• Rodrigo Lopes

Ressuscitando os mortos mais uma vez: A Volta dos Mortos Vivos

Gótica dançando pelada em cima de túmulos, zumbis comedores de cérebros e ginástica com mortos vivos? Tudo isso faz parte do universo da sequência alternativa de A Noite dos Mortos Vivos (1968), o clássico do George Romero que se levava a sério demais para a mente de Dan O’Bannon. O roteirista em ascensão nos anos 80 por ter escrito o roteiro de Alien (1979) abriu os túmulos para expor sua visão punk-rock e satírica dos comedores de carne. Ou melhor, cérebros. A Volta dos Mortos Vivos quase foi uma sequência da mitologia de Romero, mas ganhou vida (?) ao subverter os elementos popularizados pelo mestre e trazer para as criaturas uma nova abordagem que envelheceu como um delicioso vinho.


Se os zumbis conversam tão bem aqui, precisamos conversar também sobre esse clássico que moldou a cultura pop de horror, respingando sangue na forma como enxergamos o universo de mortos-vivos nos dias de hoje, passando por seu nascimento e influência, a bagagem pesada que carregou da criação do Romero e suas sequências que… existem! Enfim, vamos ressuscitar os mortos-vivos mais uma vez.


(esq. à dir.) John A. Russo, George A. Romero e Russ Streiner.

Abrindo os túmulos: Como tudo começou?


O que acontece quando dois roteiristas acostumados a escreverem comerciais de ketchup arranjavam tempo para conversar sobre ideias diferentes? A Noite dos Mortos Vivos aconteceu. Percebendo a exaustão dos filmes B sobre criaturas gigantes nucleares, um reflexo criativo do medo da população após Hiroshima e Nagasaki, George Romero e John A. Russo começaram a escrever o que viria a ser o clássico de terror do final dos anos 1960. Unindo uma ideia de Russo sobre alienígenas comedores de carne com os escritos de Romero sobre humanoides atacando pessoas, o filme ampliou o medo dos zumbis no imaginário popular ao colocar os antagonistas como devoradores de carne humana. Antes, eles basicamente só perambulavam por aí esganando e arremessando objetos em pessoas. Tenso, mas não era assustador o suficiente. Dali em diante, existiam os medos de:


  1. Ser devorado vivo

  2. Se transformar num zumbi

  3. Ser devorado por um ente querido


Quando A Noite dos Mortos Vivos foi lançado e alavancou não só os zumbis para o mainstream, mas também a carreira dos criadores da obra, era esperado o retorno da dupla para novas entradas nesse universo, mas os dois acabaram seguindo caminhos diferentes. Foi pelo caminho de John A. Russo, ao lado de dois atores do filme original, Russ Streiner e Rudy Ricci, que uma sequência do clássico foi desenvolvida. Ok, então é aqui que começamos a falar sobre A Volta dos Mortos Vivos, certo? Bem, sim e não. Porque o que Russo escreveu pouco se assemelha à obra lançada por Dan O’ Bannon em 1985, mas falaremos sobre isso um pouco mais a frente.



Túmulos abertos: A festa começa.


Quando um misterioso tanque de gás vaza em um armazém de equipamentos médicos, reanimando cadáveres do local, Freddy e seu chefe, Frank, precisam encontrar um jeito de resolver o problema, mas a solução acaba piorando tudo para eles e para os jovens punks que se divertem no cemitério ao lado.


Zumbis inteligentes, falantes, sentimentais e corredores. Esses elementos, em conjunto ou não, costumam ser associados a uma visão “moderna” do subgênero, que ganhou um impulso após o lançamento de Extermínio (2002) de Danny Boyle, e até mesmo renegados, como se destruíssem os reais valores da Família Zumbi Tradicional Brasileira, como aconteceu com o lançamento de Meu Namorado é um Zumbi (2013), tratado na época como o “novo crepúsculo”. Existe até o esforço em separar os “mortos vivos verdadeiros” de suas “evoluções”, como em Resident Evil 4 (sim, o jogo) onde os antagonistas nem sequer são considerados zumbis.


Enfim, ainda existe uma resistência para mexer em uma mitologia que já foi desconstruída no século passado através de uma simples comédia de terror que deturpou o que o público acreditava na época serem elementos essenciais do subgênero. O melhor de tudo é que isso é feito a partir da metalinguagem.



Tal como no mundo real, A Noite dos Mortos Vivos também é um fenômeno cultural no universo do filme, fazendo com que seus personagens, e sua audiência, encontrem soluções baseadas no que eles assistiram. Aqui, não adianta atirar na cabeça - até porque, eles já estão mortos (duh) -, se esconder, decepar ou correr, pois os monstros correm mais rápidos, armam emboscadas e são espertos o suficiente para encontrar suas vítimas em qualquer lugar.


