• Yuri Cesar Lima Correa

[Crítica] Ghostbusters: Mais Além e mais do mesmo



Para quem não lembra, há alguns anos foi lançado um remake de Ghostbusters muito fiel ao espírito dos dois filmes originais (1984 e 1989). Na verdade, só houve uma pequena mudança: ao invés de homens, o filme de 2016 tem protagonistas mulheres. E aparentemente, isso fez cair o pinto de cada nerd fã dos Caça-Fantasmas pelo mundo, pois organizou-se um boicote generalizado à obra. A gota d’água, acredito, foi nem a troca de sexo do quarteto principal, mas o fato de que colocaram um homem másculo e bonitão pra ocupar o ingrato estereótipo da “loira burra”, reservado a tantas atrizes ao longo de décadas e décadas de audiovisual — e pior, não colocaram qualquer homem, o escolhido foi Chris Hemsworth, o Thor em pessoa. Agora imagine você ser o pênis amedrontado dentro de uma cueca samba-canção do Star Wars e, de repente, aparece na tela Melissa McCarthy, Leslie Jones, Kristen Wiig (hilárias) e Kate McKinnon (insana, merecia ter ido ao Oscar pelo papel, é sério) nos trajes antes usados por Bill Murray, Dan Aykroyd, Ernie Hudson e Harold Ramis. Se você fosse esse pênis, aposto que você também teria ejetado da virilha suada pelo pavor da representatividade e pulado em direção ao abismo. Não julguemos, portanto, os pintos caídos durante a Grande Queda Peniana de 2016. Pelo contrário, vamos honrá-los falando sobre o filme que foi feito em sua homenagem: Ghostbusters: Mais Além (2021).


Obviamente ignorando todos os eventos do filme de 2016, Mais Além concentra-se na nova geração da família Spengler — caso não lembre, este é o sobrenome de Egon, o Caça-Fantasma original interpretado pelo saudoso Harold Ramis, que morreu em 2014. Igualmente falecido no filme, Egon deixa de herança para sua filha Callie (Carrie Coon) e para os dois netos, Phoebe (Mckenna Grace) e Trevor (Finn Wolfhard), uma casa gótica caindo aos pedaços e localizada no meio do nada. Acontece que a herança vem em boa hora, pois Callie e seus filhos são despejados de seu apartamento na cidade grande e precisam de um novo lugar para morar. O que não esperavam, porém, é que o novo lar viesse mobiliado com uma série de mistérios paranormais.



Pois é, a premissa de Mais Além nem faz esforço pra disfarçar que se trata de um copia e cola de Stranger Things e coloca lá as crianças nerds investigando os mistérios de outro mundo sob a tutela de uma mãe solteira e meio estranha. A presença de Finn Wolfhard só confirma a “inspiração”. Mas verdade seja dita: ainda que avesso a qualquer tipo de originalidade, esse novo filme dos Ghostbusters pelo menos consegue sustentar o climinha anos 1980 por boa parte da duração — apostando no velho e cada vez mais azedo feijão com arroz dessa estética. Tem luz neon? Tem. Lanchonete onde os adolescentes se reúnem? Claro! Uma criança com dons de engenheiro mecânico? Óbvio. Com tantas obras vindo nesse encalço, me pergunto o que os filmes dos anos 2050 vão referenciar… De qualquer modo, funciona. Nem tanto pelos elementos oitentistas, digo, mas porque o filme transborda certa paixão pela atmosfera em si. Jason Reitman é quem assume a direção, segundo ele próprio conta, com o pai no cangote — Ivan Reitman, seu pai, é diretor das duas aventuras originais dos Caça-Fantasmas. Em outras palavras, não só ignoraram o filme de 2016, como devolveram a capitania hereditária à família. Ok. Jason é quem mais sofre nessa história, pois é obrigado a seguir por caminhos óbvios e genéricos, seguindo a cartilha cansada de “referências à década de 1980”. Pouco ou nada se vê do cineasta talentoso e cínico que comandou os ótimos Obrigado por Fumar (2005), Juno (2007), Amor Sem Escalas (2009), Jovens Adultos (2011), Tully (2018) e O Favorito (2018).


