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[Entrevista] Medusa: conheça algumas referências do clássico instantâneo do horror brasileiro

Entre a violência das noites na metrópole e o neon rosa que engole os fiéis em um culto ao som de The House of Rising Sun, uma jovem é parte de uma gangue de meninas evangelizadoras obcecadas por uma misteriosa figura desfigurada do passado. Essa é a premissa básica de Medusa, filme estrela pela excelente Mari Oliveira, que rodou o mundo desde sua estreia em Cannes e agora faz sua oficial abertura na terra local. Para entender algumas das referências por trás desse clássico instantâneo do nosso cinema brasileiro de horror, conversamos com a diretora Anita Rocha da Silveira - tanto sobre Medusa, quanto seu primeiro longa, Mate-me Por Favor (2015) - e Bruna G, uma de suas "preciosas".



Esqueletos: Seus filmes lidam bastante com a sexualidade feminina e como a descoberta dela pode ser extasiante e ao mesmo tempo assustadora para quem passa - principalmente numa idade jovem e em contato com o conservadorismo. Eu queria saber, como mulheres, como vocês se identificam com essas temáticas e onde o cinema de gênero entra no meio disso?

Anita Rocha da Silveira: Pensando nos dois filmes, acho que o Mate-me Por Favor partiu muito de certos medos meus crescendo. O medo de andar na rua sozinha, de ser estuprada, de andar no ônibus, de estar tarde da noite sozinha, ao mesmo tempo que você tem um certo prazer nessa independência. Acho que tem uma coisa muito louca de crescer enquanto mulher que, às vezes, você quer muito essa independência e ao mesmo tempo você tem medo [dela]. E a personagem de Mate-me está um pouco confusa com isso tudo, tem esse assassino, ela quer estar próxima das mortes ao mesmo tempo que ela tem medo. O filme partiu muito dessa vontade de falar da pulsão de morte adolescente, que o desejo e a morte caminham de mãos dadas, e também sobre pulsão suicida, e veio de experiências minhas e de amigas minhas, mas o Medusa vai pra algo mais amplo, pois me veio a vontade de falar do Brasil contemporâneo e do controle exercido no corpo de mulheres. Fui trabalhar personagens muito mais distantes de mim, que cresceram nesse ambiente ultra conservador e a personagem da Clarissa (Bruna G) é justamente um contraponto, é a que chega nesse grupo.


Bruna G: Acho muito interessante isso porque a Clarissa vêm de um ambiente que parece que ela tem essa liberdade para se descobrir e quando ela chega nessa nova cidade ela tem esse choque de "Não! Você não vai fazer descoberta sobre sua sexualidade, aqui você vai ser uma menina conservadora, vai ser preciosa, seguir na igreja, vamos alisar esse cabelo, se juntar ao coral da igreja, essa sua liberdade não está certa".


Esqueletos: Gostei que você citou o cabelo, que acho que é uma das sacadas mais inteligentes do filme justamente por não ser algo verbalizado. À medida que a sexualidade [da Clarissa] vai aflorando, ele vai ficando mais natural e como esse ato de alisar o cabelo está intrinsecamente ligado à isso.

Bruna G: Sim, é um detalhe muito sutil que quase passa despercebido, mas que tem uma potência muito forte.


Esqueletos: Bruna, eu soube que você é fã e escreve histórias de terror!

Bruna G: Eu sou apaixonada por terror desde criança. Tive minha construção com terror, comecei com slashers e O Chamado, que até hoje sou traumatizada, até chegar agora e me descobrir como uma eterna apaixonada de terror psicológico.


Esqueletos: Você pretende colocar uma história sua aí agora que já faz parte de uma?

Bruna G: Pretendo, mas é um caminho que temos que ir cursando, por enquanto tenho vínculo bastante no lado atriz, não deixo o lado roteirista de lado, mas é um caminho que pretendo ir construindo e traçando. Tenho muita vontade de lançar um terror psicológico ou uma série.


Esqueletos: Sinto que tem uma pegada queer muito forte tanto em Mate-me Por Favor, quanto em Medusa, não só por ter momentos explicitamente sáficos, mas pela forma como o desejo parece ao mesmo tempo sedutor, grotesco e libertador. Queria que você falasse um pouquinho sobre como esses temas. Você enxerga seu cinema como cinema queer? E como isso se encaixa dentro de suas narrativas?

