• Gustavo Fiaux

[Crítica] American Horror Story: Death Valley é a história certa no momento errado



Ao longo de dez temporadas (e um spin-off desgraçado de ruim), American Horror Story já foi um pouco de tudo. De análise mais complexa dos horrores americanos à comédia aloprada, a série nunca se limitou a ser uma coisa só. Se, de um lado, você tem Asylum e Roanoke cumprindo o papel de algo mais denso, do outro também pode recorrer a Cult e 1984 para algo um pouco mais surtado e divertido.


E, de muitas formas, Double Feature (décima temporada da série) talvez seja a que melhor retrata esses extremos opostos na obra de Ryan Murphy. Com a proposta de fazer duas histórias em uma, o novo ano de AHS tenta ao máximo exibir sua versatilidade. Mas o que poderia ser um grande acerto, ao menos em premissa, na execução se mostra um tanto quanto errática.


A experiência de ver Death Valley (a segunda parte da temporada) foi confusa. Cada episódio era divertido e cheio de um ar ensandecido, mas faltava um quê especial para ajudar na diferenciação de cada capítulo. Então, se o primeiro já tinha me feito sorrir de orelha a orelha com seu humor quase desconfortável, lá pelos últimos eu estava achando tudo mais do mesmo.


Porém, a real é que, passado todo o sofrimento e toda a dor, até consigo ver algo de bonito em Death Valley. Não é a história mais bem polida e amarrada da série, mas funciona até certo ponto como um exercício da loucura extrema que Ryan Murphy já incorporou em outras produções — e, de algumas formas, lembra até um pouco Scream Queens (se isso é bom ou ruim, cabe a você dizer).



Além do mais, essa sim traz “duas histórias em uma”, já que todos os episódios se propõem a mostrar: o passado e a forma como os alienígenas invadiram a Terra, com aval do governo norte americano; e o presente, acompanhando um grupo de amigos sequestrados pelos aliens. Ao fim, todos eles terminam grávidos de bebês híbridos, na tentativa de um experimento para criar o “futuro da espécie” na Terra.


E embora essa parte no presente seja a responsável pelos maiores surtos, como o plot do casal gay decidindo que quer ter o bebê alien para finalmente formar uma família, ou então toda a história dramática envolvendo porra ácida no primeiro capítulo do segmento, a parte do passado também tem seu charme. Ali, vemos uma série de teorias da conspiração interligadas e cada vez mais absurdas. É onde vemos Dwight Eisenhower, o 34º presidente dos EUA, fazendo um pacto faustiano com alienígenas sábios e sádicos, ao mesmo tempo em que sua esposa, Mamie Eisenhower, manda ver com um robô das estrelas.


E é bem interessante observar como essa temporada se manifesta na “era da pós-verdade” porque os roteiros poderiam ter facilmente saído de qualquer fórum de terraplanistas. É bobo, é ridículo e é estúpido, mas a própria temporada força você a encarar esses absurdos cada vez que ela dá uma virada dramática megalomaníaca.



O problema está, no entanto, quando analisamos o contexto da série por um olhar mais abrangente. Ainda que tenha dividido opiniões, Red Tide (a primeira parte de Double Feature) é uma série consistente no que se propõe… Até o último episódio. Ali, a trama corre mais rápido que o diabo fugindo da cruz para oferecer uma resolução surtada e expor as grandiloquências que Murphy vez ou outra traz na série.


Death Valley, entretanto, é absurda do começo ao fim, desde o momento em que vemos quatro pessoas grávidas de alienígenas. O problema é que, antes de serem “Red Tide” e “Death Valley”, esses dois segmentos compõem uma temporada maior: Double Feature. E quem esperava qualquer tipo de ligação ou coesão vai se decepcionar.


Mesmo com vários astros dizendo que as duas "temporadas" seriam conectadas, a real é que não existe sequer um fio que junte Red Tide a Death Valley. São duas histórias isoladas que sofrem justamente por dividir o mesmo espaço e possuírem pouco tempo para se desenvolverem. Com seis episódios, a primeira parte precisa correr em seu último capítulo para dar um desfecho que amarre todas as pontas e passe o bastão para sua sequência.


E essa continuação também poderia ter dado um pouco mais de tempo para desenvolver alguns personagens intrigantes, mas que não conhecemos além do básico — que é o caso de Calico (Leslie Grossman) ou até mesmo Theta (Angelica Ross). Infelizmente, são quatro episódios que não arriscam muito na narrativa, o que passa a sensação de que todos são meio iguais entre si.



Do jeito que é, Red Tide parece uma temporada “espremida”, cujo último episódio consiste de fragmentos do que seriam mais capítulos em uma temporada normal. Já Death Valley é estendida além da conta. Ela é quase a premissa de um episódio de American Horror Stories, se este fosse esticado para caber em quatro horas de televisão.


No fim, ainda é admirável pensar em como Double Feature tenta dar vazão aos “dois lados” de American Horror Story. O contido e o surtado. O sisudo e o divertido. O refinado e o bagaceiro. Mas até mesmo nessa proposta a série acaba pendendo um pouco mais para o lado não-polido, o que faz com que duas potenciais histórias ótimas acabem enfraquecendo uma a outra.


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