem, mas também como as protagonistas femininas assumem uma característica andrógina, sexualmente ambígua. A câmera paira pelo corpo suado de Jeff Fahey (interpretando o assistente trambiqueiro do motel, Duane) com o mesmo olhar objetificante de Norman espiando pelo buraco na parede o jeito que ele exala masculinidade e erotismo como um contraponto direto ao nosso frágil anti-herói, essa própria masculinidade assumindo um caráter cruel que o transforma em possivelmente o verdadeiro vilão da história (mesmo que não seja responsável por nenhuma das mortes). E claro, não existe nada mais cinematograficamente queer do que culpa católica e desejos “perversos” reprimidos (algo compartilhado tanto por Norman como por Maureen), e ambos estão visualmente presentes aqui em abundância.


Jeff Fahey, sexual e grotesco.

A relação de Norman com a Mãe também se apresenta mais explicitamente. Suas conversas, antes sempre ocorrendo fora de quadro, agora tomam um certo protagonismo ambos estão quase sempre juntos o tempo todo. Perkins explora a linha tênue entre a fantasia do personagem e a realidade de forma sutil mas extremamente eficaz (e até assustadora!). O cadáver está sempre estático dentro do plano, seu rosto envolto em sombras de forma que não vemos a boca mexendo enquanto fala, mas através da montagem, ela parece se movimentar pelo quarto e mover objetos dando a sugestão de que essa múmia realmente esteja viva de alguma forma, ao menos aos olhos do filho. Numa belíssima transição de cena, Norman abre uma porta no quarto de hospital onde Maureen está internada, e sem cortes acaba de volta no quarto da mãe, em sua casa. Ela está sempre lá, sempre com ele, não importa o quão longe ele esteja, ou o quanto ele tente fugir.


Essa exploração mais complexa da relação edípica entre os dois toma um caráter mais profundo aqui, possivelmente pelo paralelo com a relação abusiva que Anthony Perkins tinha com sua própria mãe, após a morte do pai. Esse não é apenas um personagem que o assombrou a vida toda por conta do imaginário popular, mas sim pela proximidade com aspectos da sua própria realidade. A necessidade de exorcizar o fantasma materno não opera apenas num nível textual, mas de modo extremamente pessoal acima de tudo e é justamente essa familiaridade com o assunto que torna essa jornada tão fascinante, e tão autêntica apesar da “teatralidade” das suas escolhas estéticas.


Fragmentos de uma casa assombrada.


(Atenção: Spoilers abaixo para Psicose II, III, e Santa Sangre) No final de Psicose II, a assassina é revelada como uma aparentemente dócil senhora Mrs. Spool. Ela diz ser a verdadeira mãe de Norman, sendo a irmã da Sra. Bates, que por sua vez criou o sobrinho como filho. Após passar os 90 minutos anteriores sendo levado à loucura por todas as figuras maternas presentes, Norman finalmente surta, mata Spool e a coloca para se sentar na janela como de costume. Não existe mais uma distinção entre sua mãe de sangue e sua mãe adotiva, “Mamãe” se tornando não mais um vestígio de uma pessoa real, mas enfatizada como um conceito criado em sua cabeça, um fantasma sem rosto que surge do fundo do seu subconsciente (esse conceito se potencializa em Psicose IV, onde a Sra. Bates é interpretada por Olivia Hussey como uma mulher jovem e sedutora, não a velha frígida que assumimos até então).


O roteirista Charles Edward Pogue complica ainda mais a situação, revelando que Spool não é e nunca foi sua mãe verdadeira, mas sim uma tia louca que tentou roubar o pequeno Norman para si quando ele nasceu, convencida de que era seu filho (já que era apaixonada pelo pai da criança). Desfazer o twist do segundo filme pode parecer uma trapaça narrativa, e é um tanto decepcionante para quem estiver procurando uma reviravolta chocante tal qual os dois anteriores, mas essa mudança funciona mais numa chave metalinguística do que propriamente “narrativa”. Perkins é extremamente consciente de ser o terceiro capítulo numa franquia que nem deveria existir, e que seu progenitor já vinha sendo refeito de forma quase exaustiva desde o lançamento. Seu interesse maior, portanto, é justamente analisar a necessidade de ficar ressuscitando o “filhinho de mamãe” e como esse legado estigmatizou sua carreira de forma quase irreparável. A loucura cíclica de Norman acontece porque os outros e especificamente, a plateia esperam que ele (Bates/Perkins) seja sempre O Louco. O público que exige a existência de um Psicose III exige que ele tenha uma nova Mãe, mesmo que essa seja falsa, para que ele volte a matar de novo e de novo, e "cumpra o prometido".


Num clímax catártico, ao perceber definitivamente que foi enganado e manipulado novamente, ele se desfaz do vestido e a peruca, usa sua faca para cortar o cadáver de Spool em pedaços. Ao matar definitivamente Mamãe, Norman e o próprio Perkins se libertam dessa maldição. Ele vai preso, é claro, mas agora com um sorriso no rosto. Perkins/Bates tomou as rédeas da narrativa para si, e está agora, em suas próprias palavras, livre.



Essa exploração piedosa de Norman enquanto uma alma torturada batalhando com seus traumas e demônios internos faz desse um precursor direto de Santa Sangre, a mais bela reinterpretação do clássico de Robert Bloch. Neste, um jovem artista de circo se torna os braços de sua mãe morta, já que os dela foram decepados pelo marido, utilizando o filho essencialmente como marionete para se vingar de outras mulheres. Fenix (o Norman mexicano circense) retém sua personalidade mesmo quando a "mãe" toma conta, mas é incapaz de impedi-la pois seus braços já não são mais "seus" e sim dela. Vemos tudo inteiramente pela perspectiva dele, embarcando numa intensa jornada visual pelo seu inconsciente um caleidoscópio onde religião e tesão, arte e realidade, vida e morte se justapõe e camuflam entre si... assim como em Psicose III.


Os minutos finais de ambos os projetos são quase idênticos, mas se Fenix acaba realmente exorcizado do seu lado “Mãe”, elevando suas mãos aos céus em liberdade ("My hands! My hands!"), Perkins é menos otimista: a mão cadavérica de Mrs. Spool reaparece no último segundo, ainda amarrada à sua conforme ele é levado pela polícia. Ele sorri para a câmera como em 1960, sabendo muito bem que, apesar dos pesares, um quarto filme é inevitável, e que a sombra dos Bates ainda vão assombrar seu legado por muito, muito tempo.



0 comentário