• João Neto

[Crítica] Sem Saída: cinco suspeitos e uma nevasca



Em meio a uma nevasca, um grupo de estranhos se encontram buscando refúgio em uma parada de descanso situada em uma região montanhosa. Pouco a pouco, eles começam a

perceber que há algo de errado, o que leva a situação a caminhos violentos. E pode até parecer que estou descrevendo Os Oito Odiados (2015) do Tarantino mas na verdade, essa é a premissa básica de Sem Saída, novo thriller da Hulu (lançado aqui pela Star+), baseado num livro de mesmo título.


Claro, há mais nuances na história do que essa sinopse de três linhas, mas a comparação é um pouco inevitável. Aqui, uma jovem dependente química chamada Darby (Havana Rose Liu) foge da reabilitação para tentar visitar sua mãe, vítima de um aneurisma cerebral, no hospital antes que seja tarde demais. Forçada a passar a noite nesse alojamento isolado e sem sinal, Darby esbarra com quatro outros estranhos e uma van no estacionamento onde encontra uma garota amarrada.


A partir daí, a trama de Sem Saída segue seus pontos de virada para tentar entregar um suspense eficiente. Quem é essa garota sequestrada? De quem é esse carro? Como pedir ajuda sem levantar suspeita? Em quem Darby pode confiar? A maneira que ele estabelece todos esses pontos engaja; em certo momento usando um jogo de blefe para estabelecer os personagens e levantar desconfianças (sem dúvidas, uma das cenas mais interessantes do filme). Mas em seus fechados 90 minutos, o roteiro não permite que a panela pegue muita pressão; ele tem medo dela.



Sem muita paciência para esticar a tensão até o seu limite, parece que o filme sempre acaba mostrando suas cartas rápido demais, seguindo para o próximo obstáculo, resolvendo-o rapidamente e seguindo pro próximo. A partir do momento em que se nota esse padrão comportamental, ele deixa de ser imprevisível e se torna operativo. Um operativo decente e que ainda funciona, mas ainda operativo.


Talvez seja por isso que, à medida que a história avança e os riscos supostamente aumentam, não existe uma explosão catártica pois não há de fato uma boa construção de momentum. A direção do australiano Damien Thomas (Killing Ground) é surpreendentemente contida — adequada para a primeira porção da história, mas não exatamente para a segunda. Quando a merda atinge o ventilador, o filme assume um tom significativamente violento, mas sempre filmado sob uma distância segura demais para o seu próprio bem. Não há catarse em certas viradas do roteiro porque o diretor não as enxerga com ousadia. Até poderia ser justificado como "uma abordagem que banaliza a violência para torná-la mais impactante", mas esse argumento cai por terra quando momentos depois temos um pescoço rasgado banhando o rosto da protagonista em sangue.


O elenco, no entanto, sustenta a ação. A ótima Havana Rose Liu traz gravidade e complexidade à sua personagem, sabendo perfeitamente como dosar sua performance e apresentar intensidade nos momentos certos. Inclusive, é seu desempenho em um momento torturante envolvendo um prego que vende a cena e merece um destaque. Danny Ramirez também brilha como coadjuvante, ao lado da sempre bem-vinda Dale Dickey.


Ainda que Sem Saída peque em explorar toda a claustrofobia de sua configuração e a ousadia de seu terceiro ato, ele ainda funciona porque não tropeça nos elementos básicos de um clássico suspense Supercine. O mistério, as reviravoltas e a adrenalina ainda estão lá, com um elenco decente o suficiente para aparar qualquer queda. E talvez seja o programa descompromissado perfeito para um fim de noite, mas se espera um jogo mais recompensador com as mesmas cartas, talvez seja melhor fazer uma (re)visitinha ao Armazém da Minnie.


"Sem Saída" está disponível no Star+.

 

NO EXIT

EUA | 2022 | 94 min.

Direção: Damien Thomas

Roteiro: Andrew Barrer & Gabriel Ferrari

Elenco: Havana Rose Liu, Danny Ramirez, David Rysdahl, Dale Dickey, Mila Harris, Dennis Haysbert


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