[Artigo] Aquilo que devora seus pais
- Yuri Cesar Lima Correa
- há 2 horas
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Isto não é uma crítica do filme O Fim da Rua (The End of Oak Street, 2026), e sim uma reflexão começada por ele naquela cena, AQUELA CENA — você sabe qual. Foi quando lembrei do documentário O Homem Urso (2005), de Werner Herzog, no qual o cineasta diz que vê “apenas a avassaladora indiferença da natureza” quando descreve o olhar de um urso-pardo filmado pelo especialista em animais Timothy Treadwell, que alguns dias depois de registrar essas imagens, seria brutalmente morto e devorado pelo mesmo urso que aparece no seu vídeo.
Ao longo das décadas, tornou-se notório o esforço de Hollywood para complexificar o comportamento de predadores em seus filmes, a fim de inferir maior vilania a bichos como leões, tubarões, pássaros, cobras, abelhas e também, claro, dinossauros. Os Pássaros (1963), Phase IV (1974), Tubarão (1975), A Sombra e a Escuridão (1996), Anaconda (1995), Do Fundo do Mar (1999) e até o próprio Jurassic Park (1993), todos carregam esse elemento em comum; por excelentes filmes que sejam (e tomei o cuidado de escolher aqui somente títulos que pessoalmente adoro), essas obras concluem que os animais soam mais ameaçadores quando se comportam de forma atípica, se organizando em bandos, tomando decisões racionais e estratégicas, agindo com crueldade calculada e até por vingança. Quando, na verdade, nunca senti tanto o terror de se encontrar à mercê de um carnívoro quanto nessa imagem captada por Timothy Treadwell mostrada no documentário de Herzog. Me assombra a ideia de que esse urso, aparentemente calmo e trazendo no olhar “apenas um interesse meio entediado em alimento”, como Werner também narra, viria a arbitrariamente decidir imobilizar e devorar vivo o homem que o filma. Para mim, o maior horror oferecido pela natureza sempre foi justamente sua “indiferença”, a banalidade com que uma vida é ceifada apenas para suprir a refeição do dia, e a mais absoluta ausência de empatia que rege a cadeia alimentar. Na natureza, o instinto sempre supera a razão, e a força sempre supera o vácuo.
Essa característica dos dinossauros não como monstros, mas simplesmente como animais que têm fome, é recuperada em O Fim da Rua (2026) pelo cineasta David Robert Mitchell, finalmente afiançado da cadeia dos diretores, para onde nunca deveria ter sido mandado depois do excepcional O Mistério de Silver Lake (2018). Na história, uma família nuclear de um típico subúrbio estadunidense dos anos 1980 é enviada ao período jurássico junto com todo o seu bairro, e agora precisa sobreviver sendo caçada por animais pré-históricos enquanto tenta descobrir um jeito de voltar ao presente. E Mitchell nos permite identificar facilmente os mecanismos de caça dos predadores em cena, como o faro, a visão que apreende com facilidade o movimento das presas e a audição que os guia diretamente para possíveis criaturas mais frágeis. Esses bichos não estão tramando o frio assassinato dos moradores de Oak Street, estão apenas fazendo o que foram condicionados por milhões de anos de evolução em um hambiente altamente hostil e competitivo: sobrevivendo, seja matando ou se escondendo.
Não há aspirações individuais, planejamento social, tensões políticas ou recessão econômica na lógica dos dinossauros, apenas instinto. Desde que cumprissem a necessidade de se alimentar, se hidratar, digerir, se reproduzir e dormir, esses animais estavam fadados a uma existência longeva — o que, de fato, tiveram. A simplicidade dessa rotina fez dos dinossauros a espécie dominante no planeta durante 167 milhões de anos, de onde só foram varridos porque um asteroide do tamanho do Monte Everest atingiu a Terra — e mesmo assim, cabe lembrar, ao menos 25% das espécies conseguiram sobreviver ao cataclismo para se adaptar e virar os animais que conhecemos hoje. A título de comparação, a nossa espécie, o homo sapiens, surgiu apenas há 300 mil anos e já se encontra próxima de alcançar a autossuficiência em termos de extinção. Nós não precisamos de um asteroide, pois quebramos o átomo e descobrimos como bombear dióxido de carbono na atmosfera da qual dependemos para respirar. Da mesma forma como os dinossauros pareciam especialmente aptos a persistir por milhões de anos, o ser humano parece disposto a bater o recorde de ser a forma de vida a existir por menos tempo neste planeta. De legado, deixaremos flutuando na nuvem uma coleção invejável de vídeos com influenciadores do mercado financeiro que te ensinam como conquistar o primeiro milhão na bolsa de valores, enquanto falhamos em sobreviver ao nosso primeiro milhão de anos.

