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  • Foto do escritorAlvaro de Souza

[Crítica] Segredos de um Escândalo: Todd Haynes e a farsa do subúrbio


Todd Haynes ocupa um lugar peculiar; é um dos poucos diretores a fazer parte do New Queer Cinema e que não apenas continua na ativa até hoje, como também conseguiu migrar para o mainstream. Além de levantar questionamentos do porquê disso (não é possível ignorar que os artistas que melhor conseguiram se inserir na paisagem hollywoodiana foram em sua maioria diretores homens cis e brancos), sua carreira também permite uma visão privilegiada sobre os temas que marcaram sua obra, podendo-se observar a maneira como eram tratados nos anos iniciais e como se adaptaram em produções posteriores. Olhando o panorama completo, conseguimos identificar que a filmografia de Haynes é marcada por obras que: ou são focadas em figuras do mundo da música (Velvet Goldmine, Superstar: The Karen Carpenter Story, The Velvet Underground, Não Estou Lá), ou releituras de gêneros clássicos de Hollywood, principalmente do melodrama. Em Mal do Século (1995), Longe do Paraíso (2002), a minissérie Mildred Pierce (2011), Carol (2015) e agora em Segredos de um Escândalo (título em português de May December), o que o diretor faz é abraçar (ou se inspirar em) um gênero marcado pela estilização visual e pelas emoções que afloram de forma desavergonhada para ressaltar a artificialidade das relações, da heteronormatividade e das normas sociais.


Haynes, portanto, está bem próximo do que B. Ruby Rich descreve em seu livro sobre New Queer Cinema, no qual ela explica que essa geração de cineastas marcados pela revolta e militância dos tempos do Act Up, pelo pastiche e pela apropriação, acabaram por produzir filmes que, entre outras coisas, pensavam na política do momento, sim, mas também numa história LGBT, na do próprio cinema, das representações e também no potencial para a subversão. Aqui, em Segredos de um Escândalo, uma atriz (interpretada por Natalie Portman) passa a acompanhar o dia a dia de uma dona de casa (Julianne Moore, colaboradora habitual de Haynes) que ela irá retratar em uma adaptação. O que torna esta mulher objeto de interesse tanto da atriz quanto dos produtores, é o escândalo em que se envolveu anos antes; já uma mulher adulta, ela engravidou de um garoto de 13 anos e, após sair da cadeia, manteve o relacionamento. Agora os dois têm três filhos e vivem uma vida de subúrbio comum (ou pelo menos assim eles gostam de pensar), e a presença da atriz irá causar turbulências naquele ambiente doméstico.



A história girar em torno da presença de uma atriz que desestabiliza um núcleo familiar é uma forma não sutil do filme apontar para o imenso jogo de espelhos e de atuação que se dá naquela casa. O subúrbio é um grande palco onde todos performam seus papéis até que esses pareçam algo natural. Um escândalo de pedofilia torna-se memória desagradável que se evita comentar, ou então é dito como anedota; da mesma fora, um segredo violento envolvendo dois irmãos queridos, também torna-se algo que deve apenas ser dito cochichando. Afinal nada pode abalar as engrenagens desse relógio suíço, ou existe o risco do mesmo parar.


Assim, o melodrama apresenta-se como a linguagem ideal para Haynes explorar o quão artificial é esse mundo que ele cria. Aliás, uma crítica comum ao gênero é seu abuso de emoções, a sua melosidade e possíveis exageros narrativos e estilísticos. Filmes considerados "respeitáveis" ou de "prestígio", costumam vir acompanhados de comentários como “sem cair nas armadilhas do melodrama” ou “superando os lugares comuns do gênero” e por aí vai. Mas Haynes vê justamente nisso o potencial para subversão. Se em Carol e em Longe do Paraíso ele se apropria de uma estética da old hollywood e do diretor Douglas Sirk para falar de assuntos que o Código Hays jamais teria permitido na época, em Segredos de um Escândalo os ecos de Tudo que o Céu Permite (1955) e A Malvada (1950) são combustível para a sua farsa da família nuclear. Personagens que choram copiosamente por causa de entregas de bolo canceladas e metáforas óbvias salpicadas pelo filme (como borboletas saindo de casulos e a televisão constantemente passando programas de reforma de casas caindo aos pedaços) surgem em perfeito diálogo com o pastiche que Haynes oferece, permeado por um humor cortante que não atenua a gravidade dos acontecimentos, mas reforça o absurdo deles. O filme brinca com o prazer secreto que existe em assistir a um escândalo, e também com as desculpas que são criadas para poder apreciá-lo (“estou atrás das áreas cinzentas da situação!”), enquanto mostra o que tem de desumanizador nele e no quanto afeta a longo prazo as vidas ao redor.


Portman e Moore são, sem dúvidas, o que mais atrai o olhar do público. Portman é essa camaleão que altera a própria voz, postura e maneirismos para copiar a personagem de Moore, mas sem realmente chegar ao centro do que ela é. Já a dona de casa de Moore está numa frequência similar, tentando imitar o que seria um ideal de esposa e mãe que ela jamais alcança, mas que performa para si mesma e para os outros. As cenas em que as duas estão juntas tem uma força hipnótica difícil de desviar o olhar; não só ambas estão numa sintonia que as engrandece como dupla, mas ver o jogo que as personagens fazem tem o efeito similar de olhar para dois espelhos um de frente para o outro. Ao final do filme, o espectador se pergunta se conseguiu ver um único momento de honestidade vindo dessas personagens.



Em contraponto, existe o personagem de Joe, o marido de Moore. Interpretado por Charles Melton (sim, o ator de Riverdale), Joe começa como um personagem secundário que cresce no decorrer do filme até se tornar o foco da parte final. A princípio alguém anestesiado que parece acreditar fielmente no ideal romântico de família que criou com sua esposa aliciadora, ele pouco a pouco começa a ver através das rachaduras os mecanismos da farsa que é a sua vida. A passagem do personagem da inércia para um princípio de epifania é algo que Melton apresenta com uma destreza admirável, ainda mais porque introduz o personagem como tendo alguma coisa de infantil na forma de se expressar, mesmo já sendo um homem de 30 anos no ponto em que a história começa.


O filme termina sem termos uma ideia muito clara do que será de Joe, mas uma abertura para a mudança ou pelo menos uma clareza maior do que está ao seu redor ele passa a ter. O personagem consegue superar a etiqueta que foi colocada nele em meio ao escândalo que marcou sua vida, e adquire a oportunidade de se tornar algo novo. Os outros? Seguem atuando. O show tem que continuar.


 

MAY DECEMBER 2023 | EUA | 113 min.

Direção: Todd Haynes

Roteiro: Samy Burch

Elenco: Natalie Portman, Julianne Moore, Charles Melton


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