• Yuri Cesar Lima Correa

Meu Pai: quando o Terror se disfarça de Drama para vencer um Oscar


O homem ouve um barulho estranho e, cauteloso, vai investigar do que se trata. Há estranhos na sua casa, mas a filha não acredita nele. E não só isso, mais tarde ela tenta estrangulá-lo durante o sono. O personagem acorda assustado, descobrimos que foi tudo um pesadelo — ou será um prenúncio dos horrores que vêm a seguir? Tentando achar a saída, ele vê o apartamento onde mora se transformar num labirinto. Objetos somem ou mudam de lugar, portas que antes davam em cômodos familiares, agora apresentam-se como becos sem saída. Vultos passam em frente à câmera ou surgem ao fundo dos planos nesses corredores e aposentos vazios, nos quais o protagonista de vez em quando encontra com figuras ameaçadoras e amarguradas que aparecem e somem feito espíritos agourentos.


Ora, esta poderia ser a descrição dos eventos num roteiro genérico de horror sobrenatural, mas aqui estou falando da trama de Meu Pai (2020), filme que é todo contado a partir do ponto de vista de Anthony (Anthony Hopkins), um homem já idoso sofrendo com a progressão dos sintomas da Demência — condição médica quase sempre causada pelo Mal de Alzheimer. Um drama para os familiares, sem dúvidas, mas um terror para o doente. E é esta nova conotação que o roteiro apresenta de forma tão instigante quando reutiliza os clichês e recursos do Terror numa história essencialmente configurada no gênero de Drama — não por acaso a produção levou o Oscar de Roteiro Adaptado neste último domingo (também o de Melhor Ator).



Agora, isso não é nenhuma novidade. Por exemplo: se analisado formalmente, Jurassic Park (1993) tem a estrutura e os arquétipos dos primeiros filmes de terror do Cinema; há lá o cientista maluco, assim como os monstros criados por ele que, eventualmente, se libertam durante uma noite chuvosa e passam a atacar uma por uma das vítimas disponíveis — especialmente as de moral questionável, como o advogado que acaba devorado pela T-rex sentado no troninho. Apesar de tanto, O Parque dos Dinossauros não funciona como um filme de terror, ou seja, o medo não é a emoção central da narrativa. Sim, os sustos surgem aqui e ali, mas dividem espaço com o encantamento, a ação, o suspense e até mesmo com o drama. É uma decisão inteligente: ao narrar uma típica aventura na selva, com ares de King Kong, Jurassic Park se utiliza de elementos marcantes dos filmes de horror para estabelecer de maneira econômica e eficiente o pavor experimentado pelos personagens enquanto fogem dos monstros pré-históricos.


E o contrário também pode acontecer; o Terror pode se utilizar de clichês e recursos de outros gêneros do Cinema, como acontece de forma bastante escancarada em O Sexto Sentido (1999). Quem é o indivíduo sem coração que não se comove com o diálogo entre Cole (Haley Joel Osment) e sua mãe (Toni Collette) na cena do carro? O monólogo do menino, com os planos e contraplanos se fechando cada vez mais no rosto dos dois atores, é o encerramento de um arco inteiro de desgastes entre mãe e filho. Veja bem, não é a história de uma família ameaçada por espíritos malignos, mas a trajetória de afastamento e reaproximação entre dois entes queridos. O negócio todo é acompanhado de eventos sobrenaturais? É sim, mas a estrutura foi chupada dos roteiros de Drama, e ela serve para aprofundar e desenvolver elementos que, no final das contas, estão operando como Terror.


E, seguindo esta ideia, por que não trazer elementos de vários gêneros para compor um filme, digamos, de ação? Sam Raimi deve ter algumas coisas a dizer sobre isso, afinal, ele fez questão de se apropriar do Horror quando dirigiu Homem-Aranha 2 (2004). E não tô falando só da maravilhosa cena na sala de cirurgia, mas também de toda a dinâmica aos moldes de O Médico e o Monstro adotada na forma de retratar a relação do vilão Doutor Octavius (Alfred Molina) com seus tentáculos mecânicos. Igualmente, Raimi se apropriou de outro gênero inusitado para o universo dos super-heróis: o Musical. E, de novo, não tô falando apenas da cena específica na qual Peter Parker (Tobey Maguire) é visto felizão e apaixonado andando pelas ruas de Nova York ao som de Rain Drops Keep Fallin’ On My Head, mas também da própria lógica visual das sequências de ação, que adotam planos abertos, bem iluminados e coreografias bem marcadas. Recursos que, estabelecidos a partir dos anos 1940 na era de ouro dos musicais, foram mais tarde reaproveitados pelos filmes de ação para conceder clareza às trocas de soco e tiros tão típicas do gênero. A mistura surtiu efeito, Homem-Aranha 2, um exemplar de ação, se beneficia das camadas adicionais agregadas pelos elementos narrativos, estéticos e estruturais trazidos do Horror e dos Musicais.