Anita: Com certeza, acho que queer é justamente a palavra certa. A Bia no Mate-me é uma menina que não tem preconceito algum, ela está ali só vivendo, ela é puro corpo, ela tá com desejo vai lá e beija. É muito uma adolescente eu queria ter sido, muito destemida, que faz tudo o que tem vontade, ela quer transar, beijar, como se ela fosse guiada pelos desejos dela acima de tudo, sem pensar no que a sociedade está ditando pra ela. Não sei se a defino como pansexual ou bissexual, mas é uma menina que está explorando o corpo de uma maneira muito livre. E no Medusa, isso está presente, acho que principalmente a personagem da Lara [Tremouroux], mas muito na dinâmica dos garotos que foi trabalhada em cima de um certo homoerotismo entre eles. As garotas são figurantes na vida deles, eles se bastam, eles tem um prazer um com outro que eu tentei passar de certo modo na cena. Mas isso também de um lado de falar de certos grupos incel, red pill, mas também tem uma pulsão sexual muito forte entre eles, nas coreografias e como eles se olham. E o fascínio de todas por Melissa [personagem de Bruna Linzmeyer] também tem uma carga sexual e de desejo, então acho que os personagens do meu filme tem uma coisa de desejar muito forte, de uma sexualidade latente muito forte.


Esqueletos: Gosto muito de como você trabalha com essa ideia de performance, como todas essas relações estão envoltas em uma forma de performance, como a ideia de performar a masculinidade ao nível de ser algo caricato, que é impossível não notar que tem um homoerotismo forte nisso. Nós costumamos brincar entre a gente do Esqueletos que toda demonstração de masculinidade extrema dá a volta e fica MUITO gay. E gosto que nos seus filmes, principalmente no Medusa, isso é puxado para o lado da religiosidade como uma forma de performance.

Anita: Com certeza, acho que o Pastor também tem um lado, que exploramos muito com o Thiago [Fragoso], que ele tá quase flertando com as pessoas. Tem um lado sedutor muito forte no modo que ele fala, ele está performando o tempo inteiro, ele é um showman e a igreja foi construída também para isso. Pensando em algo que fosse muito atrativo e bonito, é um espetáculo e o pastor está ali seduzindo a audiência. Vimos muitos vídeos de pastores e tentamos encontrar junto com o Thiago qual seria o tom do Pastor Guilherme.


Esqueletos: Bruna, como você enxerga o Medusa, não como a Bruna que participou do filme, mas como uma fã de terror?

Bruna G: Eu vejo Medusa primeiro como algo surpreendente e revolucionário. Eu gosto muito de terror, mas também sou muito fã de Parasita, que é um filme de terror que mistura vários gêneros e Medusa faz isso. Então vejo muito de um lugar de orgulho, de "caraca, é do Brasil, a gente fez uma coisa que é desse naipe, que mistura gêneros". E vejo também de um lugar de fascinação, desde o momento que entrei no set e vi as meninas caracterizadas de Preciosas. Aquilo ali é fascinante de qualquer aspecto pra mim, eu saí do meu lugar de atriz quando eu vi isso pela primeira vez. Fico até com dificuldade de escolher uma Preciosa favorita [risos].


As preciosas de Medusa.


Esqueletos: Anita, quando vi o filme pela primeira vez, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Fã de terror, a gente fica caçando coisa em filme e comecei a perceber várias cenas que poderiam - ou não - ser referências ao Suspiria do Dario Argento. Houve essa influência?

Anita: Sim! Suspiria é uma grande inspiração, não só de temática mas também visual. Gosto muito dessa coisa do Suspiria ser esse horror super bem trabalhado esteticamente, mas que é desapegado da realidade, que não se leva tanto a sério, que é brincalhão com tudo. Tem uma coisa camp, cafona que eu gosto muito, do exagero, das performances over. Eu tenho um horror ao Suspiria recente [do Luca Guadagnino] porque pra mim se levou a sério demais.


Esqueletos: Aquela cena de "todas as meninas com nomes de começam com M são meretrizes".

Anita: Essa é realmente uma homenagem muito clara à um diálogo similar que tem no Suspiria, que é o "garotas com nomes que começam com S tem nomes de cobras". Essa foi pra deixar bem clara a referência.


Esqueletos: Mas além disso, senti muito a influência na construção das cenas, nas texturas, a iluminação do filme, como ela vai criando essas camadas dentro da tela. E é aquela coisa, você vê um colorido já pensa: "Suspiria do Argento".

Anita: Esteticamente, realmente é mais Suspiria mas tem outros. Outro filme de horror contemporâneo e até também queer que foi uma referência foi o Faca no Coração, do Yann Gonzalez. É um filme que estreou na Competição de Cannes, mas depois se falou muito pouco. Assim que eu vi já corri para mostrar pro fotógrafo João [Atala].