Em retrospecto, me parece que toda essa filosofia que se disseminou com os yuppies nos Estados Unidos dos anos 1980 até chegar na sua forma mais grotesca na Faria Lima dos anos 2020, tem lá a sua coerência. Somando-se os discursos sobre meritocracia e toda aquela esquisitice sobre achar o seu animal interior (ver Trabalhar Cansa, 2011), bem como o indiscutível desprezo por valores democráticos, a obsessão em acumular e ostentar recursos e a naturalização dos custos sociais que ela traz, e o que se tem é, como resultado, um dinossauro. Um carnívoro movido pela necessidade da caça, focado em conseguir grandes quantidades de alimento, evoluindo para formas cada vez maiores, mais eficientes e visivelmente mais ameaçadoras que otimizem este objetivo, e, claro, indiferente ao impacto de sua carnificina num âmbito social, amparando-se na justificativa de estar apenas movendo a grande engrenagem natural da vida e seguindo o seu instinto. E repare que o nosso mundo moderno se faz cada vez mais dependente da mediação dessas “mecas” do capitalismo e seu domínio sobre esse monte de valores que só existem em tese (juros, taxas, cotações, crédito), então não surpreende que ele também testemunhe uma crescente adesão visceral ao primitivismo, algo que talvez tenhamos nos acostumado a chamar de “fascismo”; pois o método fascista é, afinal, uma simplificação filosófica que implica na divisão de grandes grupos massificados — este é bom, aquele é ruim. Este come plantas, aquele come carne. De um lado grita-se “corram daqueles!”, do outro gritam “comam aqueles!”. E não há como escapar, pois vivemos em um mundo globalizado. Logo, esses preceitos atravessam fronteiras sem dificuldade, o que, ao menos virtualmente, também nos coloca de volta em situação de Pangeia, o grande continente único que existia na época dos dinossauros.
Até o negacionismo climático parece coerente. Estamos deliberadamente deixando o nosso planeta mais quente, como de fato ele era nos períodos triássico, jurássico e cretáceo, quando tínhamos uma média global entre 30ºC e 33ºC (sem contar a quantidade do já citado dióxido de carbono, que no tempo dos dinossauros era cerca de 3 vezes maior). É como se o mercado financeiro, enquanto expressão máxima do capitalismo, estivesse executando um vasto e complexo processo de transição com toda a espécie humana, com o objetivo de nos transformar a todos em dinossauros. Enquanto, na prática, preparam o planeta e a atmosfera para se tornarem mais hostis, filosoficamente também se infiltram no nosso dia a dia para nos condicionar a sobreviver nesse novo ambiente. O futuro que estão preparando não precisa de arte ou cultura, precisa de dentes maiores e toneladas de músculo. Precisa de criaturas que consigam sobreviver ao calor e às variações meteorológicas agressivas, que possam respirar um ar mais denso enquanto buscam por alimento, e que consigam fazer tudo isso enquanto exibem uma corpulência ameaçadora aos demais, para que esses não tentem disputar o mesmo território. Talvez os yuppies tenham entendido muito antes de todo mundo que o segredo para a longevidade de qualquer espécie não é a capacidade de viver em sociedade e em comunhão com a natureza, mas a habilidade de sobreviver a extremos e acumular recursos. E pode até fazer sentido porque, de novo, os dinossauros dominaram a Terra por quase 170 milhões de anos sem jamais terem gastado um minuto sequer de toda essa absurda quantidade de tempo tentando convencer algum imbecil na internet a não tirar fotos da tela do cinema durante a exibição de um filme. E embora outras mídias já tenham explorado de forma lúdica a possibilidade em que os dinossauros teriam, eventualmente, evoluído para uma forma de vida civilizada, segundo as evidências científicas, eles estavam muito bem comendo uns aos outros e pastando samambaias pré-históricas. Nem A Família Dinossauro, nem Os Flintstones e nem Dinotopia. Ao longo de quase duas centenas de milhões de anos de evolução, cerca de 556 existências do homo sapiens, os dinossauros se mantiveram dominantes graças ao instinto e à indiferença.