A inteligência das criaturas é fundamental para contrastar com a estupidez dos mocinhos, personagens intencionalmente estereotipados que basicamente só estão ali, no lugar errado e na hora errada. Essa superficialidade também se contrapõe ao sentimentalismo das criaturas, que não matam para apenas devorar, mas para curar uma dor insuportável sanada a partir do consumo de cérebros humanos, especificamente, como se os monstros tivessem mais motivações e profundidade que os heróis. Você já jogou Plantas vs Zumbis? Sabe quando os zumbis aparecem resmungando “brains”? Pois é, A Volta dos Mortos Vivos!



Falando nos protagonistas, seus nomes já deixam bem claro que o filme não tenta se levar tão a sério. “Suicide”, “Trash” e “Spider” são algumas das estrelas de um elenco repleto de personagens pouco agradáveis, mas icônicos ao extremo para carregar essa jornada do início ao fim, sendo a Linnea Quigley como Trash um marco do cinema de horror. A atriz foi escolhida baseando-se no critério de se sentir bem dançando nua em cima de um túmulo e, após isso, ficou tão reconhecida dentro do nicho que ainda estrelou um DVD de ginástica ao lado de zumbis.


Unindo essa visão original à uma trilha sonora punk e um trabalho de maquiagem impecável, temos um dos filmes de zumbis mais divertidos e visualmente criativos já feitos. Mesmo 36 anos depois, o zumbi de óleo ainda é um dos designs inventivos e assustadores do subgênero.



O mesmo nome. Dois túmulos diferentes.


Como falamos, a obra original escrita por Russo, Streiner e Ricci é completamente diferente do filme de Bannon. Lançada como um livro e distribuída no Brasil pela DarkSide em uma edição dupla com os escritos do primeiro filme, a história da sequência original segue com fidelidade os acontecimentos do filme de George Romero, tanto no tom como no enredo. Nela, os funerais são finalizados com uma estaca penetrando a cabeça do cadáver, uma resposta da sociedade ao medo do retorno dos mortos vivos, e o núcleo principal, tal como no filme de 68, se passa na zona rural, através do ponto de vista de múltiplos personagens, incluindo o exército.


Enquanto lia, sem saber de todo o contexto por trás do filme, tive dificuldade em relacionar aquele poster cômico e rebelde do filme de 85 ao livro. Esse último, se trata de uma obra séria, com personagens “normais” e sem danças eróticas em cima de túmulos. Vale a pena a leitura, por ser mais um caminho de possibilidades ao rico universo de A Noite dos Mortos Vivos, mas tendo em mente a diferença entre ele e a “adaptação” de mesmo nome.



Fechem os túmulos antes que as sequências saiam da cova.


Quase todo sucesso no cinema vem acompanhado de sequências intermináveis - o próprio Romero deu continuidade ao seu universo de mortos-vivos até 2009 - e com A Volta dos Mortos Vivos não podia ser diferente, mas, nesse caso, nenhum dos criadores originais retorna para continuar a história. O resultado? Filmes isolados que pouco entendem o que fez o original ser essa obra atemporal.


A parte II, lançada em 1988, até funciona como uma comédia de zumbis, mas seu tom genérico pouco se assemelha à rebeldia caótica do original, abrindo mão do estilo único que fez o primeiro filme ser tão icônico. A parte III é a melhor das sequências - o que não quer dizer muita coisa - ao tentar trazer um pouco da irreverência do primeiro filme e aliando-a a uma história de romance que até convence um pouco e representa uma abordagem interessante para a obra, mas, infelizmente, ela acaba se perdendo dentro de uma história que se leva a sério demais. A parte IV e V… bem… foram feitas.



É curioso perceber que as sequências deliberadamente, ou por falta de criatividade, abrem mão de elementos fundamentais para o sucesso do primeiro filme, como, por exemplo, a subversão das criaturas, transformando-se em filmes genéricos pouco semelhantes ao clássico de Bannon. É como se os produtores tivessem interpretado que a fama do primeiro filme se deve aos mortos vivos dentro de tanques de óleo, porque é, literalmente, a única coisa em comum entre todos eles. Quando acertam na comédia, se perdem no estilo e personagens, e vice-versa. Talvez seja por isso que o universo de Romero seja anos-luz mais lembrado nos dias de hoje, por ter tido sequências que deram continuidade à mitologia original e foram envelhecendo junto ao público.


Não sei se trata-se de uma opinião impopular, mas prefiro o clássico de Bannon a qualquer um da trilogia clássica dos mortos do George Romero e acredito que ambos deveriam estar no mesmo patamar de memória coletiva do cinema. Mas, no final das contas, faz mais sentido assim. A Volta dos Mortos Vivos é um clássico inegável e ainda bem popular, mas também é a criança rebelde que não merece um espaço ao lado dos grandes. Então, enquanto alguns ficam no pódio, ela dança pelada acima de um túmulo ao som de punk-rock, rodeada por tochas e couro.



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