• Tay Campos

Carmilla: a primeira vampira


Ah, o século XIX.... Nessa época o vampiro já havia cravado sua própria estaca no imaginário popular através de lendas e superstições disseminadas a partir do folclore de culturas diferentes — mais especificamente da Europa Centro-Oriental — e, lentamente, estava se elevando à tradição literária.


Muito antes de Bram Stoker, outros autores já estavam enchendo ainda mais os pesadelos europeus com imagens de dentes afiados, sangue e estacas de madeira.


O grande sucesso de O Vampiro (1819) de John Polidori — que introduziu a figura do vampiro na literatura de prosa — deu sequência à uma legião de obras vampirescas, sendo o primeiro best-seller vampírico responsável pela figura do vampiro aristocrata e sedutor, oposto ao antigo vampiro repugnante que trazia em suas feições o peso e a aparência de um morto-vivo (revenant, na tradição alemã).


No meio dessa legião, e próximo ao nascimento da figura da femme fatale, surge Carmilla (1872) de Sheridan Le Fanu, um marco na literatura vampírica que estabeleceu a ambiguidade entre sedução e violência como característica para as vampiras futuras. É cogitado que o próprio Stoker tenha lido Carmilla e que este tenha servido de inspiração para suas obras, principalmente pela menção a uma bela Condessa da Estíria em O Convidado de Drácula (conto publicado em 1914, após a morte de Bram Stoker em 1912).

Carmilla é um absoluto clássico. Gótico e queer, a novela de 1872 nos apresenta à vampira muito amada, uma das primeiras da literatura e, mais que isso, a primeira vampira lésbica do universo literário. Sua ‘’degeneração’’ e sexualidade exacerbada eram vistas como transgressões na época, características essas frequentemente associadas ao vampirismo desde a tradição folclórica. Devido a sua natureza deviante e sensual, Carmilla é considerada uma femme fatale por alguns teóricos.


O livro se passa em um castelo isolado na Estíria, onde a chegada de uma hóspede inesperada traz à Laura esperanças de uma nova amizade; e aos arredores, promessas de terrores noturnos e rápidos padeceres.


Não há nenhuma dúvida sobre o quão absurdamente linda Carmilla é, além de gentil e educada, o que tranquiliza sua contraparte Laura após um primeiro encontro, em que uma reconhece a outra de um distante sonho de infância.


"— Não sei qual de nós duas deveria ter mais medo da outra — disse ela, sorrindo de novo. — Se você não fosse tão bonita, creio que eu sentiria um profundo receio, mas, sendo como é, e sendo nós duas tão jovens, é como se tivéssemos nos conhecido doze anos atrás e eu já tivesse o direito de tratá-la com familiaridade. De qualquer modo, parece que estamos destinadas, desde pequenas, a sermos amigas. Fico imaginando se sente por mim a mesma estranha atração que sinto por você. Nunca tive uma amiga; será que terei uma agora?"


(Tradução: Martha Argel e Humberto Moura Neto)


Laura constantemente descreve em sua narrativa as simultâneas atração e repulsa que sente por Carmilla, o que ao mesmo tempo faz muito sentido para mim como um sentimento natural a pessoas que estão no início de um processo de descobrimento queer e carregam consigo culpas, dúvidas e preconceitos. Também faz sentido como a atração pura e simples pelo sexo batalhando com um possível sentimento de ‘’tem algo errado aí’’, ou uma repulsa pela morte pressentida, inerente à Carmilla.


A literatura gótica já costuma trazer consigo uma intensidade e enxurrada de crises existenciais, culpa religiosa e amores escaldantes, agora, literatura gótica não só queer como lésbica, para mim, atinge outro nível de emoções e desesperos, o que eu amo.


Atrás apenas de Drácula no que diz respeito ao número de adaptações de obra vampiresca, Carmilla já foi adaptado diversas vezes para diferentes mídias como: cinema, teatro, rádio, animes etc.


Uma das adaptações que com certeza se consolidou junto a uma comunidade de fãs, pelo seu incrível trabalho com recursos limitados e ótima representação e diversidade de personagens, é a websérie Carmilla (2014), estrelada pelas maravilhosas Elise Bauman e Natasha Negovanlis, que interpretam respectivamente Laura e Carmilla.



Nessa adaptação o casal se encontra nos dias atuais, e assim como no livro, uma amiga de Laura sai de cena. No caso da websérie, é sua companheira de quarto na universidade quem desaparece sob circunstâncias misteriosas, sendo substituída por Carmilla aquela estória de fanfic a qual ninguém resiste, com a diferença de que nesse caso tem duas camas no quarto. A maior parte da websérie se passa nesse quarto que Laura e Carmilla dividem na universidade e é gravada como um registro jornalístico que a primeira faz tentando desvendar os mistérios que rondam o desaparecimento de sua antiga colega de quarto — e encontrando respostas para perguntas que ninguém nem queria fazer.


Ver essa história adaptada para a contemporaneidade como foi feito na websérie é incrível, e divertidíssimo porque ao mesmo tempo em que coisas absurdamente fantásticas acontecem a todo momento (bibliotecas assassinas, portais para outras dimensões e buracos gigantes se abrindo para o centro da Terra, por exemplo), todos os personagens são muitíssimos reais e provavelmente identificáveis nos nossos próprios amigos. Uma Laura extremamente nerd constantemente bebendo um cafézinho na sua caneca em formato de TARDIS namorando uma Carmilla mega estilosa, alternativa e existencialista é tudo que eu nem sabia que precisava até encontrar.


A verdade é que seja em um castelo na Estíria ou em uma universidade no Canadá, Carmilla é e sempre será um ícone feminino, vampírico e queer, e por mais morta que esteja, sempre estará viva no meu coração.

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