E uma vez que, a essa altura já deve ter ficado bem exemplificada a ideia deste artigo, aqui podemos voltar a Meu Pai, que com seus clichês do terror sobrenatural, potencializa o drama de Anthony. Afinal, quando compara a experiência subjetiva do idoso com a jornada de um protagonista num filme de horror, o roteiro deste projeto consegue desdobrar a reflexão sobre a Demência para além do pensamento unidimensional que costuma tomar as produções que abordam esses temas: “nossa, como isso é triste, não acha?”. Ou, quando muito, um sentimento bidimensional que se resume em 1) admitir como a situação é dramática, e aí 2) aprender a superá-la como forma de evolução pessoal. Aqui não, pois as situações dignas de filmes de terror colocam Anthony em constante posição de fragilidade, e por sua vez isso nos coloca ao seu lado — a tendência do espectador é sempre torcer pela figura fragilizada. O medo que ele sente fortalece nossa conexão com o personagem, impedindo que o enxerguemos apenas como uma “pessoa doente” ou “fora da casinha”. Anthony é, sim, um indivíduo numa condição terrível, mas aprendemos que ele também é um ser-humano com temores, anseios, alegrias, gostos, mágoas, tristezas. O terror, portanto, é o recurso narrativo que nos aproxima de Anthony e nos permite entender que, ao contrário do que tudo indicava, existe gratidão nele pelos cuidados e carinho da filha (Olivia Colman), assim como um vazio inexpugnável deixado por certa perda que ele tem dificuldades de lembrar. Aqui, é através do Terror que o Drama funciona.


E o mais interessante é que essa tridimensionalização do problema também acarreta em reflexões mais complexas que saem do lugar-comum e, logo, já surgem instigantes. Por exemplo: em outro caso poderíamos facilmente dizer que a filha do Anthony é uma covarde por querer mudar de país ao invés de ficar em Londres para cuidar do pai. Porém, somos naturalmente levados a questionar se isso, de fato, seria bom para qualquer um dos dois. Nós conhecemos a prisão aterradora na qual Anthony está preso (especialmente nos minutos finais, quando ele se descobre numa instituição especializada), então, sabendo disso, faria sentido exigir que sua condição fizesse não apenas uma, mas duas pessoas reféns? Qual o limite ético desta situação? É aquele definido pelo amor e carinho que, idealisticamente, deveria unir pai e filha? Mas e se o amor e carinho estivessem comprometidos pela própria limitação de Anthony para acessar as memórias que nutrem esses sentimentos? Não são perguntas simples com respostas óbvias, pois não partem do pressuposto de uma única emoção — o filme não permite isso, nos obrigando a considerar, além da tristeza, também a angústia e medo.


E o frustrante é perceber que ainda tem gente insistindo numa banalização boba das potencialidades do gênero Terror, como se ele fosse uma forma menor e menos “pura” de Arte. Quem vai contar a essas pessoas que o Terror foi um dos primeiros gêneros estabelecidos na Sétima Arte? Sim, o Cinema surge em 1895 e já em 1896 George Méliès apresenta curtas como O Pesadelo, Uma Noite Terrível e O Solar do Diabo (também conhecido como Castelo Assombrado). E teria como ser diferente? O medo é um instinto básico que compõe a natureza humana — ou não lembram que ele era uma das emoções retratadas em Divertida Mente (2015)? Por isso é até engraçado assistir à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas premiando e enaltecendo um filme como Meu Pai, fundamentado nos recursos do medo, enquanto, salvas raras exceções como Corra! (2017), ano após ano os votantes continuam a ignorar sumariamente o catálogo de lançamentos na esfera do Horror. Não consigo imaginar títulos populares como Corrente do Mal (2015), Mãe! (2017), Hereditário (2018), Nós (2019) e Midsommar (2019) deixando a desejar em comparação com… O Discurso do Rei (2010), O Jogo da Imitação (2014), Lion (2016), Green Book (2018), Bohemian Rhapsody (2018) e outros indicados e vencedores na categoria de Melhor Filme que já foram engolidos e esquecidos pela história recente do Oscar.



Todavia, quando se disfarça de Drama e mantém seus segredos escondidos no armário (como o armário que Anthony jurava ser a porta de um quarto), o Terror passa batido e até consegue levar pra casa uns carequinhas dourados da Academia. Mas não tenha dúvida, o esqueleto deste roteiro e as linhas que dão ossatura à narrativa de Meu Pai, são idênticos àqueles esqueletos que já atormentavam o protagonista de O Solar do Diabo lá em 1896. Seguimos de olho.