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[49ยช Mostra SP] Bugonia: um Yorgos menos Lanthimos

  • Foto do escritor: Yuri Cesar Lima Correa
    Yuri Cesar Lima Correa
  • 15 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Foi sรณ recentemente, quando soube que assistiria a Bugonia (2025), que fui atrรกs de conferir Tipos de Gentileza (2024), o filme anterior do grego Yorgos Lanthimos que aqui no Brasil teve sua estreia um pouco acavalada com a de Pobres Criaturas (2023) โ€” ambos saรญram no mesmo ano. Estranho, porque nรฃo costumo deixar de conferir ainda no cinema filmes de cineastas cujo trabalho eu gosto, e eu gosto da filmografia do Yorgos. Entre Dente Canino (2009) e a releitura de Frankenstein, o รบnico de seus filmes que nรฃo considero impecรกvel รฉ o curta Nimic (2019), o que, em retrospecto, me faz entender porque adiei Tipos de Gentileza por tanto tempo: o racionalismo monocรณrdio com que Lanthimos expressa estranheza e inadequaรงรฃo me soa mais autรชntico quando num longa-metragem do que em histรณrias curtas. Na envergadura da duraรงรฃo de um longa, essa sua linguagem (mais para tom, na verdade โ€” jรก volto nisso) encontra tempo para se assentar, ganhar a confianรงa do espectador e assim revelar os personagens e conflitos que existem por baixo do manto estรฉtico. Entretanto, Yorgos volta em Bugonia num tom bem menos Lanthimos โ€” e aqui entra o que questionei hรก pouco: sua linguagem ainda estรก lรก, mas o tom รฉ bem mais palatรกvel.


O mais comercial dos filmes do celebrado cineasta grego segue sua nova tendรชncia: cores! Agora seus filmes nรฃo sรฃo mais baseados em paletas creme e azul, elas vibram com cores bรกsicas apresentadas levemente lavadas pela luz, algo que confere um certo ar de graรงa e classicismo condizentes com a pompa de sua ainda rigorosa direรงรฃo โ€” isso funcionou particularmente bem em Pobres Criaturas, com aquela pegada ilumiโ€ฆ Classiโ€ฆ Retroโ€ฆ Ah, funcionou lรก, ok? E ainda que tenha recaรญdas abstrativas aqui e ali, Bugonia รฉ tambรฉm objetivo e dinรขmico o suficiente para se passar por โ€œfilme de massaโ€, principalmente porque seu humor e violรชncia pungentes advรชm do absurdo facilmente reconhecido na situaรงรฃo apresentada: dois primos vitimados pelas aรงรตes de uma corporaรงรฃo malvada resolvem sequestrar a CEO desta empresa quando chegam ร  conclusรฃo de que ela รฉ uma alienรญgena disfarรงada de humana โ€” o filme รฉ um remake de um longa sul-coreano chamado Save the green planet! (2003), aliรกs.


Emma Stone e Jesse Plemons dรฃo sequรชncia ร  parceria com Yorgos Lanthimos; ela como a cรญnica CEO Michelle Fuller, ele como Teddy, o caipira e apicultor que lidera a empreitada criminosa enquanto serve de tutor para seu primo Don (Aidan Delbis). Stone foge da composiรงรฃo segura que lhe garantiu seu รบltimo Oscar como Bella Baxter e assume a persona da empresรกria preocupadรญssima com a sua imagem pessoal, apoiando-se em roupas e sapatos para soar mais imponente ao desfilar no meio do escritรณrio. Michelle precisa que todos a vejam como uma mulher de sucesso e assertiva, andando ereta e impecรกvel com um salto alto depois do outro enquanto cumprimenta seus funcionรกrios โ€” visรฃo que Yorgos entrega atravรฉs de lentes grande-angulares que nos permitem acompanhar a personagem dos pรฉs ร  cabeรงa ainda que estando muito prรณximos de suas feiรงรตes calculadamente cordiais. Por outro lado, Michelle nรฃo quer ser vista como fria e desumana, e sua insistรชncia para que os empregados saiam ร s 17h30, se puderem, รฉ tanto cรดmica quanto digna de pena. Falando em pena, รฉ isso que suscita tambรฉm a figura de Teddy, uma vez que Jesse Plemons decide vivรช-lo com uma ingenuidade comovente impregnada no modo vazio com que olha para tudo e no nervosismo que o impede de impostar a voz. Algo essencial para o funcionamento do nรบcleo central do filme, eu diria, pois รฉ a pena que sentimos por esses personagens que nos impede de enxergรก-los apenas como desprezรญveis. Ela por sua posiรงรฃo de poder e indiferenรงa quanto aos efeitos colaterais de seus empreendimentos; ele por sua ignorรขncia e paranoia que resultam em violรชncias atรฉ mesmo contra seu primo Don.