Conclusão esta que, por fim, me leva de volta a um passado remoto no qual eu ainda estava falando do filme O Fim da Rua (2026). Uma aventura familiar honesta, despretensiosa e executada com rigor técnico, características que se tornam virtudes alicerçadas em uma premissa inusitada e criativa. E assistir a esses personagens tão típicos dos subúrbios estadunidenses habitando uma atmosfera de leveza que, aos poucos, revela sua natureza hostil e mortal dominada por dinossauros, me lembrou o ano de 2005. Minha mãe tinha sido demitida e meu pai (separado dela) não podia nos ajudar com muito. Foi uma época de braquiossauros magros (piada muito interna para quem lembra de Jurassic Park, especificamente a cena em que as crianças chamam esses pescoçudos de “vacas”). Lembro de ir para a escola com medo do que seria o dia seguinte. Não eram só as idas ao cinema, o aluguel de DVDs nos finais de semana e outras regalias que estavam comprometidas, mas também a possibilidade de ter comida na mesa. Não esquenta, eu tenho uma família grande e amorosa, sobrevivemos! Foi fácil? Não. Lembro de um dia em que minha mãe vendeu um freezer que tínhamos na cozinha e que não usávamos muito. R$140, o que era algum dinheiro naquela época. Uma parte ela guardou para provisões e contas, a outra ela pegou e nos levou, eu e minha irmã, ao cinema. Foram dois homens buscar o eletrodoméstico lá em casa, e recordo de minha mãe pedindo que eu ficasse na porta junto de minha irmã. Assim, se alguma coisa acontecesse, nós podíamos ir correndo pedir ajuda aos vizinhos. Tudo correu bem no final, mas a precaução dela insuflou em mim um medo que já vinha crescendo naquele nosso contexto de insegurança financeira. Meus pais, outrora sinônimos de amparo, proteção e conforto, tornavam-se aos meus olhos figuras vulneráveis, vítimas e presas em potencial. Não senti medo por eles. Muito pior do que isso, senti pena.
E pena é algo que só sentimos quando nos encontramos frente a algo triste que não temos como remediar. Algo que está além do nosso poder de ajuda. Com meus 12 anos, não tinha como entender o tanto de sonhos e desejos que meus pais tinham colocado de lado para criar minha irmã e eu, mas de alguma forma compreendi que não podia ajudá-los nisso. Ali, vivendo em um conjunto habitacional na periferia da cidade, o que podíamos era sobreviver. Não me entenda errado, nós tivemos bons momentos mesmo nessa época; comendo hot dogs de bisnaguinha assistindo X-Men: O Confronto Final na TV de tubo, passando uma semana das férias na casa dos primos, comemorando o Natal ainda que com presentes simbólicos. Ocasiões pontuais, mas o medo era constante. Não o medo de que alguma coisa pudesse me acontecer pessoalmente, eu realmente não temia isso, o que eu tinha era medo de voltar a sentir aquela pena. De voltar a perceber o quão pouco eu podia fazer para salvar minha família desse mundo que, pouco a pouco, mas cada vez mais rápido, retrocede a um estado de pré-história. Curioso, não é? Aquilo que devora os nossos pais deveria nos assustar também, mas hoje entendo que o maior mérito desses predadores é provocar a indiferença. E talvez por isso eu e minha família tenhamos sobrevivido. Pois enquanto vivíamos nossas vidas ditadas pela escassez, o que mais nos faltou foi a tal da indiferença. Essa realmente não tínhamos e nem cultivamos. Às vezes só com pão e salsicha, um DVD alugado de R$3,00 e suco Tang, a gente fazia uma festa. Posso falar apenas por mim, mas foram essas pequenas ilhas de felicidade que mantiveram viva minha capacidade de sonhar sem a qual muito provavelmente, hoje, eu não estaria aqui refletindo sobre isso.

Quem sabe, a capacidade de imaginar um mundo melhor seja por demais indigesta aos seres adeptos desta cultura primitiva que privilegia os mais fortes, com mais dentes e mais recursos. Eles lutam para nos transformar em uma espécie apta a dominar este planeta por milhões de anos, mas não percebem que nós já somos algo melhor. Os dinossauros sobreviveram aqui por 167 milhões de anos, mas somos nós, seres humanos, que conseguimos entender e contemplar todos os 4,6 bilhões de anos da Terra. Pode até ser que nós não consigamos persistir existindo por tanto tempo, e é bem provável na verdade que venhamos a causar a nossa própria extinção nos próximos 100 anos, mas em nossa breve passagem por aqui, nós não apenas sobrevivemos, nós vivemos. E não apenas as nossas vidas, mas através da ciência, da arte, da cultura, das trocas de carinho tão humanas e desprovidas da indiferença que tentam nos enfiar goela abaixo, nós vivemos também a vida de todas as trilobitas, dos primeiros anfíbios, répteis, dinossauros, aves, insetos, peixes, mamíferos, primatas e outros humanos que vieram antes, de alguns que podem vir depois e de outros que sequer existiram. Nenhuma outra forma de vida na Terra antes foi capaz de imaginar o começo do universo e nem de tergiversar sobre o seu fim. Eu cresci impotente frente aos grandes predadores de instintos pré-históricos, em um bairro onde minha família também poderia ser devorada por eles a qualquer momento. De fato, acho que algumas vezes nós fomos. Ainda sinto aquele medo de voltar a ter pena deles, mas hoje, ao menos, sei que posso salvá-los de alguma maneira. Curiosamente, da mesma maneira que eles me salvaram também. Com filmes.
