• João Neto

[Crítica] Hellraiser: reboot serve muita dor, mas pouco prazer

Atualizado: 24 de out.



Para a mente de Clive Barker dar luz à histórias tão perturbadoras e marcantes, seus olhos já devem ter visto muitas coisas. Sua experiência em clubes underground da comunidade leather e BDSM em Nova York, por exemplo, inspiraram diretamente a criação dos Cenobitas de Hellraiser, desde sua estética até os conceitos da dor como fonte de prazer. Ainda assim, o livro The Hellbound Heart e, por consequência, sua adaptação de 1987, não eram provocativos apenas por essas figuras. Tínhamos em seu centro personagens complexos de índoles questionáveis, pactos faustianos, cunhados sociopatas hedonistas, mulheres reprimidas por desejos proibidos dispostas a estilhaçar os limites morais apenas para ressuscitar seu amante do inferno para mais uma boa foda.


Essas dinâmicas diabólicas eram tão ricas, interessantes e capciosas, não apenas porque sustentavam o filme antes mesmo sequer dos tais Cenobitas aparecerem em cena (a presença do próprio Pinhead não soma 10 minutos), mas também porque eram excelentes contrastes dentro das principais temáticas da história. Borrando as linhas entre o bem e o mal, onde a luxúria e a busca por prazeres heterodoxos costuram as narrativas de uma família disfuncional e entidades demoníacas sadomasoquistas. Era desafiando a normatividade que Barker, um autor queer britânico, fazia com que sua voz "monstruosa" fosse ouvida em um momento histórico de repressão - em meio à crise da AIDS e o governo opressivo da Margaret Tatcher.



No entanto, tão notório quanto os supracitados demônios está o descaso e maltrato que Barker e sua obra recebeu de Hollywood. O sucesso inesperado de um pequeno filme de terror queer independente levou à quase três décadas de direitos autorais nas mãos de produtores sacanas e gananciosos, condenando a franquia ao castigo de sequências esdrúxulas lançadas diretamente em DVD, de maneira tão impiedosa quanto os próprios serviçais do inferno.


Agora, estamos pela primeira vez em 25 anos testemunhando um novo filme feito por estúdio, um reboot que reapresenta o fascinante universo criado por Barker através dos olhos de David Bruckner, um dos nomes mais interessantes do terror dos últimos anos, devido aos seus ótimos O Ritual (2017) e A Casa Sombria (2020). Assumir essa tarefa de "trazer vida para a mitologia após seus dias mais obscuros" (descrição feita pelo próprio autor) pode ser vista tanto quanto fácil - afinal, pior que do que as continuações direto em DVD, não teria como ficar, certo? Certo?



Acompanharemos Riley (a ótima Odessa A'zion), uma jovem dependente química em recuperação que tem relações complicadas com aqueles ao seu redor, especialmente seu irmão Matt (o gostoso do Brandon Flynn), com quem está morando nesse período de adaptação. Ele, por sinal, não se sente confortável com o novo namorado dela, Trevor (o também gostoso Drew Starkey), pois acredita que ele possa ser uma instabilidade para o processo de recuperação de Riley.


Essas tensões principais resultam na moça saindo de casa e aceitando um "trabalho" com Trevor para faturar uma grana extra: invadir um galpão abandonado de algum ricaço. Lá, eles dão de cara com a misteriosa caixa que, como sabemos, irá invocar os Cenobitas. Aqui, o roteiro insere uma ferramenta barata e formuláica - mas igualmente funcional - em relação à operativa do quebra-cabeças, expandindo a mitologia por trás dele no processo. Uma vez aberta, a caixa assume seis configurações diferentes, consequentemente demandando seis sacrifícios, o que dá um senso maior de urgência aos personagens e à trama no geral. A última delas, a "Configuração Leviathan", promete ao manuseador poder e um encontro com o Deus que nomeia tal nível.