Esqueletos: Noto como dentro do seu cinema tem muitas referências, uma mistura de cinema europeu com algo próximo do giallo, com muitas coisas do imaginário popular brasileiro, como o caso da Daniella Perez, o funk, esse evangelismo performático que é algo muito nosso, diferente do exterior. Queria saber como balancear essas referências e achar o tom pra soar natural?

Anita: Não sei, eu sempre morei no Brasil, nasci aqui e nunca morei fora. Sempre fui noveleira - Vamp também é uma grande referência de vida [risos]. Mas acho que as temáticas partem da minha experiência de estar no Brasil. O Mate-me tem muito do meu fascínio pela Barra da Tijuca presente. O Medusa veio pra falar da questão do avanço conservador no Brasil. Quando eu escrevo, não penso muito nisso de dosar, penso mais em dosar gêneros, de ter o espaço do humor, do horror, das músicas. Mas sobre essa brasilidade, acho que é como eu cresci, sempre vi muitas produções nacionais e até hoje sou noveleira pra caramba. Lembro que adolescente eu parei de ver novela e minha mãe falou "Por que você tá fazendo isso? Agora não vai ter assunto com sua avó!". Acho que tem muito isso da família brasileira tem que ver para que todas as gerações possam se dialogar.


Mas sou muito fã de David Lynch, acho que na estética não fica tão claro, mas eu tento fazer o que seria no Brasil. Mulholland Drive é um dos meus filmes favoritos e é um filme que fala sobre a decadência do sonho americano, a decadência da imagem perfeita de Hollywood como algo podre por dentro. Eu sempre tento fazer alguns paralelos com a sociedade brasileira quando estou escrevendo, "se fosse o Lynch no Brasil em 2019, como seria?".


Esqueletos: Algo que gosto bastante no Medusa é um filme muito textual mas ao mesmo tempo tem uma confiança forte nas imagéticas que são criadas. As temáticas do filme estão muito claras, porém ele não é 100% literal, que é um problema que particularmente sinto muito no cinema de gênero brasileiro quando vai fazer uma crítica social. Como se acha o balanço entre o poder das imagens e o que é verbalizado?

Anita: Acho que no Medusa tem a questão dos mitos gregos que vieram muito forte, mas é algo que é da minha cabeça, não precisa explicar tudo. Por isso que eu gosto muito do horror e do gênero, esse desapego da realidade. Tanto que no Medusa eu vim com uma proposta estética muito mais ousada do que no Mate-me, usar luz pesada no set, trazer a cor junto com o diretor de fotografia João Atala e a diretora de arte Dina Salem Levy. De realmente te transportar para um universo paralelo e ali pode tudo, quando jogo uma luz verde e uma vermelha abre liberdade para essas estranhezas acontecerem. Nos meus projetos autorais, eu não quero mostrar a vida como ela é, eu gosto de construir uma estética que não seja realista. As atuações às vezes levemente exageradas mas todas de um modo que combinem e que estejam coesas. E no meu processo de escrita, eu parto muito de imagens, como por exemplo, o plano da Bruna [Linzmeyer] levantando com a face deformada é uma imagem que eu tinha desde o início do projeto. Depois as pessoas com as cabeças de touro, e penso como que eu encaixo isso no roteiro?


Esqueletos: Bruna, como que foi o seu processo de construção da sua personagem a partir desse guia da Anita de partir de um tom de exagero e unificar as performances?

Bruna G: Foi desafiador porque esse foi meu primeiro trabalho no audiovisual, então já cheguei meio que sem saber como funcionaria o processo. Mas tivemos uma preparadora de elenco, a Clarisse Zarvos, que junto com a Anita foi me guiando pra saber como iríamos construir essa adolescente, pois eu tinha uma idade diferente da personagem. Então como que era esse corpo dessa pessoa, como ela senta, como ela fala, até ajustamos a voz dela num tom diferente do meu, para trazer essa Clarissa que conhecemos no filme. Mas foi difícil, mas foi maravilhoso, me senti sempre muito amparada.


Anita: Você tinha 19 anos na época da filmagem, fazendo uma personagem de 15.


Esqueletos: Anita, falamos da estética, mas tem também a estética sonora do filme e pelo que vimos, você ajudou com a trilha?

