• João Neto

[Rebobinando] Cherry Falls e a orgia da morte



Sejam bem-vindos ao [Rebobinando], a coluna do Esqueletos no Armário que te levará de volta aos tempos de locadora para tirar a poeira do VHS (ou do DVD) e revisitar alguma obra, seja ela um clássico memorável ou uma pérola esquecida que precisa de um pouco mais de carinho. Chega junto, liga a TV e não se esqueça de rebobinar antes de devolver!

 

"Virgin High! Drop your pants to fuck, or die!"


Quando um repórter chega na George Washington High School para cobrir a recente onda de assassinatos, ele se depara com alunos eufóricos descendo as escadarias. Ali estão as próximas vítimas, mas o que lhe dá medo é pensar que só há uma maneira para que esses jovens escapem da mira do assassino que aterroriza a pacata cidade de Cherry Falls: aparentemente, as mortes são todas de pessoas virgens e, portanto, se quiserem sobreviver, os estudantes precisarão transar.


Historicamente, isso significaria o próprio beijo da morte nos slashers. Tendo relação ou não com a motivação principal do assassino, personagens que pecam de alguma forma nesses filmes, seja bebendo, usando drogas ou fornicando, são alvos garantidos. De pacto moralista à regra fundamental do subgênero do terror, esse clichê foi para sempre dilacerado quando Randy, de Pânico (1996), verbalizou as tais regras do slasher para seus amigos enquanto a final girl do filme, Sidney Prescott, perdia a virgindade no andar de cima.


A autoconsciência dentro dos slashers, que veio com a pós-modernidade, soprou novos ares no subgênero então desgastado pela década de 1980. Se o público havia perdido o interesse por esses filmes devido à falta de inovação, agora a novidade era inserir você, espectador, dentro da piada. Foi uma maneira de transformar o slasher em algo ainda mais lúdico, quiçá alcançando novas audiências, pois usava suas próprias críticas como armamento para a desconstrução.


No entanto, poucos seguidores do filme de Wes Craven tiveram a mesma audácia ou coragem de descascar o gênero da mesma maneira, optando por abordagens mais tradicionais. De Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado à Lenda Urbana, de Prova Final até Premonição, o sucesso de Pânico foi suficiente pra ressuscitar um mercado, mas não o suficiente para influenciar diretamente outros a dissecar suas operativas. O que não é necessariamente um demérito destes exemplos, mas sim uma indicativa da falta de ousadia da indústria de ir mais além em algo tão transformativo.



Aí que entra Medo em Cherry Falls, um não-tão pequeno slasher canadense que contava com a direção de um diretor emergente e uma estrela em ascensão, mas que por conta de forças externas e pressões conservadoras do governo, acabou sendo sabotado e vendido como um filme televisivo, ao invés de ir pros cinemas. A produção problemática também guarda boas fofocas que eclipsaram o que talvez seja o seguidor mais fiel dos ditames de Pânico — ao menos, é o mais ousado e ambicioso deles, mesmo não sendo tão reconhecido aos olhos do grande público.


Ecoando outras obras formativas do gênero como A Hora do Pesadelo ou Twin Peaks, aqui também acompanhamos uma comunidade pacata e conservadora como cenário principal, cuja nova geração se vê ameaçada pelos pecados de seus pais. A adolescente Jody (uma ótima Brittany Murphy em seus primeiros anos de sucesso) se encontra no meio da série de mortes brutais de seus colegas. A vantagem é que Jody é filha do xerife local (Michael Biehn) e, assim, ela acaba descobrindo antecipadamente que o elo que une todas as vítimas é que elas eram virgens — e o assassino (ou seria assassina?) fez questão de deixar a mensagem clara ao rasgar a palavra na pele de cada uma delas.


