• João Neto

[Crítica] Doutor Estranho: O Multiverso da Loucura segundo Sam Raimi



Existe um fio condutor na carreira do Sam Raimi que respira através de todos os seus diferentes trabalhos. É a força-motora por trás do seu elaborado filme de terror B que o catapultou para o estrelato e que ainda pulsa à medida que ele se aventurava em terrenos cada vez mais desafiadores ao longo de sua filmografia. Independente de estar assinando um faroeste de vingança, suspenses gélidos, uma fábula moral diretamente do inferno ou uma trilogia cheia de coração sobre vigilantes aracnídeos, a digital desse cineasta está em sua paixão pelo próprio cinema; na ansiedade de um jovem aspirante; na gratidão por estar por trás das câmeras, sempre se desafiando a entregar um olhar único para cada uma de suas histórias. Pode beirar os dez anos desde que Raimi dirigiu seu último longa-metragem, mas seu retorno em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura veio não apenas pra provar que o velhinho não está fora de forma, mas também que seu trabalho fazia uma baita falta.


Seu regresso à uma nova Marvel, completamente diferente da que conheceu quando traçou o caminho para os arrasa-quarteirões de bonequinhos, apresenta um cenário desafiador para sua presença como autor. É sobre cair de paraquedas numa sequência já estabelecida dentro de um modelo de cinema ambicioso porém cansado, que limita seus próprios ramos como obras intelectuais a apenas fast food fílmico, sempre servindo como um degrau no caminho para algo maior — e que mesmo após quase 15 anos de jornada, ainda não oferece nenhum sinal de horizonte à vista.


Nesse sentido, podemos enxergar Multiverso da Loucura como o exercício de um diretor experiente testando as alavancas de um novo mercado. Em uma trama de multiversos, feitiçaria e demônios gigantes, o filme se beneficia das influências do horror para elaborar seus momentos mais fantásticos e contorna as amarras do estúdio com personalidade e ousadia numa extravaganza insana que combina alguns de seus maiores talentos pra criar o que ele sabe melhor: um espetáculo. Seja numa cabana isolada, na metrópole nova-iorquina ou nas mais variadas dimensões, Raimi aproveita tudo que a linguagem audiovisual do cinema o provê; suas artimanhas técnicas e direção lúdica oferecem um frescor empolgante às sequências de ação e de horror onde notas musicais se tornam armas de combate e almas esqueléticas se tornam as asas de um mago zumbificado.



Para os mais aficionados, não será difícil encontrar ecos de outros trabalhos de Raimi aqui, principalmente da sua brincalhona fase na trilogia Evil Dead. Em momentos, o filme se comporta como um primo mainstream de Army of Darkness (1992) com Arraste-me Para o Inferno (2009), desafiando os limites da plasticidade estética para criar uma experiência visual única, contorcendo e mutilando os corpos de seu elenco de maneiras cada vez mais intensas e gráficas — em especial de Benedict Cumberbatch, que em momentos canaliza uma corporeidade à la Bruce Campbell em seus dias de glória. Elisabeth Olsen retorna como uma impiedosa Wanda e encontra o desafio de achar o meio-termo entre a humanidade da personagem e a caricatura da vilã. E embora nem sempre haja êxito, o filme é dela.


Mas ainda há um escudo invisível em torno de sua existência que impede Multiverso da Loucura de ir mais além. A responsabilidade cai nos ombros da pressão dele se comportar como uma peça auxiliar e não como o show principal, mesmo que por apenas 2h. Portanto, há claras inserções do estúdio que destoam do trabalho geral em um roteiro zoneado e irregular. Mas ainda assim, Raimi encara essas concessões com ousadia e cinismo, subvertendo as expectativas de um momento grandioso para os fãs que culmina em um banho de sangue perverso à medida que personagens são dilacerados. Cinismo este que, por sinal, falta no superfaturado e cada vez mais complacente universo cinematográfico da gigante vermelha e do rato capitalista.


Se o primeiro Doutor Estranho lutava para conciliar a trama existencial do protagonista com o humor pastelão deslocado que o estúdio tanto ama entupir suas obras, Multiverso da Loucura não encontra dificuldade e abraça o camp, adequando-se ao tom mais cartunesco que sempre inspirou o diretor. E embora ainda exista um duelo entre ser um filme de autor e um filme da Marvel, no fim do jogo a voz de Raimi fala mais alto pois ninguém sabe filmar um belo e delicioso caos como ele.

 

DOCTOR STRANGE IN THE MULTIVERSE OF MADNESS

2022 | EUA | 126 minutos

Direção: Sam Raimi

Roteiro: Michael Waldron

Elenco: Benedict Cumberbatch, Elisabeth Olsen, Xochitl Gomez, Benedict Wong, Rachel McAdams, Chiwetel Ejiofor


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