Contudo, Bugonia nรฃo chega a ser um filme polรญtico ou tampouco apolรญtico, pois sua discussรฃo ideolรณgica รฉ rasa em reflexo ร  prรณpria paranoia de seus protagonistas (elogio), vide o momento em que Teddy diz jรก ter feito parte de vรกrios tipos de subvertentes extremistas, que vรฃo da extrema-direita ร  extrema-esquerda. Acontece que o acirrado debate por uma verdade รบnica e o mรฉtodo de imposiรงรฃo da sua verdade enquanto fim em si mesmo รฉ uma disputa sem vencedores. Enquanto colocamos versรตes subjetivas do real para digladiar entre si, os fatos perpetrados por poucos com a anuรชncia de muitos seguem sendo concretizados todos os dias. Discutir o รขngulo sobre esses fatos nos mantรชm ocupados, mas nรฃo os altera e nem previne sua recorrรชncia. E aqui jaz o cerne de Bugonia: como explicar o absurdo para alguรฉm que estรก preparado para se aceitar com um pรกria? Como checar a veracidade e idoneidade de uma imagem pรบblica sabendo o tanto que se pode fazer para maquiรก-las hoje em dia? Caipiras ou CEOs, esquerda ou direita, estamos todos em estado de constante paranoia sobre a nossa prรณpria imagem, algo que mexe diretamente com o nosso ego, obviamente resultando no instinto de querer impor aquilo que pensamos ao outro. Nรฃo se tratam mais de bolhas, e sim de trincheiras. Antes a รฉpoca em que diziam que โ€œsabemos cada vez mais sobre cada vez menosโ€, pois agora parece que somos cada vez mais burros sobre esse pouco que sabemos. Nenhum tipo de inteligรชncia e conhecimento se constrรณi em modo de isolamento. A histรณria e a ciรชncia nos mostram que a interaรงรฃo รฉ vital para a geraรงรฃo de possibilidades, que levam a erros, que levam a novas possibilidades e expansรตes do pensamento. Agora, quando dois objetos imutรกveis se encontram, ninguรฉm sai do lugar.


Em tons de comรฉdia esquizoide, o filme se diverte com essa imutabilidade; com as nรฃo-concessรตes de ambos os lados, com a forma como se deformam pela idealizaรงรฃo que fazem um do outro โ€” Teddy se veste com um terno maior que seu corpo em uma tentativa falha de parecer โ€œsรฉrioโ€, enquanto Michelle torna-se uma figura realmente alienรญgena com a cabeรงa raspada e a pele coberta de creme branco sob a luz fluorescente. O fato, entretanto, segue ali, independente da verdade que faรงam dele, aguardando o desfecho violento na disputa de versรตes.


Esse texto faz parte da cobertura do Esqueletos no Armรกrio da 49ยบ Mostra Internacional de Cinema de Sรฃo Paulo, dando enfoque na programaรงรฃo que tenha cruzamentos com o cinema de gรชnero, as temรกticas queer e de sexualidade.
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