Anita: Sim, várias pessoas colaboraram na trilha. Quando eu escrevo o roteiro, já escrevo pensando em algumas músicas nos fonogramas. Obviamente não dá pra pagar nenhum na prática, mas pelo menos pra filmagem eu tinha que resolver as músicas que seriam filmadas, das Preciosas. Uma delas é uma versão minha de Sonho de Amor da Patrícia Marx, que também mostra meu gosto por novela [risos]. E outra era de domínio público, que é The House of the Rising Sun, que pra mim era importante ter uma música que fosse reconhecível, que a plateia sentisse como algo familiar, próximo, acolhedor. Eu escrevi essas duas versões e a Carol Romano ajudou a preparar o coral, gravamos antes da filmagem. O Bernardo Uzeda, o editor de som que trabalhou comigo em todos os filmes desde a faculdade, compôs todas as músicas incidentais do filme. Outros colaboradores foram o [Rafael] Fantini, um produtor musical de Minas Gerais que conheci por acaso e que produziu a versão de Vaca Profana com a Marina Sena antes dela ficar mais famosa, senão nunca teria topado [risos]; e uma cantora de Belo Horizonte chamada Nath Rodrigues. A Mari Oliveira grava uma versão de Wishing on a Star e até a música dos créditos finais é uma letra minha, uma outra versão de The House of the Rising Sun. Então acabei atuando algumas vezes como produtora musical do filme e nos fonogramas tem esse trabalho louco, de ficar pensando e testando, ficar pesquisando licenciamento e testando com a montadora. Até uma música que foi surpreendentemente barata foi Uma Noite e Meia da Marina Lima e dos créditos iniciais, Cities in the Dust de Siouxsie & the Banshees.


Esqueletos: E quando a versão dos créditos finais de The House of the Rising Sun vai entrar no Spotify? Porque eu já quero estourar aqui todo dia ouvindo pra rua inteira achar que eu sou crente.

Anita: [Risos] Realmente não sei! É domínio público, era pra estar lá mas não sei porque não está. Algumas músicas realmente não temos o direito de colocar, porque só temos o direito de usar no filme e não comercializar.


Esqueletos: Por falar em crentes, vocês estrearam quase junto com Raquel 1:1, outro filme estrelado pela Valentina Herszage que protagonizou Mate-me Por Favor.

Anita: Ainda não vi o filme ainda, então não posso opinar.


Esqueletos: Já posso adiantar que eles se conversam muito tematicamente. Mas além dele, outros filmes nacionais de gênero estrearam recentemente como o Mato Seco em Chamas. Como você vê pra onde o nosso cinema de gênero está indo com essas temáticas?

Anita: Acho que está cada vez mais presente o nosso cinema de gênero, até porque vivemos anos de horrores no Brasil, então o cinema de horror está constantemente falando da sociedade. Um filme que me inspirou muito foi o Corra! do Jordan Peele, que tem esse horror como crítica social. Então acho que esses últimos anos no Brasil estão inspirando mais histórias de gênero, porque a realidade no país foi tão louca. Lembro de 2013 quando começamos a observar o avanço conservador, depois veio o impeachment e a cada ano piorou com coisas mais absurdas acontecendo. Isso inspira histórias de horror, porque a realidade está tão bizarra que os filmes vão tomando tons mais fantásticos para dar conta dessa realidade brasileira. Estamos num momento de ascensão de filmes de gênero no Brasil por causa do cenário político e do que aconteceu nos últimos anos.


Bruna G: Concordo com você mas acho que agora estamos num momento em que estamos nos libertando desse período sombrio. É um momento para além de usarmos como inspiração para o que passou, nós também nos sentimos mais confortáveis para jogar pra fora essas, pra produzir cinema, produzir audiovisual.


Anita: Só de pensar no que aconteceu em 8 de janeiro, a invasão de Brasília, dá um puta filme de horror também, não é? Quem sabe não faço, um filme de terror meio A Vila mas num acampamento bolsonarista! [Risos].


Esqueletos: Para finalizar, quais seriam os três filmes de terror que vocês acham essenciais pra toda pessoa assistir?

Anita: Só três? Tenho que falar Suspiria, que é a grande referência [de Medusa]. Vejo Mulholland Drive como um filme de terror, então vou colocar. E outro que eu gosto muito é Carrie. Mas a minha lista teria uns dez!


Bruna G: Acho que Parasita. Nós do Jordan Peele. E À Meia Noite Levarei a sua Alma, do José Mojica.


Esqueletos: Perfeito!
 


Gostaríamos de agradecer a Anita Rocha da Silveira, a Bruna G e a Vitrine Filmes!

Entrevista por Luiz Machado e Yuri Célico.

Transcrição por João Neto.

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