Jamie Clayton (Sense8) surge como a nova reencarnação de Pinhead, líder dos Cenobitas e Padre do Inferno, aqui numa caracterização mais próxima do conto original que o descreve como uma figura andrógena. Sabendo que substituir o rosto principal de uma franquia sempre é delicado e muitas vezes ricocheteia, Bruckner e Clayton são espertos ao forjar uma performance única que a difere do marcante Doug Bradley, intérprete em 8 dos 10 filmes já lançados. Clayton por si só se distancia da rigidez característica de Bradley, infundindo malícia e um ar de curiosidade ingênua (e igualmente perigosa) que a torna simplesmente magnética.


Somos introduzidos também à novos Cenobitas e uma repaginada no clássico Chatter (o com a arcada dentária exposta e tremida), mas o que chama atenção em seus visuais, Pinhead incluse, é a substituição das vestimentas de couro. Ou melhor, a adaptação, pois os mantos de couro preto dessa vez são a pele e carne viva dos próprios seres, se aproximando assim mais da cultura de modificação corporal, incluindo piercings e lentes negras que se assemelham à tatuagem nos olhos. Bruckner justifica em entrevista que tal escolha foi inspirada pela noção de que a relação do público com BDSM já não é a mesma que era nos anos 80 - "minha mãe lia Cinquenta Tons de Cinza". Mas isso também nos leva à um ponto importante desse reboot e que é, de longe, talvez sua absência mais sentida: Onde está a luxúria?



Os lamentos de dor que embalam o surgimento do título do filme são agilmente substituídos por gemidos de prazer num corte que parece indicar uma natureza fiel desse reboot, mas não demora tanto pra perceber-se que o elemento sexual não é apenas coadjuvante, é quase figurante. Voluntária ou não, parece haver uma lógica por trás dessa troca, pois o papel do desejo dentro da trama acaba sendo reformulado pra outros núcleos, como o vício, ganância e sede de poder. No entanto, em tempos tão conservadores, é no mínimo curioso ver uma nova adaptação de Hellraiser, vocalizada por todos os envolvidos como "fiel à essência da obra", ressurgir com estética tão limpa e polida, sem provocativa alguma. Podemos associar isso, claro, ao empobrecimento de arte queer sob efeitos do capitalismo, mas isso é assunto pra outro debate...


Uma porção de personagens sem características que são arrastados pela corrente da história, ao invés de impulsioná-la através de suas ações, enfraquecem o material. Não há muita complexidade neles ou ambiguidade moral, todos são posicionados sob luzes muito diretas e definidas e até mesmo os dilemas internos da protagonista (que seriam um prato cheio pra histórias sobre corrupção moral em busca do prazer) são desperdiçados em um arco previsível e nada audacioso. Resta ao personagem de um bilionário ganancioso assumir esse papel, mas convenhamos, se estivéssemos nesse universo, é óbvio que o Elon Musk estaria atrás da Caixa de Lemarchand. Mas que falta de imaginação...



Hellraiser acaba compensando em sua segunda hora, com uma atmosfera envolvente, fruto do excelente trabalho de maquiagem dos Cenobitas, uma caprichada direção de arte que brinca com a arquitetura de uma mansão à la 13 Fantasmas e a ótima trilha sonora de Ben Lovett, que flerta com o tema clássico do Christopher Young enquanto assina sua própria criação musical. Ainda assim, falta dente, astúcia e espinha nessa releitura, que pode expandir sua mitologia em escala e estilo, mas não conversa com seu impacto em tempos atuais. Sendo assim, os Cenobitas saem do seu inferninho sadomasoquista trazendo muitas dores... mas poucos prazeres.


 

HELLRAISER

2022 | EUA | 121 minutos

Diretor: David Bruckner

Roteiro: Ben Collins, Luke Piotrowski, David S. Goyer

Elenco: Odessa A’zion, Jamie Clayton, Adam Faison, Drew Starkey, Brandon Flynn, Aoife Hinds, Selina Lo, Goran Visnjic, Hiam Abbass


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