[49ª Mostra] Que ninguém durma nas 'Ruas da Glória'!
- Yuri Cesar Lima Correa
- 27 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de out. de 2025

Me ocorreu que muitos dos nossos cineastas gays parecem estar há algum tempo tentando fazer a melhor versão do mesmo filme, e não digo isso porque Baby (2024) ficou ali na esquina enquanto Ato Noturno (2025) está vindo na sequência, mas justamente porque esses excelentes dois filmes já se somam a um universo de protagonistas jovens, homossexuais e solitários tentando se adequar nas selvas urbanas, interioranas e praianas do Brasil — quando não numa mistura desses, como é o caso deste Ruas da Glória (2025). Claro, o fato de uma obra estar engajada no zeitgeist não é demérito por si só, e alguma pesquisa acadêmica ainda há de estudar e quantificar esse movimento, que sugiro chamar de "Neorrealismo Homoerótico Brasileiro", no qual ainda se encaixariam outros títulos que adoro, como Praia do Futuro (2014), Beira-Mar (2015), Tinta Bruta (2018), Sócrates (2018), Vento Seco (2020) e 13 Sentimentos (2024). Isso para ficar só num panorama nacional recente.
Então me soou familiar quando Ruas da Glória já começa com planos noturnos da cidade do Rio de Janeiro e logo passa a acompanhar o inocente Gabriel (Caio Macedo) enquanto ele ganha olheiras e troca a pele sedosa pela vida noturna de bares, boates, sexo e drogas. Fiquei esperando, contudo, qual abordagem o diretor Felipe Sholl empregaria para reapresentar a história de ascensão e queda underground ambientada nas madrugadas do bairro da Glória. E muito embora seu retrato do bairro boêmio da capital fluminense possa soar genérico, podendo ser aplicado a qualquer outro centro histórico metropolitano do sul e sudeste do país, ele cumpre seu papel de estabelecer palco para a jornada do jovem professor de cursinho, que fugindo de uma família rica e homofóbica, acaba por se apaixonar intensamente pelo garoto de programa Adriano (Alejandro Claveaux). Romance fadado ao fracasso pela óbvia natureza impulsiva e cafajeste deste último, a situação leva Gabriel a uma espiral de atitudes cada vez mais desesperadas e autodestrutivas depois que Adriano some.
Insuspeita se confiado nesse começo meio protocolar, que chega a incluir aquele momento obrigatório em que o protagonista faz algo “maluquinho” para simbolizar seu desajuste (aqui é um grito de “foda-se” na janela), uma robustez tanto estilística quanto dramática se apodera gradativamente da narrativa, de modo que cheguei a pensar que o projeto tinha sido filmado em ordem cronológica; explicaria a crescente segurança com que o roteiro e a direção conduzem os arcos, atores, temas e até o olhar do espectador. Não foi o caso, segundo me confirmaram pessoas ligadas à produção. Sem jamais estigmatizar os habitantes dessa vida noturna que oferecem ou procuram por amor e prazer, Ruas da Glória tampouco os idealiza, conferindo a eles características humanizantes como o desejo, orgulho, tesão, frustração, ciúmes e anulação. Esta última cito mais em relação ao protagonista, cuja busca humilhante pelo amante desaparecido o faz abandonar dignidade e identidade próprias, passando a morar no apartamento em que ele vivia, usar as roupas que ele usava e o mesmo aparelho celular; passa, inclusive, a se viciar nas mesmas drogas, chegando até mesmo a se prostituir para um cliente regular de Adriano, usando seu nome — uma marcante participação de Wilson Rabelo.

Aliás, é ao retratar o sexo que o longa de Felipe Sholl se destaca. Graças também ao elenco, esses momentos soam espontâneos e orgânicos, com corpos desajeitados se entendendo e procurando encaixes no meio de beijos babados cheios de gana. E como a direção observa isso de maneira objetiva e paciente, nos permitindo acompanhar longamente o entrosamento dos transantes, o sexo em si acaba se assentando e ganhando uma naturalidade agradável — não poética ou performática, como é a ideia em outros filmes, mas simplesmente real. Afinal, existe uma diferença entre usar o corpo para expressar sexualidade e usar o sexo para se expressar, que é o que acontece aqui. É através do sexo que esses personagens travam algumas de suas trocas mais ricas, transmitindo uns aos outros e a nós, espectadores, quem eles são e como se sentem. Não há um resquício sequer de julgamento ou fetichização por parte da narrativa quando ela se debruça (e ela se debruça por muito tempo) na encenação do sexo, mas há uma insinuação de escuta; como se estivéssemos ali, ao lado da cama, para mediar a conversa entre duas pessoas (às vezes mais).
Em meio a tanto, Caio Macedo desenha com ingenuidade inquietante (para não dizer estressante) o seu Gabriel, enquanto Alejandro Claveaux apresenta um carisma e intensidade que justificam o gravitas que seu personagem exerce. Ambos têm a oportunidade de confrontar suas criações numa bela cena que Felipe Sholl conduz num único plano dentro de um apartamento durante uma tempestade — auxiliado também pela ótima direção de arte, que vende muito bem espaços habitados, e não apenas encenados. Todavia, Diva Manner é quem carrega a presença mais notável do longa na pele da empresária Mônica, dona de uma boate frequentada por Gabriel. A princípio, a personagem beira cair no frustrante lugar de “magical negro” atualizado para os Século XXI que pessoas trans e travestis negras passaram a ocupar em muitas produções queer, mas se safa da sina por revelar uma mulher que, além do tropo de mãe dos jovens desajustados, também tem desejos, tesão, sexo, códigos morais e até talentos. É ela quem, ao final, canta de maneira muito apropriada a famosa ária Nessun Dorma, da ópera Turandot de Giacomo Puccini, que comenta de maneira nada sutil, mas não menos eficiente, o desfecho da derrocada de Gabriel: “Que ninguém durma! Que ninguém durma! (...) Ao amanhecer, vencerei! Vencerei, vencerei”. Pois que venha o amanhã e, com ele, mais versões deste mesmo filme que segue sendo feito por nossos realizadores gays. Conquanto este modelo sirva de base para exercícios de direção tão assertivos e seguros como os que são vistos em Ruas da Glória, ao amanhecer, venceremos.

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