Tá, talvez dê pra sentir um dedinho seu nos diálogos ácidos entre Carrie Coon e Paul Rudd, ambos vivendo adultos infelizes e adeptos de um hilário humor autodepreciativo típico dos personagens escritos por Jason. Aliás, Coon e Rudd configuram o sopro de vida que esse filme de fantasmas precisava, uma vez que nem Finn Wolfhard e nem Mckenna Grace servem ao núcleo jovem da trama nem uma tacinha de carisma com suas caras amarradas — a exceção fica por conta do adorável Podcast, vivido por Logan Kim (só que até ele parece um eco de personagens que já vimos antes, pois em 2021 tivemos jovens podcasters nas séries Only Murders in the Building e Chucky).



Agora, não é se desprezar que o roteiro constrói conflitos acessíveis e mistérios gostosinhos que se desenrolam no passo certo até meados do filme. É fácil, por exemplo, se identificar com o drama dos Spengler e a partir disso envolver-se com as descobertas que Phoebe faz na casa e no terreno herdados do avô. Callie e seu humor ácido também simplificam a tarefa de gostar e torcer pela matriarca. E Coon é tão talentosa que, mesmo com pouco espaço, rouba a cena das crianças sempre que aparece — ela é o momento quando faz uma dancinha mais pro fim da coisa toda. Não fossem as exigências comerciais do estúdio, Carrie Coon poderia tranquilamente ter protagonizado o longa.


Pra lá do meio pro fim, entretanto, o filme se perde. O pouco de originalidade que tinha é convertida em pura nostalgia barata. E pra comentar sobre isso, preciso trazer alguns spoilers. Então se você se importa com spoilers de Ghostbusters: Mais Além (sério, você se importa?), não passe daqui.



Ok, para a surpresa de zero pessoas que sabem somar 2+2, o quarteto original de Caça-Fantasmas aparece pra salvar o dia (ou melhor, a noite) durante o clímax. Tudo muito bonito, tudo muito bacana, não fosse o fato de que essa inserção é mais artificial do que o Harold Ramis de CGI que resolvem meter ali no meio. Ah sim, caso não tenham reparado, eu falei que aparece o “quarteto original”, e isso inclui o falecido Harold Ramis, ressuscitado por computação gráfica num boneco muito convincente. Mas esse não é o ponto, o Peter Cushing digital de Star Wars: Rogue One (2016) também ficou perfeito; a coisa é que ninguém mais duvida do poderio tecnológico de uma produção hollywoodiana com dinheiro. O Harold Ramis digital de Mais Além parece de verdade e não cai no famoso uncanny valley, aquele sentimento de desconforto pois percebemos que há algo de errado na imagem que vemos. Ele cai noutro desconforto, no ético. Acredito que não é mais questão de “se há como” trazer um ator de volta dos mortos, mas sim “se deveríamos” trazer um ator de volta dos mortos. Curioso que um filme que fala exatamente sobre o assunto não percebe a contradição desse desfecho, mas ok. As toneladas de referências aquecem o coração do fã, e ver Bill Murray, Dan Aykroyd e Ernie Hudson outra vez em seus trajes é fofinho, mesmo. Mas a que custo? Não me entenda mal, fico feliz pelos pênis que foram colados de volta na virilha dos nerds, mas sejamos honestos: gostando ou não do resultado final, o filme de 2016 é um Caça-Fantasmas ousado e cheio de personalidade, enquanto Ghostbusters: Mais Além, por divertidinho que seja, é um pornô de nostalgia que merece mais o título de Caça-Níqueis.

GHOSTBUSTERS: AFTERLIFE

EUA | 2021 | 124 min

Direção: Jason Reitman

Roteiro: Jason Reitman e Gil Kenan

Elenco: Carrie Coon, Paul Rudd, Finn Wolfhard, Mckenna Grace, Logan Kim, Bill Murray, Dan Aykroyd e Ernie Hudson


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