Backrooms e os não-lugares na era da Inteligência Artificial
- Luiz Machado
- há 1 minuto
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Na infância, muito antes de descobrir de fato o que somos, ou quem somos, nós já sabemos como somos. Se você pedir para alguém descrever uma pessoa ela vai falar o básico: uma cabeça, dois braços, duas pernas, cinco dedos em cada mão e em cada pé, um pênis ou uma vagina, dois olhos, um nariz, uma boca com lábios, dentro tem língua e dentes. Ou ela pode ir para um lado um pouco mais empírico: ela tem um sorriso bonito, uma energia expansiva, o tipo de pessoa que alegra qualquer ambiente, usa um perfume fresco e forte, cítrico, mas um pouco doce. Está sempre usando roupas um pouco maiores do que seu corpo, pois foi uma adolescente que sofreu bullying por causa de sua aparência. Por isso, inconscientemente, acaba por se esconder.
Se você pedir para uma criança desenhar uma pessoa, ela vai ser direta, mas bem clara. As características citadas acima podem aparecer de uma forma ou de outra.
Não importa como você pense em “pessoas”, você sabe como elas são. Você vê pessoas todos os dias, de longe e de perto. No espelho, na rua, na cama ao seu lado todas as manhãs. Jovens ou velhas, suas imagens, texturas, odores e gostos estão gravadas profundamente na gente como polaroids no fundo de nosso cérebro.
Agora, se você pedir para uma ferramenta de Inteligência Artificial gerar a imagem de uma pessoa, ela vai buscar referências online de como uma pessoa é. Ela não sabe, ela não tem como saber, ela foi programada para reconhecer, mas ela não é, portanto ela nunca vai entender.
A partir de um Frankenstein de referências online, a ferramenta vai costurar a memória de uma pessoa. Algo que se assemelha a uma, mas nós, seres humanos, sempre vamos perceber que tem alguma coisa muito estranha ali. Sorrisos largos demais, com dentes demais, mão com formatos esquisitos, dedos extras, olhares perdidos e, dependendo da configuração, braços tortos de maneira monstruosa. Mesmo que, depois de muitas tentativas, a máquina consiga reproduzir de fato, o que é um ser humano, no fundo a gente sempre vai olhar para essas aberrações e perceber que por trás daqueles olhos gelatinosos, não existe uma alma.
Essa é a explicação básica do conceito de uncanny valley (vale da estranheza, em tradução livre), mas que se aplica também sobre o tema do filme Backrooms (2026).

Inspirado por uma creepypasta (lendas urbanas da era digital) iniciada no fórum de imagens online 4chan em meados de 2019 sobre não-lugares escondidos em espaços liminares (espaços que, justamente, evocam este sentimento de uncanny valley), o jovem de 16 anos, Kane Parsons (querido!), usou os softwares Blender e Adobe After Effects para animar o curta The Backrooms (2022), que daria ainda mais fama ao conceito. Agora, aos 20 anos, ele estreia na direção do filme que estreia nos cinemas amanhã, dia 28.
A história é bastante simples: Clark (Chiwetel Ejiofor) é o dono frustrado de uma loja de móveis nos anos 1990. Alcoólatra e abandonado pela esposa, ela busca aprovação até de sua terapeuta, a famosa Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), mas tudo na vida de Clark muda quando ele percebe uma porta no porão de sua loja. A anomalia na parede leva para esse não-lugar, como o esperto subtítulo brasileiro aponta, onde Clark passa a explorar corredores e mais corredores todas as noites.
O conceito de “espaços liminares” é bastante antigo e explorado na cultura pop. A palavra vem do termo “liminaridade”, criado por Arnold van Gennep e desenvolvido depois por Victor Turner para definir estados de transição, momentos em que alguém existe entre uma coisa e outra. Com o tempo, o conceito passou a ser associado também a lugares que parecem presos nesse mesmo estado: corredores vazios, salas silenciosas, espaços familiares desprovidos de presença humana, ambientes que existem entre o reconhecimento e o estranhamento. Lugares que parecem reais, mas que possuem alguma coisa profundamente errada em sua estrutura, quase como se fossem aproximações artificiais da realidade.
Lembro-me muito bem de pensar bastante sobre isso lendo o conto Sonhos na Casa da Bruxa, de H. P. Lovecraft, em que o protagonista descobre um ângulo impossível na parede de seu quarto, uma geometria que simplesmente não deveria existir no nosso mundo, mas existe mesmo assim.