Mas, como?
Bom, voltemos aos tempos atuais, pois Oak Street é sobre o encontro do passado com o presente. Ao menos, o presente dos EUA de 1982, quando o país enfrentava justamente o quê? Uma enorme crise de desemprego fruto de uma dura recessão econômica, conduzida de forma desastrosa pelo então presidente Ronald Reagan, que fortaleceu a elite do país retirando impostos dos mais ricos e agindo para enfraquecer os sindicatos de trabalhadores. Essas medidas aprofundaram as desigualdades sociais nos Estados Unidos em uma década que ainda testemunharia a pandemia de HIV e AIDS, solenemente ignorada pela gestão Reagan, o que certamente ajudou a inflar o número de mortes pela doença, que só nos anos 1980, matou mais de 70 mil pessoas naquele país. Foi um período tão sombrio por lá, que o encarceramento em massa de jovens negros como resultado de uma suposta “guerra às drogas” e o intervencionismo que ajudou a instaurar ditaduras na Coreia e nas Américas Central e do Sul, quase passam como notas de rodapé.
Foi nessa década, porém, que os lobos e seus yuppies de estimação em Wall Street prosperaram como nunca. Então nem preciso citar que, assim como a personagem Denise de Anne Hathaway, minha mãe também tinha sonhos de ser uma escritora, para desenhar o paralelo óbvio que estou tentando montar aqui. Não foi só na minha infância e nem apenas os meus pais que estavam à mercê de predadores com postura pré-histórica. Aquilo que devora os nossos pais está à solta há muito tempo. A nossa lenta marcha de retrocesso não começou com Trump ou Bolsonaro, sendo eles simples sucessores deste legado de “dinossaurização” social que teve início no auge da revolução industrial. Inclusive, acho que tentaram instalar globalmente o primitivismo lá na década de 1940, com Mussolini, Hitler e aquela galera bacana. Não deu certo, o mundo não estava pronto. “Eles gostam do que tenho a dizer, só não gostam da palavra nazista”, disse alguém por aí. Mas desde então tivemos Israel, Vietnã, o genocídio em Gaza. Teste após teste, falhamos em nos importar enquanto populações inteiras da nossa própria espécie foram e ainda são devoradas ao vivo e em cores na frente de todos. Vídeos flagrantes dos horrores no exterior e aqui no Brasil se misturam no algoritmo das redes, que bombardeia o usuário de estímulos e conteúdos cada vez mais fáceis de serem consumidos e, agora, produzidos, com o advento da Inteligência Artificial Generativa — uma nova otimização do processo de “dinossaurização”, pois cultiva a indiferença, idiotiza seus disseminadores e ainda aquece o planeta, tudo num fôlego só. Recuando um passo depois do outro, estamos voltando para a Caverna de Platão, cada vez mais felizes em apenas assistir às sombras na parede. O problema é que as sombras hão de virar monstros, e o medo vai nos manter presos, e presos seremos presas fáceis.

E esse é meu ponto aqui: o outro lado já entendeu o ritmo da marcha. Ela se dá forçando a barra aos poucos. Achávamos Aécio ruim, tivemos Bolsonaro e agora estamos tentando impedir a ascensão dos Pablos Marçais e Renan Santos da vida, e isso tudo ao longo de apenas uma única década. Entendo e, inclusive, sou muitas vezes adepto de uma radicalização no combate a essas forças que avançam tão impunemente sobre as nossas liberdades e sensibilidades, mas enxergo com preocupação esta energia de contra-ataque ser colocada na criação de uma grande carapuça, no desenvolvimento de espinhos nas costas, no engrossamento do couro. Sinto que, no final, estamos aderindo ao plano deles e virando também dinossauros. Permitindo que nos dividam em dois grupos massificados: eles, os carnívoros, nós, os herbívoros. Nem todo comedor de planta era fraco e vulnerável, estegossauros e anquilossauros, por exemplo, foram dinossauros robustos que mais pareciam tanques de guerra. Dinossauros, ainda assim. Criaturas simples, sem nuances, equipadas apenas para se defender e sobreviver. O que no nosso cinema se traduz, ao meu ver, em obras que são hoje, sem dúvidas, mais incisivas, mais representativas, mais denunciantes, mais urgentes e mais importantes, ao passo que progressivamente se mostram também menos interessantes ou intrigantes, e até menos narrativas e estéticas. Ou pior, chegam com estilos pré-fabricados, burocráticos e protocolares. Não há, quase nunca, uma reflexão ou um uso consciente da linguagem, da técnica, da estrutura. Esses parecem, inclusive, até rechaçados pela maioria das nossas produções (nossas, o cinema nacional, brasileiro, claro, mas também o contemporâneo mundial em muitas instâncias).