Jody por si só se enquadra não apenas como um alvo em potencial, mas também como a figura típica da final girl virginal. Ela recusa os avanços sexuais do seu namorado, causando um término, mas também é uma figura infantilizada dentro de sua relação freudiana com o pai — uma dinâmica central na história. Após ser repreendida por ter passado do toque de recolher, uma Jody frustrada deita-se na sua cama, usando um baby doll florido e agarrando um ursinho de pelúcia em mãos. Há um estranho mas evidente contraste entre a moça de ar rebelde, cabelo repicado e roupas escuras que acompanhamos ao longo do filme com a que vemos nesses momentos caseiros.



Como um afronte ao puritanismo da fórmula clássica dos slashers, Cherry Falls brinca com o conceito "pureza X sexualidade" e desafia todos os jovens a procurar aquilo que provavelmente os mataria, caso estivessem em qualquer outro filme. A matemática é simples: um bando de adolescentes com um alvo nas costas e o sexo como sua única ferramenta de sobrevivência = panela de pressão prestes a explodir. Alguns dos momentos mais afiados e abertamente cômicos do filme estão justamente na maneira em que a cidade lida com o fato de que precisa se conformar e permitir a "corrupção da inocência" desta juventude para garantir sua sobrevivência.


Obviamente, isso abre discussão para dinâmicas interpessoais e políticas de gênero dos personagens como, por exemplo, as diferentes relações que os garotos e as garotas têm com o sexo. Em um debate para esclarecer dúvidas sobre consentimento e prazer feminino, organizado pelas moças nas arquibancadas, uma delas pergunta: "mas e o orgasmo clitoriano ou vaginal?", a qual é respondida com "a não ser que esteja falando de masturbação, esqueça!". E tendo Jody como protagonista, o filme oferece ainda uma interessante perspectiva sobre a autodescoberta sexual de uma personagem reprimida, pois, à medida em que a adolescente descobre a verdade (e as mentiras) sobre seus pais, ela começa a se desvencilhar da casca infantilizada na qual é condicionada, explorando seus próprios prazeres e fetiches. Em certo ponto, Jody faz com que seu namorado Kenny chupe seus dedos do pé. Esse momento não é sobre ele, é sobre ela. E ainda que logo depois ela recue da decisão de perder a virgindade com o namorado, o que fica em evidência é a importância da autonomia sexual da personagem.



Por sinal, a energia sexual do filme vai além dos adolescentes, é algo que os rodeia — desde a verdadeira motivação da pessoa assassina, até os adultos que os subjugam. Existe, por exemplo, uma tensão sexual subjetiva entre o diretor da escola e sua secretária; ou os pais de uma das vítimas que retornam de um jantar se atracando feito dois cães no cio, momentos antes de encontrarem a filha morta em casa. Aliás, as mortes acabam funcionando como prerrogativa para que todos eles possam extravasar essas repressões, o que o filme aproveita para levar seu conceito muito, MUITO longe, culminando no pior (ou talvez melhor) cenário possível.


Eventualmente, Jody descobre que os assassinatos estão relacionados à uma moça chamada Lora Lee Sherman, estuprada por quatro garotos no dia de formatura; seu pai era um deles. A revelação culmina também na resolução da identidade do assassino, seu professor e meio-irmão Leonard Marliston (Jay Mohr), o rancoroso fruto bastardo da relação violenta que cresceu sofrendo os abusos de uma mãe traumatizada. Para efetuar os crimes, Leonard se fantasiava como a mãe, numa versão noventista do Norman Bates, dessa vez com mecha grisalha na peruca, meia arrastão, roupas de couro e esmalte vermelho (uma estética deliciosamente estilosa, convenhamos).


Mas essa reviravolta levanta duas discussões importantes e consequentemente controversas sobre o filme. Vamos falar da primeira delas: a identidade do antagonista. Cherry Falls carrega consigo o que chamamos de tropo transfóbico da "travesti assassina". De Psicose (1960) à Silêncio dos Inocentes (1991), do cinema de prestígio aos filmes de terror B, esse clichê se manifesta através de uma associação patológica da figura do "homem vestido de mulher" ao "perigo", "instabilidade" ou "morte", repercutindo consigo um estigma nocivo que fere diretamente os indivíduos dessa comunidade. Em sua dissertação Reel Gender - Examining the Politics of Trans Images in Film and Media ¹, a autora e pesquisadora Joelle Ruby Ryan analisa essa ansiedade como artifício narrativo:


"Ao misturar elementos do masculino e feminino, eles transgridem um dos tabus culturais mais sagrados. A deslealdade à masculinidade é mostrada como tendo resultados trágicos e fatais, e por que não seria assim? A aderência de homens às normas patriarcais, poder e privilégios são os pilares da nossa cultura masculinista atual. Se alguém cruza a linha do gênero, pode-se enlouquecer e começar a matar, particularmente as mulheres por quem foram tão cruelmente "emasculado".

