• Gustavo Fiaux

[Crítica] V/H/S/94 resgata dias de glória da franquia



Para o bem ou para o mal, estamos imersos na era da nostalgia. Seja nos serviços de streaming ou no cinema, é impossível encontrar alguma produção que tenha um quê de original e não apele para preceitos básicos: resgate de franquias antigas ou ambientação em alguma época passada pré-anos 2000.


V/H/S/94 faz as duas coisas. Por mais que a franquia não seja tão antiga assim o último e terrível capítulo V/H/S: Viral saiu em 2014 , os segmentos são ambientados nos longínquos anos 90. Ainda que o filme não se encha de referências como piscadela para quem tem saudade dessa época, a justificativa casa bem com o meio técnico.


Mais contido que seus anteriores, V/H/S/94 realmente faz jus ao seu nome e à franquia: todos os segmentos (com exceção de um) são filmados em qualidade de fita cassete, sem grandes firulas visuais para embelezar as imagens. Isso ajuda a criar um clima e aumentar a tensão e é curioso que o único que foge disso quebra completamente a logística da antologia.


Mas vamos por partes...



O filme é ligado por uma narrativa condutora, chamado “Holy Hell”, dirigido por Jennifer Reeder e sinceramente, talvez seja o segmento mais fraco no conjunto da obra, mesmo sendo o elo entre os demais. Embora o found footage se encaixe aqui de uma maneira interessante (a história é contada do ponto de vista das bodycam dos policiais), a progressão promete muito mas entrega pouco. O final, que encerra o filme, é um assovio fraco comparado aos momentos mais explosivos.


Storm Drain”, o segmento de abertura dirigido por Chloe Okuno, se sobressai como um dos melhores e que melhor captura o espírito dos anos 90. Uma repórter investiga uma lenda urbana controversa nos esgotos. Cheio de tensão e momentos deliciosamente absurdos, é um dos que melhor encara a premissa de V/H/S e oferece ao público uma narrativa igualmente grotesca e fascinante.


Por outro lado, “The Empty Wake”, de Simon Barrett, sabe que menos é mais. Meu favorito do longa, é um segmento tenso e angustiante que parte de uma premissa simples: E se uma mulher ficasse presa no funeral de um desconhecido, sem nenhum visitante, enquanto a noite progride e eventos sinistros começam a acontecer? Claro, é a premissa de qualquer pegadinha do Sílvio Santos, mas funciona pelo foco em poucas câmeras e um senso crescente de claustrofobia.


Timo Tjahjanto retorna à franquia após o excelente "Safe Haven" em V/H/S/2 para entregar "The Subject", onde as coisas começam a degringolar. Embora tenha um quê de gore e body horror que sempre é bem-vindo, o capítulo destoa dos demais por sua filmagem digital e por sua extensa duração. Quando parece que vai acabar, ele volta para nos entregar mais quinze minutos - tudo embalado em um CGI que fica ainda pior pela resolução e nitidez da imagem.


O segmento final, “Terror” de Ryan Prows, não é de se jogar fora completamente. Ele traz um discurso interessante sobre milícias e combina isso com mitologia vampiresca que parece ter saído de Blade II. Porém, é um mais do mesmo em seus sustos e perde a força em sua narrativa quase documental.



Tudo isso faz com que V/H/S/94 seja, no mínimo, irregular no que diz respeito à qualidade e à coesão de seus curtas. Para piorar, é o tipo de filme que entrega o que há de melhor logo no começo, o que faz com que os últimos se destaquem em todas as suas falhas e defeitos. Mas se vamos olhar com o copo meio cheio, definitivamente é melhor que Viral.


No fim das contas, o filme oferece tudo que se espera da franquia V/H/S: terror found footage em baixo orçamento e que valoriza o talento de criadores que amam fervorosamente o gênero não é à toa que nomes como Adam Wingard e David Bruckner tenham saído daqui. É uma adição à altura dos dois primeiros, que se compromete (em maior parte) com uma estética e com uma coesão temática. Funciona para quem é fã e entretém quem só caiu de paraquedas aqui. Mas se você é o tipo de pessoa que não gosta de found footage ou de antologias, talvez essa seja a fita errada.


V/H/S/94

EUA | 2021 | 103 minutos

Direção: Jennifer Reeder, Chloe Okuno, Simon Barrett, Timo Tjahjanto e Ryan Prows

Roteiro: David Bruckner

Elenco: Anna Hopkins, Kyal Legend, Budi Ross, Christian Lloyd, Dru Viergever


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