Compreensível que, na busca por um cinema mais progressista, se reneguem os padrões e mecanismos estabelecidos nos Estados Unidos e na Europa e formatados pelo odiado combo dos “homens cisgênero, héteros e brancos”, óbvio, especialmente se a gente for puxar uma lupa e falar do movimento queer. Contudo, essa rejeição não deveria implicar em abandono total da linguagem (isso quem fez foi o Godard, que era o mais insuportável dos “homens cisgênero, héteros e brancos”), mas sim em uma reabilitação da linguagem, ou quiçá a reformatação da mesma. Só para citar um exemplo recentíssimo, Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026) foi um que entendeu o coração da empreitada que deveríamos estar tocando. Urgente, importante e repleto de denúncias, mas também visceral, divertido, catártico e profundamente artístico. Não deveríamos abandonar a Arte com A maiúsculo para nos proteger daqueles que querem nos devorar, pois ela é o marco civilizatório que nos mantém evolutivamente distantes desses predadores. Não digo que toda obra deva ser igual, digo que é exatamente isso que já está acontecendo. Filmes sobre adolescentes na periferia, sobre abusos de meninas na Amazônia e peças nostálgicas sobre a vida no litoral na década de 1990 chegam todas embaladas em ritmos, tons e atmosferas similares. Longas que, em tese, apresentam intenções tão diferentes quanto comover, chocar e aquecer o coração, mas que no fim acabam até se misturando na cabeça de tão similares que são os seus pacotes e processos. Isso só para citar 3 filmes brasileiros de destaques no último ano.
O cinema brasileiro está, eu sei, apenas refletindo uma tendência mundial que, justamente, busca ir na contramão disto que alcunho aqui de “dinossaurização”. O chamado “cinema humanista”, que sacrifica um tanto de estética e estilo em prol de um olhar mais humano para seus personagens, dilemas e atritos sociais tomou conta de festivais, mostras, premiações e dos grandes espaços de destaque internacional nos últimos anos, até como uma adequada forma de reação aos sombrios tempos atuais, apresentando obras poderosas mesmo quando essas apostam no naturalismo, na crueza ou na secura narrativa. No entanto, não se pode acusar Hamaguchi de ser desinteressante, Kore-eda de avesso à estrutura, Ken Loach de monocórdio ou os irmãos Dardenne de assépticos. Isso sem contar Julia Ducournau, Park Chan-wook, Kleber Mendonça Filho e Bong Joon Ho, exemplos de cineastas que conseguem executar um cinema humanista e, ao mesmo tempo, abraçar apaixonadamente os potenciais do Cinema enquanto linguagem, técnica, mídia e forma de Arte, e não apenas plataforma de discurso.

Entendo a vontade de rugir e produzir obras que fechem os dentes na ferida, mas deveríamos conseguir fazer isso com estilo e, principalmente, humildade. Humildade de entender que um filme sozinho não muda o curso da história, mas talvez se torne importante para algumas pessoas a ponto de inspirá-las. O outro lado vem empurrando sua involução geração após geração, devorando os nossos pais, e os pais deles antes disso, e os pais dos pais deles primeiro. Se queremos contra-atacar com uma revolução, precisamos entender que somos senão pegadas na trilha que um dia há de culminar na extinção desses dinossauros — então podemos muito bem nos divertir no caminho, pirar, brincar, experimentar, realmente chocar, provocar, perturbar e incomodar (algo que nosso comportado cinema denúncia certamente não faz por costume, com raras exceções). De outra forma, que filmes acolherão as crianças andando hoje pelas periferias desse Brasil com medo de ver suas famílias virarem almoço de Alossauro a qualquer momento? Que filmes desvelarão a elas as possibilidades da sétima arte enquanto ferramenta de encantamento, horror, alegria e comoção? Que filmes as salvarão da pena? Basta de permitir que os dinossauros ditem como nossos filmes são, e pensemos para onde o nosso cinema pode evoluir.



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