• Thiago Gelli

[Crítica] Filmes sobre o caso Richthofen perturbam por todos os motivos errados

Atualizado: Out 1



Ou se nasce homicida, ou maconha e sexo extraconjugal são suficientes para o convencimento. Ao menos é esse o argumento incontestado da antecipada sessão dupla sobre o caso Suzane von Richthofen, composta pelos títulos complementares O Menino que Matou Meus Pais e A Menina que Matou os Pais (ambos 2021), lançados simultaneamente pelo Prime Video e supostamente pensados para exibição nesta ordem, apesar do formato raramente ultrapassar o status de truque gratuito e oferecer pouco além de exaustão.


Um combate de depoimentos, ambos os filmes acompanham as versões narradas respectivamente por Suzane e por seu ex-namorado, Daniel Cravinhos, que cometeu os famosos assassinatos ao lado do irmão, Cristian.


Suzane, interpretada por Carla Diaz e sua peruca de tigela, é a primeira a relatar os acontecimentos, que vão desde seu primeiro encontro com Daniel até o momento do crime. Após 80 minutos, é a vez dele, que repete o mesmo processo, demonstrado através do mesmo modus operandi.



Histórias reais proporcionam a criação de filmes que, sobre elas, possuem perspectivas, interpretações ou mensagens a oferecer através do meio cinematográfico. No caso de true crimes, a rota costuma recorrer à construção de um senso próprio de terror/mistério ou, em casos de maior notoriedade, a estudos de personagem que mergulham em mentes perturbadas. A segunda, escolhida pelos filmes de Mauricio Eça, no entanto, não é apoiada por qualquer traço de linguagem. Tanto A Menina quanto O Menino apenas reproduzem os discursos que anunciam em seus títulos, e nada mais. São não-filmes que, em seu melhor estado, funcionam como encenações encomendadas por algum telejornal noturno, e até poderiam oferecer alguma forma de estímulo caso não contassem uma das histórias criminais mais famosas do país, já repassada centenas de vezes da mesma forma simplista exercida pelo roteiro dos dois longas — texto assinado, inclusive, pelos escritores Ilana Casoy e Raphael Montes, autores do livro Bom Dia, Verônica, que virou série na Netflix.


Enquanto Suzane e Daniel narram as obras com seus depoimentos, a narrativa em si tropeça para recriar o que é dito, e opta pela abordagem mais sóbria possível, isenta de personalidade fílmica. A composição dos quadros ou é claramente negligenciada, ou ancorada no óbvio e assustadoramente brusco. As diferentes perspectivas centrais não oferecem contraste visual fora a troca de algumas peças de cenário. A produção reconhece seus temas — desigualdade social, relações de manipulação, juventude e drogas —, mas não tem ideia do que fazer com eles, desorientada pela ausência de uma voz própria.


Suzane, que conta seu lado a partir de um ponto de privilégio e dissimulação, nunca é enfrentada pelo texto ou pela câmera, que se despem de ironia, consciência e sátira a fim de proteger a visão mais inofensiva possível. Desse modo, qualquer crítica aos longas pode ser rebatida com um simples “mas foi esse o depoimento”.


O resultado é uma representação alheia a muito do que agrega interesse ao caso, como o fascínio popular e o benefício da dúvida outrora atribuídos a uma assassina branca que, estética e socialmente, representa grande parte das classes média e alta. Novamente, os longas optam pelo mais direto e claro, especialmente em uma cena na qual os pais da homicida se sentam em cadeiras semelhantes a tronos frente à família Cravinhos, toda apertada em um sofá, enquanto uma trabalhadora doméstica negra paira em pé atrás do casal (ela nunca mais é vista no total de 173 minutos).





Assim, ascendem à superfície da história, da qual os longas nunca passam, os temas intrínsecos à juventude transviada: sexo e drogas. A narradora, em seu discurso infantilizante, repetidamente se defende ao alegar que Daniel lhe forçava a fumar maconha e a praticar sexo, coisas que a afastaram dos pais por não se sentir confortável em compartilhá-las. A versão do menino, que poderia ser aproveitada para rebater a construção conservadora e vaga da “jovem branca corrompida”, se contenta em inverter os papéis — agora é Suzane a alucinada por maconha e por temas libidinosos. Ao passo que os filmes se apoiam completamente no relacionamento entre os dois e não encontram nele muito a ser explorado, esses são os pontos principais de suspense, e se eles perturbam, é apenas pelo quão mundanos são e pela agressividade do puritanismo implicado.


À frente do double feature, Carla Diaz e Leonardo Bittencourt são encarregados de lidar com a estrutura que os delimita: sem nuance e sem caráter. Em A Menina, Carla apenas entrega suas falas aos gritos e palavrões, em um feitio que honraria Mamãezinha Querida (1981) caso circundado por qualquer traço de interesse ou humor; já em O Menino, ela recorre aos constantes gestos pueris de uma garota inocente. Sua caótica entrega ao exagero e à violência são fonte para os poucos momentos cativantes, e proporciona pensamentos do que poderia ter sido se a produção abraçasse algo para chamar de seu. Leonardo, por sua vez, desaparece ao fundo como mero acompanhante de cena da protagonista.


A dedicação ao relato nu e cru deixa nada ao filme além da busca pela recriação, objetivo inalcançável por natureza e afastado mais ainda pelo formato declaratório tão limitado, como numa reportagem mal escrita. As experiências se anulam, assim como a humanidade do caso e a presença de qualquer elemento que justifique a existência dos longas como veículo narrativo. Se algo pode ser retirado da prolongada experiência de assistir aos dois filmes recheados de si mesmos, é que a menina e o menino mataram aqueles pais, mais nada.



O MENINO QUE MATOU MEUS PAIS

Brasil | 2021 | 80 minutos

A MENINA QUE MATOU OS PAIS

Brasil | 2021 | 80 minutos


Direção: Maurício Eça

Roteiro: Ilana Casoy, Raphael Montes

Elenco: Carla Diaz, Leonardo Bittencourt, Kauan Ceglio, Debora Duboc, Allan Souza Lima, Gabi Lopes, Augusto Madeira, Leonardo Medeiros, Vera Zimmermann




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