Talvez seja exatamente por isso que imagens geradas por inteligência artificial causem uma sensação tão parecida a dos espaços liminares. Elas entendem a estrutura das coisas, mas não a experiência de existir dentro delas. Assim como a IA reconhece padrões do que um rosto deve ser, ela também sabe como um corredor deve parecer, mas constrói tudo isso a partir de aproximações estatísticas, não de memória, sensação ou consciência.
O resultado é uma espécie de arquitetura emocional vazia, de corredores infinitos e cada vez mais disformes.
Todas essas questões me voltaram muito à mente enquanto assistia ao filme de Kane Parsons que, surpreendente, busca uma abordagem muito mais humanista do que explosiva ao contar essa história. A curiosidade é o ponto central aqui, todos os personagens gravitam em direção à estranheza. O público apreensivo assiste desesperado, esperando eles voltarem, mas torcendo para irem fundo também. Queremos ver mais e mais e mais e mais daqueles espaços. Sem perceber que a imitação do nosso mundo apresenta um perigo tão existencialista quanto físico.
Se existe um lugar sem alma, como ficam os horrores aos quais sobrevivemos todos os dias? Como ficam as nossas lutas e as nossas dores?
É tudo tão difícil e trabalhoso que um “não-lugar” parece uma boa casa.
Mas, tal qual no uso desenfreado de uma ferramenta como a IA generativa, que arranca a nossa humanidade da equação, como ficamos quando perdemos tudo o que torna o nosso mundo “nosso” e nossos corpos reconhecíveis? A resposta parece ser sempre autocanibalismo.

Em The No-End House, segunda temporada da antologia Channel Zero (2016 - 2018), um grupo de jovens entra em uma casa assombrada que replica o nosso mundo e não consegue mais sair. Dentro das casas de subúrbio deste espaço liminar existem “cópias”. Réplicas emocionais imperfeitas de pessoas que precisam consumir suas lembranças, absorver suas dores, reproduzir seus comportamentos até que reste apenas uma versão vazia deles mesmos caminhando pelos corredores.
Ainda que tenha sido lançada há 10 anos, antes da IA como a conhecemos hoje ser aplicável, a série parece seguir em paralelo ao que Parsons quer evocar aqui: a ideia desse lugar que não existe a partir de experiência, mas da digestão. O ato de devorar milhões de imagens, memórias, vozes e rostos humanos para reconstruir aproximações daquilo que se entende como “real”.
Um processo que lembra menos criação e mais assimilação.
Curiosamente, o ponto de convergência de todas essas histórias talvez seja o trauma familiar e a maneira desesperada como tentamos nos agarrar às memórias de quem amamos. Porque, no fim, “não-lugares” revelam ansiedades humanas muito concretas: medo do abandono, da repetição, da substituição, da incapacidade de se conectar. Não por acaso, Exit 8 (2025), adaptação do videogame homônimo, transforma a estética fria dos espaços liminares em um melodrama sobre paternidade (com um recorte bem incisivo da realidade japonesa) e o terror silencioso de perceber a própria incapacidade de ocupar um novo papel na vida adulta.
Esses lugares estranhos funcionam como espelhos onde nossos medos se mostram às avessas. Sempre voltamos à nós. Quem somos e como nos percebemos… Ou melhor: nos descrevemos.

Criamos arte porque precisamos nos expressar, transformar memória, trauma e amor em alguma coisa palpável antes que tudo desapareça. E é justamente por isso que Backrooms (2026) funciona tão bem. Em meio a uma safra de terrores cada vez mais irônicos e autoconscientes, o filme me bateu como um raro exercício de honestidade, em vez de se obrigar a ser necessariamente uma obra mais preocupada com a complexidade de seu próprio lore digital.
Existe uma segurança quase ingênua na maneira como Kane Parsons constrói suas imagens para refletir o desconforto humano destes personagens. É um filme demasiadamente simples e um pouco literal demais, pelo bem e pelo mal. A solução final para salvar a vida de sua personagem parte de uma representação física das memórias que ela tanto se segura ao longo do filme. É piegas, mas como tenho ressaltado, honesto e bastante contundente em um universo de repressão.
Para nós, o que resta, é de fato saber quando é a hora de escapar, antes que tudo seja dominado por esses cartazes de desaparecidos e reproduções desmioladas de tudo de mais bonito que o nosso mundo produziu.