Ou seja, a gênese do medo nessas histórias está enraizada no desvio do gênero normativo. Portanto, sempre haverá consequências imperdoáveis para as transgressões desses personagens. A segunda discussão que pode ser levantada, porém, é que a figura de Leonard em Cherry Falls também serve como afronte. Ao assumir a persona feminina da mãe, ele desafia e ameaça não apenas as figuras patriarcais da cidade, mas também sua própria estrutura cisheteronormativa. Sua vingança não é apenas contra os criminosos que violentaram Lora Lee, mas também contra o sistema silencioso que os permitiu seguirem impunes e se tornarem pilares da comunidade, reverberando diretamente na nova geração que sente na pele toda a sua fúria queer.



O terceiro ato culmina em uma grande festa onde os adolescentes resolvem se salvar da morte coletivamente. Isso, uma orgia de mais de 100 menores de idade em uma mansão isolada. Quando Jody escapa do covil de Leonard, o professor a segue até o local, gritando "Classe dispensada!" antes de sair esfaqueando e mutilando um emaranhando de corpos desnudos e cheios de hormônios.


O banho de sangue chega ao fim através de um empurrão de Jody da sacada, derrubando Leonard para sua "inevitável" morte, sendo atravessado por uma viga de madeira. Na hora de prestar contas com a polícia, Jody e sua mãe decidem não revelar as verdadeiras intenções do assassino, e por consequência, não revelam a história do estupro de Lora Lee, protegendo o seu agora falecido pai e seus comparsas. A vida em Cherry Falls volta ao normal, livre de sua ameaça aterrorizante e sexualmente desviante.


Ainda que o desfecho amargo — e problemático — não pareça apresentar um caráter crítico para tais consequências, o último shot do filme traz um simbolismo poderoso. As cascatas do riacho, antes cristalinas, agora correm vermelho-sangue. A "pureza" dessa cidade pacata estará para sempre contaminada pela toxicidade de seus pecados e segredos.



Sob uma análise mais técnica, Cherry Falls é um filme em que dois tons diferentes duelam entre si: o roteiro absurdo, autoconsciente e quase paródico de Ken Selden de um lado, e do outro a direção sóbria de Geoffrey Wright, que optou focar no suspense e no horror. A vítima desse embate foi a própria obra, que acabou recebendo uma boa fatiada da censura americana (lembrem-se: suruba de menores), prejudicando sua comercialização. Adicione na receita um cenário político altamente conservador pós-Columbine e, o que poderia ser um sucesso moderável de bilheteria, terminou por ser descartado como filme televisivo censurado.


E ainda que o humor do longa não seja tão corrosivo quanto a versão original do roteiro, Cherry Falls já veio conquistando há duas décadas seu próprio público, garantindo um selo de clássico cult e influenciando suas próprias crias, como por exemplo Freaky - No Corpo de um Assassino (2020), cujo roteirista Michael Kennedy já o citou como uma das principais inspirações. Seja como rip-off de Pânico ou um coming of age psicossexual pervertido, o fato é que Cherry Falls ainda continua sendo uma pequena pérola — e nos dias atuais, onde uma nova juventude surge tão conservadora, esse tipo de história talvez seja um bom remédio.


 

¹ RYAN, J.R. Reel Gender: Examining the Politics of Trans Images in Film and Media (2009). American Culture Studies Ph.D. Dissertations. 62. Disponível em: <https://scholarworks.bgsu.edu/acs_diss/62>.

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